Chapter Text
De todos os azuis existentes, Taehyung gostava mais do celeste. O jeito em que o céu azul contrastava com as torres do palácio, que exibiam a mais pura cor dourada, fazia olhar pela janela ser uma visão de encher os olhos. A cidade, logo abaixo, se estendia em um arco íris de cores, com ruas e mais ruas de caminhos tortuosos que levavam a um único lugar, o centro da cidade e o coração do reino: o Templo do Dragão do Leste.
E Taehyung, no auge de seus oito anos, sentado na janela e observando tudo da torre dos seus aposentos, sabia que logo o Templo estaria cheio de visitantes e famílias locais, todos reunidos para ver a coisa que os unia como um único povo: a família Kim, os regentes da Primavera, protetores do Portão Leste e receptáculos do Dragão Esmeralda.
Era uma grande honra, sua mãe lhe dizia desde a primeira infância. A dinastia dos dragões era a única que havia trazido paz para um outrora país dividido em guerras e fome. As quatro famílias que detinham o poder dos dragões também carregavam consigo o poder das estações e o nascer e decair de todo o continente.
E Kim Taehyung, o jovem príncipe, estava prestes a ser apresentado como herdeiro da coroa e receber o Dragão Esmeralda.
"Querido, venha até aqui." Sua mãe, a rainha Minyoung, estava vestida com lindas vestes púrpura, os cabelos castanhos cascateando sobre as costas nuas do vestido. Ela tinha belos olhos verdes, como todos os regentes da primavera tinham, e emanava um perfume de flores que Taehyung não sabia identificar. "Você sabe que dia é hoje, não sabe?"
Taehyung assentiu. É claro que sabia. Seu oitavo aniversário marcava o dia em que seria formalmente apresentado para todas as famílias e receberia sua marca de Dragão. Ele era jovem, mas não era desinformado. Acreditava-se que o jovem príncipe logo superaria seu pai, o grande rei Taecyeon, em inteligência e sabedoria.
"Hoje você conhecerá seus aliados, as famílias do Sul, Norte e Oeste. Cada um deles detém uma estação, e você como futuro rei da primavera deve saber que nenhuma destas famílias é uma ameaça. Todos nós somos vassalos do mesmo poder, um poder que vem muito antes de todos nós aqui virmos ao mundo. E hoje você vai carregar a marca deste poder."
Taehyung entendia essas palavras, mas o verdadeiro significado delas ainda era confuso em sua mente. Ele sabia que as famílias não eram ameaça, por que deveriam ser? Porém, o rosto de sua mãe, sempre delicado e gentil, agora continha uma força que ele não era familiarizado, quase como uma preocupação velada.
"Está vendo essa marca no meu pulso?" Minyoung estendeu o braço para o filho, que olhou com atenção, em um curioso silêncio. "Essa é a marca que recebi quando tinha a sua idade, a marca que me tornou o Dragão do Leste. Apenas nossa linhagem tem essa marca e apenas nosso sangue pode carregá-la."
"Eu sei, mamãe. Eu aprendi isso com o senhor Lee."
Minyoung sorriu para o filho.
"Eu quero que você saiba, Taehyung, que ser o Dragão têm muitas responsabilidades e perigos. O mundo está mudando e com ele, mudam-se os homens. E você tem algo que eles não têm, por isso eu preciso que fique de olhos abertos hoje."
Não sobrou nada para o jovem príncipe dizer além de concordar com o pedido e ser envolto por um abraço.
☽☾
O Templo Leste era algo a se admirar. Cada parede era coberta por figuras douradas que contavam a história da milenar família Kim, cada um dos antigos reis e rainhas se estendendo pelos corredores. O teto fazia um u pelo templo, cobrindo os assentos, mas mantendo aberta a grande árvore que se estendia em sua enorme altura para o céu, logo nas portas do templo. Sendo sustentado por vigas púrpuras que eram cobertas por plantas verdes, o templo inteiro era uma amostra do poder da primavera, e como tal, florescia em centenas de cores e perfumes.
Taehyung segurava a mão da mãe enquanto entrava no templo, que estava vibrando com pessoas que viajaram até a cidade para vê-lo. Seu povo gritava e torcia para ele, apaixonados pela visão do jovem príncipe herdeiro, um lindo menino de cabelos castanho claro e olhos verdes. Suas vestes, um longo robe de seda púrpura com um cinto dourado eram também uma manifestação do poder de sua família. O púrpura pertencia à família Kim e o dourado era do ramo principal, simbolizando o sangue real dos descendentes dos dragões.
Sua mãe e seu pai se encaminharam para os tronos no fundo do templo, sua mãe se colocando sob a figura do dragão do Leste, um enorme mosaico do dragão roxo que todo o seu povo adorava. Taehyung caminhou até o tapete dourado entre seus pais e se ajoelhou.
Um tambor foi tocado e o povo se silenciou quando o mestre do templo entrou, também vestido de púrpura, mas sem nenhum ornamento dourado. Era expressamente proibido usar dourado dentro do sagrado local se não fosse parte da família real, mas Taehyung realmente não se importava sobre essa regra. Planejava destituí-la assim que subisse ao trono, quando completasse 22 anos. Adorava o jeito que o ouro abraçava o roxo e não via motivo em privar seu povo dessa beleza por causa de uma regra tão desnecessária.
"Nação do Leste!" O homem gritou, chamando a atenção de todos. "Hoje celebramos o dia do oitavo aniversário do nosso amado príncipe herdeiro, Kim Taehyung, o segundo de seu nome!"
A multidão berrou, erguendo os braços. Taehyung espiou o lugar, os olhos verdes correndo pelo templo até caírem em quem queria ver: seus primos, Kim Seokjin e Kim Namjoon, ambos sentados na primeira fileira, sorrindo para ele e gritando junto com a multidão. Os dois eram mais velhos que ele, os filhos de seus tios Boseok e Jihyun, irmãos de seu pai. Os três eram muito unidos, quase como verdadeiros irmãos, e Taehyung planejava tê-los como seus generais mais estimados quando alcançassem a idade necessária, seus amigos mais leais e companheiros de travessuras pelo castelo.
"Hoje celebramos a família real se renovar mais uma vez e veremos o fogo se erguer sobre o céu se o jovem príncipe for considerado digno de ser o receptáculo do Dragão do Leste!"
Taehyung tremeu. Sabia sobre essa parte também, mas não conseguia se controlar o suficiente para simplesmente encarar a tarefa com facilidade. De acordo com as tradições milenares, os dragões do Norte, Oeste e Sul iriam acender com fogo o círculo que ficava no chão do centro do templo e nesse fogo Taehyung entraria, sendo julgado sob pena de morte ou profunda desonra pelo fogo celestial. Após o julgamento, se fosse considerado digno, deveria queimar a grande árvore de sua mãe, deixando em brasas todos os seus ramos e folhas e transformá-la em cinzas, simbolizando o fim da primavera de Minyoung, algo que vinha de uma tradição do povo do outono e inverno. Das cinzas do grande loureiro, Taehyung plantaria sua própria árvore e a faria florescer na frente de todos os seus súditos, uma tradição que vinha do verão. Quanto mais alto a árvore chegasse, melhores seriam os augúrios de seu reinado. Após o florescimento, finalmente seria considerado o Dragão da Primavera.
Sua mãe se ergueu do trono, comandando o silêncio de todos os presentes ao vê-la em todo o seu poder e graça. Ela sorriu para a multidão, seus olhos sempre gentis e misericordiosos. Taehyung nunca iria entender como sua mãe governava tantas pessoas e mantinha sempre seu carisma. Era uma coisa que ele esperava ter herdado dela, já que seu pai era tão carismático quanto uma porta. Terrivelmente inteligente e também muito bonito, mas sem um pingo da graça que a esposa carregava. Taehyung assumia que o motivo disso era porque ele não era um nobre, tendo cortejado a, na época princesa, sem nem perceber de quem realmente se tratava.
Miyoung abriu os braços e de suas mãos quentes labaredas voaram.
"Todos saúdem a família Jung, os Dragões do Verão, Protetores do Portão do Norte!"
Taehyung imediatamente encostou a testa no chão, em sinal de absoluto respeito enquanto todos ao seu redor se curvavam para os Jung, que entravam no Templo. Fez-se ouvir um furioso rugido e Taehyung viu um garoto assoprar fogo no círculo no centro, fazendo a chama subir no ar. Ao redor, a multidão gritou em animação ao ver o príncipe herdeiro do Norte e seu incrível poder com o fogo em pessoa.
Quando ele ergueu a cabeça, viu os protetores do Norte. O rei e a rainha Yoonsan e Jiyoon Jung usavam as mesmas roupas que seus pais, mas de cores diferentes, um vívido vermelho que ia lindamente com os detalhes dourados das vestes. O jovem Dragão do Norte, apenas um ano mais velho que Taehyung, sorriu para ele. Jung Hoseok o conhecia desde a infância, mas a última vez que se viram havia sido quando Taehyung e sua família viajaram para o seu reino um ano atrás, quando ele recebeu o dragão de seu pai na cerimônia do rito de passagem. O menino era magro e de brilhantes olhos vermelhos, da mesma altura de Taehyung, talvez um pouco mais baixo. Ele segurava a mão de uma menina, sua irmã gêmea Jiwoo, que parecia muito menos a vontade do que ele. Taehyung respondeu o sorriso com um próprio.
Os quatro nortistas se sentaram na frente da família Kim, no lugar em que Taehyung e os pais estiveram no último ano quando estavam em seu reino. Era um belo paralelo. Sua mãe voltou a lançar fogo.
"Todos saúdem a família Park, os Dragões do Outono, Protetores do Portão Oeste!"
Taehyung novamente encostou a cabeça no chão, ouvindo os gritos do povo ao redor. Um novo rugido preencheu o ar, desta vez com mais graça que o de Hoseok, e quando Taehyung ergueu a cabeça viu o príncipe herdeiro Jimin assoprar fogo no círculo, simbolizando o Dragão do Oeste.
Assim como os nortistas, a família Park também usava as mesmas vestes reais, mas estas eram puramente douradas. Até mesmo seus olhos brilhavam em ouro, o outono se manifestando fortemente em suas feições. Taehyung podia sentir o vento correr mais rápido apenas ao vê-los ali. O rei Kangmin e rainha Nayeon se curvaram diante da família Kim, sendo seguidos pelos seus filhos, o jovem Dragão do Oeste Park Jimin e seu irmão mais novo, Park Jihyun, que brincava com uma folha seca nas mãos. Taehyung sorriu ao ver o amigo, que também sorriu para ele.
Jimin e Taehyung tinham a mesma idade, separados por apenas alguns meses, mas Jimin gostava de agir como se fosse seu irmão mais velho. Seu pai, Taecyeon, era um grande amigo do rei Park Kangmin, e como tal, seus filhos costumavam se ver muito durante a primeira infância. Durante o ano em que Jimin e Taehyung se preparavam para receber seus dragões, infelizmente não tiveram tantas chances de se encontrar, mas ambos mandavam cartas a cada oportunidade que tinham. Os Park sentaram-se ao lado da família Jung, que se deram um amigável cumprimento.
Agora só faltava uma família. Atrás de si, sua mãe mais uma vez lançou labaredas ao céu.
"Todos saúdem a família Jeon, os Dragões do Inverno, Protetores do Portão Sul!"
Taehyung pôde sentir a presença da família antes de vê-los, um vento gelado fazendo sua pele arrepiar sob a seda roxa que usava. Ele desajeitadamente se curvou novamente, focando a audição nos passos dos Jeon ecoando pelo templo. Apesar de todas as outras famílias serem recebidas com ovações, os Jeon foram recebidos com um respeitoso silêncio. Era a primeira vez que a família inteira saía do seu reino, portanto, a primeira vez que muitos ali os viam, e um desses primeiros era Taehyung.
Erguendo a cabeça, ele notou a família na sua frente. O rei Jungsik e a rainha Hyerin eram altos, com rostos imponentes e sérios. Ambos tinham cabelos negros, mas apenas o rei tinha olhos azuis. Todos usavam vestes azuis e douradas, mas o azul, Taehyung notou com atenção, era um azul tão claro que poderia ser branco. Azul como o céu do inverno, um conceito estrangeiro para Taehyung.
Jeon Jungsik andou até o círculo e soprou uma labareda de flamas azuis, fazendo a multidão ficar surpresa. Aparentemente ele ainda carregava o título de Dragão do Sul, diferente dos reis das outras nações.
Apesar de o fogo azul ser intimidador e digno de curiosidade, os olhos de Taehyung vagaram para as figuras ao lado da rainha, dois meninos com rostos muito sérios para a idade. O mais alto, Taehyung o reconheceu como o príncipe herdeiro Junghyun, tinha bochechas gordinhas e se segurava com a pose de um general em um conselho de guerra. O mais baixo, portanto, lhe interessou mais.
O príncipe Jeon Jeongguk tinha apenas seis anos, mas era possível ver que seria um belo homem quando crescesse. Seu rosto era fino comparado ao do irmão, seu cabelo preto cuidadosamente amarrado em um coque na cabeça pequena. Mas o mais impressionante sobre o menino eram os seus olhos. Olhos do mais puro azul celeste, um azul tão bonito quanto os que Taehyung costumava apreciar. Ele nunca havia visto o príncipe caçula, já que ele era o mais jovem de todas as linhas reais e como não tinha nenhum apelo ao trono, não costumava ir para as reuniões das famílias.
Jeongguk percebeu que estava sendo observado e lançou um cauteloso olhar para Taehyung, ainda ajoelhado no tapete. Olhos azuis encontraram os verdes e Taehyung pôde sentir o puxar magnético que tinha entre os dois, de estações opostas. Apesar de o óbvio ser inverno contra verão, não era assim que funcionava entre a linhagem dos dragões. Enquanto o dragão da primavera trazia renascimento e nova vida, o dragão do inverno trazia o absoluto vácuo na vida, a morte. Taehyung havia aprendido em umas de suas aulas com o mestre Lee que as montanhas do Sul eram cobertas em neve e nada podia nascer naquele tipo de solo congelado. Ele também aprendera que um príncipe da primavera tal como ele, não sobreviveria muito tempo em um lugar como aquele, já que sua natureza estaria sendo anulada. Ele podia sentir isso ao olhar fundo nos olhos do príncipe mais novo, uma luta entre dois lados da mesma moeda, vida e morte.
"Aos nossos irmãos do Norte, Oeste e Sul, a família Kim do Leste lhes deseja boas vindas." Seu pai se ergueu do trono, parando em pé ao lado da esposa, que descansou sua mão sobre a dele graciosamente. "Hoje celebramos o oitavo aniversário do meu único filho, príncipe Kim Taehyung do Leste."
Ele se ergueu do tapete, sendo ovacionado pelo povo. Seguindo as regras que aprendera há meses, Taehyung se curvou novamente para as três famílias presentes e uma para o seu povo.
"Como diz a tradição milenar da era dos Dragões Elementais, no seu oitavo aniversário, o herdeiro deve receber o poder dos dragões e se juntar a longa linhagem de Protetores dos Portões, hospedando o espírito dos nossos deuses." Sua mãe continuou a dizer. "Hoje é este dia. Hoje eu, Kim Minyoung do Leste, passo a herança de meu pai, e o pai de meu pai, para o meu filho."
A multidão aplaudiu e Taehyung roubou um olhar para a mãe. Ela brilhava com orgulho e emoção. Era evidente que lembrava os momentos de infância quando ouvira o pai falar as mesmas palavras em sua cerimônia.
"Que o teste comece!"
Ao seu redor o templo explodiu em gritos de encorajamento que foram morrendo a medida que o tambor tocava. Sua mãe delicadamente tirou o robe de seda púrpura do filho e seu pai desfez seu cabelo, retirando os delicados ornamentos e os colocando dentro de uma caixa. Vestido apenas com as calças das vestes reais, Taehyung fechou os olhos antes de tomar uma profunda respiração e caminhar até o círculo aceso.
Sob o olhar de centenas de pessoas, ele sentia a força do fogo dos Dragões cada vez mais perto de si. Era um calor não natural. Nenhuma lareira, nenhuma fogueira tinha tanto calor e tantas cores quanto aquela. Nem mesmo o fogo de sua mãe por si só era tão forte. Ele sabia que aquele fogo tinha o poder de destruir nações e arrasar continentes. Porém ali, queimando no centro do templo, ele sabia que o fogo era renascimento. Uma nova vida lhe chamava.
Com um movimento treinado até a exaustão, Taehyung lançou um jato de fogo ao círculo, queimando a parte vazia do enorme círculo. Com um sorriso aliviado ele viu seu fogo crescer junto com o fogo dos dragões. Suspirando lentamente, Taehyung andou até o círculo de fogo e atravessou a parede de chamas.
Ele não estava queimando.
E logo, ele também não era si mesmo.
Do centro do fogo, como uma visão vinda de um sonho, Taehyung emergiu com um rugido ensurdecedor. Sua pele não era mais humana, e sim composta de milhares de escamas verdes que se estendiam por todo seu grosso tronco e cauda afiada. Seu corpo era facilmente do mesmo tamanho que uma carruagem, longo pescoço e rosto se erguendo sobre a multidão. Seus dentes eram facilmente do mesmo tamanho que dezenas de adagas recém afiadas e fumaça saía de suas narinas. Como um sexto sentido, Taehyung ergueu a enorme cabeça para o alto e cuspiu fogo para o céu.
Fogo verde, como o mais puro raio de primavera. A multidão no templo estava boquiaberta olhando para o jovem dragão a frente dos seus olhos.
Naquele momento não havia medo nem nervosismo. Taehyung sentia cada átomo do seu corpo gritar para que ele abrisse as asas e voasse livre no ar. Ele podia sentir o cheiro de centenas de pessoas diferentes e podia ver cores que nunca pensou existirem. Podia ouvir corações batendo aceleradamente, o medo corroendo seus súditos. Taehyung queria dizer que não existia motivo para terem medo, era apenas ele.
Mas não era.
Quase como a sensação de ser coberto até a cabeça com um pesado cobertor, Taehyung percebeu sua consciência começar a escapar. Um leve rosnado escapou de sua boca quando viu alguns mestres do templo começar a circulá-lo. Era isso que eles queriam, não era? Ver se era digno do dragão. Ele era. Então por que aqueles homens pareciam estar com medo?
Sua visão ficou saturada demais. Os sons começaram a deixá-lo perdido e os aromas a sufocá-lo. Era muita coisa em um mesmo lugar, muitas pessoas diferentes, com auras diferentes, com vivências totalmente distintas.
Em algum lugar pôde ouvir um sussurro nervoso.
"Não é digno. O príncipe não é digno. Vai enlouquecer e trazer desonra para o nosso povo."
Seu coração acelerou. Ele começou a olhar ao redor, balançando sua enorme cabeça reptiliana pelo templo, quase derrubando um homem. Ele tinha que focar. Ele era digno. Sua mãe dissera que ele era. Só precisava focar. Se as pessoas ficassem caladas...
"Príncipe?"
Taehyung não reconhecia aquela voz. Tentou olhar ao redor, mas a cada lugar que via, enxergava alguém com medo estampado no rosto.
"Príncipe, você quer saber um segredo?"
Ele não conhecia aquela voz, mas desta vez conseguiu seguir os instintos até a fonte.
Era o jovem príncipe Jeongguk, parado na frente do círculo de fogo, os olhos azuis brilhando como duas estrelas longínquas. Taehyung imediatamente sentiu-se propelido a dar um passo para trás ao ver o ar que cercava a criança. A aura dele era fria, como uma manhã de inverno. Tão diferente da aura de outras pessoas e ao mesmo tempo tão mais interessante.
Taehyung podia ver a sombra dos dragões pairando sobre Jimin, Hoseok e o rei Jungsik, mas a aura de Jeongguk, mesmo sem a sombra do dragão do inverno, era algo a se comentar.
"Príncipe, você sabe por que eu não estive na cerimônia do Dragão Oeste?" Taehyung queria perguntar o porquê. Queria falar alguma coisa que não fosse rugidos confusos. Felizmente Jeongguk não esperou por uma resposta. "Quando meu pai saiu com a carruagem e o príncipe herdeiro, eu estava fazendo uma escultura de gelo do meu pato de estimação."
Oh.
"Quando eu vi que ele partiu sem mim, chorei por horas até minhas lágrimas se tornarem pedaços de gelo. Você já viu uma lágrima congelada? É deslumbrante."
Taehyung queria saber mais. Queria desesperadamente saber mais sobre esculturas de gelo sobre patos, lágrimas congeladas e o pequeno príncipe a sua frente, sem nem um pingo de medo ou nervosismo, que tinha um cérebro muito avançado para a pouca idade. Taehyung se perguntava se ele estudava tanto vocabulário por prazer ou por pressão.
Lentamente, hipnotizado pela história do menino e com a curiosidade lhe gritando para que perguntasse detalhes, Taehyung tomou sua consciência de volta. Escamas se tornaram pele humana, seu tamanho gigante foi se apequenando e olhos púrpura se tornaram olhos verdes. Tremendo, o príncipe do leste se encolheu no meio do círculo agora apagado, totalmente nu, com o cabelo comprido fazendo nada além de cobrir suas finas costelas.
"Todos saúdem o príncipe Kim Taehyung, Dragão da Primavera e Protetor do Portão Leste!"
A voz do mestre do templo reverberou pelo local antes de ser seguida por gritos da multidão. Seu povo clamava pelo seu nome, celebrava a sua vida com cada centímetro das suas próprias. Taehyung foi coberto por um lençol dourado e puxado para cima, para que ficasse em pé. Ainda lhe faltava uma etapa da tradição, os augúrios de seu futuro reinado. Teria que queimar a árvore de sua mãe.
"Você conseguiu, príncipe." O mestre do templo sussurrou em seu ouvido, o carregando até a outra ponta do templo, onde o loureiro de sua mãe estava.
Taehyung procurou o jovem príncipe do inverno pelo templo. Não demorou muito a encontrá-lo, ainda parado na frente do círculo, parecendo muito esperto e convencido para a sua idade. Ele ostentava um sorriso no rosto, e Taehyung não pôde segurar o seu próprio. Jeongguk era um bom menino.
Quando ele chegou até a árvore de sua mãe, sua confiança estava renovada. Assim que foi deixado pelo mestre a frente do loureiro ouvindo todas o apoio de seus súditos, Taehyung não precisou se virar para ver que os pais brilhavam com orgulho, ou como seus amigos e primos estavam animados por vê-lo tomar seu lugar de nascença. Ele podia sentir o fogo do dragão correr por suas veias, conseguia sentir sua presença em seu peito, a estabilidade que sentia no corpo, em como ele estava em pé sob centenas de olhares e não sentia medo.
Ele sabia que era jovem, imaturo e inexperiente.
Mas também sabia que estava no caminho certo.
Respirando fundo, ele invocou o fogo que queimava dentro de si.
☽☾
"Eu não acredito que você tem fogo Elemental!" Jimin exclamou assim que a festa começou. Seus amigos o rodeavam como um bando de pássaros curiosos e muito felizes. Ele podia sentir Jimin e Hoseok na sala, como uma espécie de contrapesos para o seu dragão. Ele podia sentir Jungsik também, o rei do Inverno que caminhava pela sala. "Fogo verde, Tae! Verde! Isso é tão legal! Nem sua mãe tem!"
Taehyung riu. Ele mesmo estava muito chocado. Achava que o fogo verde só era um acontecimento enquanto estivesse em forma de dragão, mas aparentemente não. Seu fogo, antes vermelho, agora era verde. Ele nunca vira nada igual, mas ouvira lendas sobre seu bisavô ser um manipulador de fogo Elemental, portanto sabia que pelo menos havia precedentes.
"É, mas você já devia saber que ele iria ter algo que diferenciasse." Seokjin comentou, sorrindo orgulhoso. Seu primo Seokjin era considerado um prodígio da dominação do fogo da sua nação. Ele era mais velho que Taehyung por quatro anos, mas mantinha quase a mesma idade mental, portanto a diferença quase não era notada. Ambos se destacavam em sua aparência, que atraía atenção por adultos que costumavam comentar o quanto os dois seriam belos no futuro e ótimos partidos. Taehyung não gostava de pensar sobre isso agora. Claro que sabia que tinha grandes responsabilidades como príncipe herdeiro, mas procurar uma esposa não era uma delas. Não agora, ao menos. Nem mesmo se interessava por garotas, o que seu pai dizia que hora ou outra mudaria. Ele esperava que não. Não confiava no jeito que a filha do conselheiro real olhava para ele.
"Os Kim da primavera realmente se sobressaem. Sua mãe tomou a forma do dragão também, sabia? Eu li em um livro." Seu outro primo, Kim Namjoon, adicionou, sorrindo também. Ele era um menino gordinho e de uma mente afiada demais para a idade, e também seu melhor amigo. Os dois tinham apenas um ano de diferença, e por isso eram mais próximos, mas como Namjoon não morava no palácio, não costumavam se ver com tanta frequência. "Você sabia que é o primeiro desde o seu bisavô Kim Yongsun a conseguir se transformar fisicamente e usar o fogo Elemental? Isso é muito legal."
"Sim, sim, Taehyungie é muito legal, mas vocês sabem o que também é legal?" Hoseok disse, estalando os dedos na frente do rosto de Namjoon. "Agora que estamos todos reunidos, deveríamos brincar. Faz meses que eu não via vocês, aprendi um monte de coisa legal para mostrar! Fiquei esperando esse dia para isso."
"Então você esperou o dia do meu aniversário para se gabar?" Taehyung perguntou, rindo do jeito que as bochechas de Hoseok queimaram. Logo todo seu rosto estava vermelho, quase da mesma cor dos olhos.
"Não foi isso o que eu quis dizer!"
"Mas foi o que pareceu." Jimin sorriu malicioso. Taehyung adorava ter os amigos por perto.
"É, acho que o príncipe Hoseok está fazendo pouco causo do dia do seu nome, Taehyung." Seokjin adicionou, sorrindo como um maníaco. Ele estava se divertindo demais com o acontecimento.
"Vocês são muito ruins comigo! E parem de me chamar de príncipe, eu não gosto." Hoseok fez bico e cruzou os braços, emburrado.
"Calma, estamos brincando." Jimin o consolou, o abraçando. Jimin era o menor de todos, mas costumava dizer que iria crescer para ser o maior assim que eles tivessem idade. Ele tinha uma fúria dentro de si que ninguém esperava encontrar em um garoto de oito anos, e muito menos em um garoto de oito anos que era tão doce quanto ele. Mas Taehyung acreditava que assim como o outono, muitas pessoas o subestimavam e iriam sofrer as consequências disso. Park Jimin era um excelente príncipe e Taehyung estava aliviado por seus reinos estarem em paz. Sabia que não seria uma boa coisa ter que enfrentar o Reino do Oeste quando Jimin fosse rei. "Mas ande logo, Tae. Peça para a sua mãe se podemos brincar nos jardins. Ela vai deixar, hoje é seu aniversário."
"Tudo bem. Esperem aqui e façam cara de tristes se ela olhar nessa direção."
Sua mãe estava conversando com a rainha Park Nayeon e ambas pareciam muito entretidas na conversa. Park Nayeon e Kim Minyoung eram as únicas herdeiras mulheres dos dragões, visto que a nova geração era composta por homens. Taehyung tinha muito orgulho da mãe e a forma como ela se portava como a rainha e protetora do leste: firme e graciosamente. Vendo a forma com que Nayeon agia, ele imaginava que Jimin deveria sentir o mesmo.
"Mãe..."
"Eu já sei o que você vai pedir e a resposta é sim com uma condição." Minyoung se virou para o filho e o mediu com os olhos. Taehyung imediatamente se empertigou, estufando o peito. Nayeon abriu um sorriso doce ao vê-lo. "Chame as outras crianças também."
Taehyung entrou em choque.
"O quê? Mas as outras crianças são chatas!"
Minyoung imediatamente ficou vermelha, olhando envergonhada para a rainha Nayeon, que riu alto.
"Kim Taehyung, retire o que disse e peça perdão para a nossa convidada. Você está se comportando de forma mesquinha e eu não lhe criei assim. Você vai chamar todas as outras crianças dessa sala ou eu vou colocá-lo de castigo agora mesmo."
Taehyung pediu desculpas em segundos ao ouvir a ameaça. Sua mãe mantinha os pesados olhos verdes sobre seu rosto e ele queria fugir assim que tivesse a chance. Por que é que ela ordenaria que ele fizesse algo tão chato quanto convidar todos para os jardins? Aquele era o seu lugar para ele e os amigos. Agora teria que convidar Byunghoon e, pior ainda, Gayoon.
"Não tem problema, Minyoung." Rainha Nayeon piscou para ele após seu fraco pedido de desculpas. Ela ria livremente e parecia muito animada. Talvez fosse por causa do copo de champanhe nas mãos. Ele ouvira dizer que álcool fazia isso com os adultos. "É sua festa, Taehyung, você deveria aproveitar com quem quiser." Taehyung sorriu para a mulher, que deu uma cotovela em Minyoung, que rolou os olhos. "Não seja tão dura com ele, Min. Taehyung só é sincero. Na idade dele você era muito pior."
Sua mãe não ficou vermelha com o comentário, mas pareceu embaraçada. Taehyung aproveitou o momento para fazer sua melhor expressão de cachorro abandonado.
"Tudo bem. Não precisa chamar todas as crianças. Mas chame ao menos o filho do rei Jeon. Seja um bom anfitrião."
Mas é claro! Taehyung não precisava ouvir duas vezes. Assim que a mãe terminou de dizer, ele correu antes que ela mudasse de ideia. Talvez o álcool estivesse afetando todos os adultos na sala, mas ele não esperaria até que ela pensasse melhor na situação.
Agora ele só precisava encontrar Jeongguk.
Não precisou procurar por muito tempo, já que o menino vestido de azul e dourado era fácil de encontrar em um mar de cores quentes. Jeongguk estava em pé ao lado de uma coluna, como se estivesse se escondendo. O menor abriu um sorriso enorme ao ver Taehyung.
"Príncipe Kim!"
Taehyung sorriu para o menino com um de seus maiores sorrisos, que fez Jeongguk sentir uma enorme vontade de abraçá-lo. Ele não costumava ver sorrisos assim em seu palácio. O castelo do Inverno era, além de gelado fisicamente, moralmente também. Seu pai era uma sombra nos muros e sua mãe estava sempre ocupada em seus aposentos. Seu irmão mais velho, Junghyun, era o único que costumava entendê-lo, mas desde que começara suas aulas para se tornar o novo hospedeiro do dragão do sul, os dois não conversavam e nem se viam muito. Seu pai havia sido extremamente claro ao proibi-lo de ver as aulas do irmão, mas de vez em quando, com saudades do mais velho, Jeongguk se escondia atrás das estátuas da sala de estudos, silenciosamente aprendendo o ritual da família Jeon e matando a saudade do jeito que encontrava.
"Eu queria agradecer a você por ter me ajudado a controlar a transformação. Sem você eu teria perdido o controle e teria me tornado indigno." Taehyung lembrou-se de dizer, se curvando na frente de Jeongguk. "Obrigado. Você tem um aliado para sempre em mim."
Taehyung sabia que sua mãe e pai o repreenderiam por sair por aí prometendo alianças. Mas, ao ver os olhos claros do mais novo brilhando daquela forma, talvez ele não ligasse para a punição. Até mesmo acreditava que o faria novamente.
"Não foi nada. Aprendi essas coisas nas aulas sobre o ritual do Dragão do Inverno."
Jeongguk corou ao ver que falara muito. Cada família tinha seu próprio ritual privado sobre seus dragões, tradições milenares que não haviam sido passadas para ninguém além do próximo hospedeiro. Jeongguk nem mesmo deveria saber sobre isso.
"Eu não sabia que seria você a ter o dragão do sul, príncipe." Taehyung disse. "Pensei que seu irmão mais velho seria, como manda a tradição da sua família."
"Ele será. Eu só acabei ouvindo sem querer."
Ele não conseguia encarar Taehyung, muito envergonhado. Nunca havia se sentido assim, mas, de repente, aos olhos do dragão da primavera, ele se sentia mal. Nunca seria um deles, nunca teria uma ligação especial com os outros hospedeiros. De repente sentiu ciúmes do irmão, que teria tudo de forma tão fácil apenas porque nasceu primeiro.
Esperando por uma repreensão do mais velho, Jeongguk se assustou ao vê-lo pegar a sua mão. A palma de Taehyung era morna, pequena, mas de longos dedos, tão diferente da mão gelada e menor de Jeongguk. Ele imediatamente ergueu a cabeça e o encarou. Taehyung tinha um sorriso pequeno no rosto, as bochechas coradas.
"Sei que eu não devia falar isso, mas..." Taehyung se aproximou, olhando ao redor para verificar se ninguém o ouvia. "Eu queria que você fosse o Dragão do Inverno. Acho que você seria um dragão melhor que seu irmão."
O coração de Jeongguk acelerou no seu peito. Ele estava sendo reconhecido! Pela primeira vez na vida, provavelmente. Sua educação no palácio era avançada para a sua idade, mas nenhuma de suas conquistas era celebrada pelos pais. Eles só queriam saber de Junghyun e seu treinamento com espadas, arcos e política. Nada se importavam com o talento do mais novo para luta e arte.
"Mas eu não vim aqui só agradecê-lo. Minha mãe me permitiu brincar com meus amigos nos jardins e pediu para que eu convidasse o príncipe do Inverno."
Jeongguk imediatamente puxou a mão para longe do aperto de Taehyung, baixando a cabeça.
"Meu irmão está lá."
Taehyung puxou a mão dele de volta, olhando com tanta força no fundo dos olhos de Jeongguk quanto um menino de oito anos podia juntar.
"Ela não disse qual dos príncipes."
Talvez fosse a maneira com que Taehyung proferiu as palavras, mas Jeongguk sentiu algo nele mudar. Como se um vento fresco corresse por sua pele, aquecendo seu coração. Quase podia jurar que não era apenas uma sensação, mas algo interno, como se algo tivesse clicado.
Sabia que deveria impedir Taehyung e insistir que levasse o seu irmão, mas não queria fazer isso. Estava sendo a primeira opção de algo pela primeira vez e não podia estar mais feliz. Taehyung o puxou pela mão até onde o resto do seu grupo se reunia. Os príncipes Jung e Park pareceram confusos ao vê-lo ali ao invés de seu irmão, mas após Taehyung dizer que Jeongguk iria com eles, não pareceram se importar. Seokjin e Namjoon, ele aprendeu, após se introduzirem formalmente, eram plebeus, mas Taehyung lhe assegurou que eram os homens mais honrados do reino. Jeongguk não tinha certeza quanto a isso, mas após receber sorrisos calorosos, ele passou a achá-los também.
Os seis correram pela sala, passando pelos adultos e algumas crianças que os encaravam com vontade. Jeongguk sentiu o coração voar livre pela primeira vez. Sob seus pés, pegadas de geada se formavam, seu dom se manifestando sozinho. Ele nem mesmo percebia.
Os jardins da Primavera eram algo de arrancar suspiros, apesar de estarem iluminados apenas pela luz da lua e de postes com velas. Jeongguk, que nunca nem mesmo havia saído do reino Sul, ficou parado na entrada sob um arco de pedra, totalmente apaixonado. Ele havia visto muito verde durante a viagem, mas seus pais não permitiram que ele saísse da carruagem. Ele vira plantações enormes e pessoas de roupas leves sob o sol, todos tremendo quando a família Jeon e sua comitiva passaram trazendo um vento invernal consigo. Ele vira diferentes tipos de árvores e flores coloridas, mas estar tão perto de uma... Era incrível. Em pé sob o arco de pedra, ele não sabia se tinha coragem de atravessar e pisar na grama.
"Jeongguk? O que foi?" Taehyung ficou para trás enquanto os amigos corriam para o jardim.
"Eu nunca vi nada além de neve e pedra." O menino confessou, ainda com os olhos arregalados. Taehyung pareceu chocado, mas logo balançou a cabeça, como se estivesse planejando algo.
O mais velho sentou no chão, fazendo Jeongguk tirar os olhos da imensidão verde à frente. Com movimentos rápidos, Taehyung tirou ambos os calçados e os colocou cuidadosamente no banco de pedra ao lado.
"O que está fazendo?" Jeongguk perguntou.
"Tire seus calçados também."
Confuso, Jeongguk seguiu exemplo do mais velho. Taehyung sorriu para ele e o pegou pela mão novamente. De mãos dadas, ambos desceram os degraus de pedra e chegaram até a grama.
Jeongguk riu ao toque da grama verde nos pés. Nunca havia sentido algo igual! Estava tão feliz. Taehyung largou sua mão para buscar algo em um canto e Jeongguk aproveitou para andar alguns passos sozinho. Era tudo tão diferente. Desde muito pequeno a neve era tudo para ele, era toda a sua vida. Mas tão logo sua alegria chegou ao ápice, Jeongguk sentiu algo diferente na sola dos pés. Olhando para baixo, curioso, ele soltou um grito.
"O que foi? O que aconteceu?" Seokjin voltou correndo, os olhos castanhos correndo pelos jardins. "Jeongguk, o que foi? Se machucou?"
Jeongguk estava exalando um ar gelado, os olhos arregalados encarando o mesmo ponto no chão. Seokjin soltou um arquejo, atraindo os outros meninos. Taehyung veio junto, as mãos segurando um dente de leão amarelo, agora esquecido, graças ao medo.
"Eu fiz isso."
Cinco pares de olhos focaram em onde Jeongguk apontava. Ali, entre a grama verde, havia pontos negros, do tamanho dos pequenos pés do menino, pequenos círculos de grama morta.
"Eu estraguei seu jardim, príncipe."
Jeongguk estava de coração partido. Havia estragado o jardim de Taehyung, havia trazido a morte a um lugar puro e intocado. Inconsolável, sentou-se no topo dos degraus de pedra. Ele detestava seus poderes. Detestava. Como poderia gostar de algo que destruía algo tão bonito? Como poderia achar beleza em algo que matava sem piedade? O inverno não tinha misericórdia. Uma das primeiras lições que tivera era sobre a forma em que toda a vida terminava quando o inverno chegava. Só não achava que veria isso acontecer por algo que fizera.
O menino começou a chorar, escondendo o rosto nas mãos. Jimin foi o primeiro a quebrar o silêncio, chegando perto de Jeongguk e retirando as mãos do seu rosto. Ele abriu um sorriso para o menino, que fez apenas mais lágrimas caírem.
"Quer ver uma coisa, Jeongguk?"
O menino assentiu, lágrimas ainda escorrendo pelo rosto branco. Jimin tomou das mãos de Taehyung o dente de leão que ele ainda segurava sem nem perceber. Sob os olhares focados dos cinco presentes, o jovem Jimin soltou um suspiro. Seus olhos dourados se acenderam, brilhando com uma luz não natural.
A flor, em suas mãos, começou a secar. Na frente de todos os presentes, as pétalas do dente de leão, antes um glorioso amarelo, começaram a ficar marrons, morrendo. Algumas caíram ao chão, mas seu caule continuou firme, apesar de agora estar amarelado. Doente.
"Eu quero que você segure a flor. Pode fazer isso para mim?" Jimin perguntou, estendendo a flor para o mais novo, que negou com a cabeça. "Por favor?"
Contrariado, mas querendo saber qual era o ponto que Jimin queria provar, Jeongguk tomou a flor com as mãos. Na mesma hora o caule que estava amarelado começou a secar e a murchar ainda mais. As pétalas, que de alguma forma ainda se seguravam, caíram no chão, mortas. Jeongguk derrubou o caule antes que ele se transformasse em pó e voltou a soluçar.
"Por que eu mato tudo o que eu toco?"
Jimin pareceu querer dizer alguma coisa, talvez mostrar que eles não eram tão diferentes. Outono e inverno eram irmãos, duas nascentes do mesmo rio, a estrada que toda a vida tinha que andar antes de chegar à inevitável morte, até o majestoso inverno. Queria lhe dizer que não havia nada errado em ser quem era, mas Taehyung lhe impediu com uma mão.
Se ajoelhando, o príncipe Kim pegou o caule nas mãos. Jeongguk queria lhe pedir perdão mais uma vez, mas as palavras não saiam.
"Minha mãe me disse que esse jardim é o ápice do poder da primavera. Todos os jardins são. Mas esse aqui é onde a nossa família exibe seu poder. Cada centímetro dele está coberto em verde. Há mais cores aqui do que eu posso imaginar. Tudo porque, de acordo com a minha mãe, a vida deseja viver. E mesmo na morte, existe esse desejo também." Com os olhos verdes brilhando, Taehyung abriu as mãos novamente, onde agora um broto de flor jazia. Jeongguk ficou de boca aberta. A flor que ele havia matado estava viva! Viva e querendo viver nas mãos de Taehyung. Ele nunca havia visto nada parecido. "Cada uma das estações é importante, príncipe. O inverno pode ser rigoroso, mas é graças a ele que eu, a primavera, existe. E depois da primavera, toda a vida chega ao ponto mais alto."
Taehyung passou o broto para Hoseok, que sorriu abertamente. O brotinho parecia tão frágil em suas mãos, mas Jeongguk estava curioso. Queria saber o que Hoseok faria com ele.
"O inverno e o verão são duas metades da mesma moeda, sabe?" Hoseok começou a falar, de modo levemente autoritário, como se estivesse contando algo que aprendeu há muito tempo. "Você não é a morte, príncipe. O inverno é apenas a pausa entre a morte e o renascimento. Você separa o outono da primavera e é meu oposto direto. Se você é a inevitável pausa, eu sou a pura vida."
A flor desabrochou na frente dos seus olhos, abrindo suas novas pétalas com um lindo movimento. Seokjin e Namjoon encaravam toda a cena com um espanto de alguém que recém vira algo novo acontecer na mesma rotina de sempre. Eles estavam acostumados a Jimin, Hoseok e Taehyung brincarem assim, mas a ausência de um verdadeiro nascido do inverno sempre havia feito falta na brincadeira. Agora que tinham Jeongguk, era como se uma vasta gama de oportunidades surgisse. Um autêntico príncipe do Sul com um puro poder de inverno era algo raro, ao menos era o que dizia nos livros que Namjoon lia. Estava maravilhado de ter a oportunidade de vê-lo. Já Seokjin, sabia que provavelmente era um dos primeiros homens a testemunhar algo desse tipo acontecer.
Apesar de serem o ciclo natural da vida, as quatro estações nem sempre haviam vivido em paz. Os quatro Dragões Sazonais eram seres orgulhosos. Giravam a roda da vida, mas não pareciam concordar uns com os outros. Apesar de terem impedido nações de lutarem em batalhas desnecessárias e criarem paz em seus reinos, Seokjin havia aprendido que o maior conflito entre os quatro havia durado cerca de 240 anos, até o bisavô de Taehyung, Kim Yongsun, propor pela primeira vez um acordo de paz real, paz entre as quatro nações. O mesmo homem que, tal como Taehyung, dominava a forma do dragão e o fogo Elemental, havia sido capaz de terminar com 240 anos de um massacre que não via fim. Seokjin se perguntava se talvez esse não fosse um sinal sobre algo.
"Você não precisa ter medo do seu dom, Jeongguk." Jimin disse, sorrindo. "E pode ficar tranquilo, você vai aprender a dominá-lo com o tempo. Eu não podia descer aos jardins antigamente sem ao menos três árvores começarem a perder todas as suas folhas. Taehyung quase me bateu uma vez porque sabia que sem passar pelo inverno elas não podiam renascer. É muito trabalho ter que viver sem a ajuda de uma das estações."
"Então não vou poder entrar no jardim novamente?" Perguntou Jeongguk, decepcionado. Jimin lhe deu um olhar triste, mas não disse nada.
"Mas é claro que pode!" Taehyung exclamou. "O Jimin não podia entrar aqui porque teríamos que esperar pelo inverno antes de eu poder agir. Mas com você eu não preciso esperar! Tudo o que você tocar eu posso fazer renascer."
Para provar seu ponto, Taehyung se agachou e tocou com as mãos os pontos mortos na grama onde Jeongguk havia pisado. Todos assistiram animados à grama voltar a nascer, verde como se nada nunca tivesse acontecido. A alegria voltou à Jeongguk, que se levantou e tomou coragem para descer os degraus novamente.
A grama continuou a morrer assim que ele pisava, mas Taehyung não deixava ficar mais do que alguns segundos dessa forma. Jimin riu e puxou o mais novo pelo braço até o chafariz no centro do jardim, que tinha estátuas de dragões coloridos cuspindo água. Hoseok ria junto com os amigos, mas andava ao lado de Namjoon, que apontava aleatoriamente para brotos de plantas para que Hoseok tocasse e fizesse florir. Seokjin deixou Jeongguk subir nas suas costas quando Taehyung cansou de fazer renascer a grama no chão e fez o pequeno príncipe gargalhar ao começar a sacudi-lo enquanto corria em círculos ao redor dos amigos.
Era curioso, Jeongguk pensou, enquanto ria de algo que Jimin e Taehyung faziam, como ele se divertira muito mais com aqueles desconhecidos, do que toda a vida com a família no Sul.
