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Friends on the Other Side

Summary:

Quando Baekhyun descobre que há um novo morador no prédio, ele faz questão de atraí-lo ao submundo através da pequena porta na cozinha. Ele espera que Chanyeol seja sua nova vítima e planeja enganá-lo para roubar seus olhos, mas Chanyeol não é um alvo tão fácil quanto ele imagina.

Notes:

Oi! Depois de ter passado um tempo me dedicando a essa história, é uma alegria enorme finalmente estar compartilhando ela com todo mundo! Originalmente, ela foi escrita para um ficfest, o EXOnce Upon a Time: The Villain Edition mas eu acabei perdendo o prazo pra concluir a fanfic e acabei optando por postar ela depois (que, no caso, é agora). Por essa mesma razão, também existe uma versão em inglês dessa fanfic.

Aliás, apesar do título em inglês que tirei de uma música do filme A Princesa e o Sapo essa fanfic também possui um título alternativo que você também pode usar se quiser, eu a chamo de Olhos de Botões porque (1) é mais curto (2) e porque eu criei uma tag para falarmos dessa fanfic no Twitter que é justamente #OlhosdeBotoes (sem o til) que você também pode estar usando!

Enfim! O desafio desse ficfest era que escrevêssemos uma história protagonizada por um vilão, ou ao menos que retratasse um vilão. Por isso aqui nosso vilão (que não é tão vilão assim mas também não é herói) é o Baekhyun. Eu nunca escrevi um personagem assim, é meio desafiador, mas estou me divertindo muito! Espero que você também possa se divertir com ele e curtir tanto quanto eu estou curtindo.

Esse capítulo foi betado pela caci que você pode encontrar no Wattpad, no Spirit Fanfics e no Twitter sob o user chogiwei! Um beijo pra caci, muito obrigada amiga <3

Enfim, acho que as considerações foram dadas haushausahs espero que tenha uma boa leitura! não esqueça de deixar seu voto e um comentário. a gente se vê mais pra frente!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: A pequena Alice cai no buraco

Chapter Text


CAPÍTULO I ― A pequena Alice cai no buraco… e encontra o homem com olhos de botão

― Verão, 1989

 

"E este brinde é para o nosso Chanyeollie, em homenagem à sua casa nova e sua nova vida longe de Seul!" Os melhores amigos do anfitrião saudaram, provocando os aplausos dos convidados da pequena recepção de boas-vindas.

Chanyeol, o dito anfitrião, riu entre os goles de cerveja com a garrafa entornada contra os lábios, assistindo com alegria todos os seus amigos, conhecidos mais próximos e familiares, celebrando junto à ele sua mais recente conquista ― ter finalmente reunido coragem o suficiente para sair de Seul, terminar seu relacionamento desastroso e com o pouco dinheiro que tinha de seu emprego como professor de música, alugar um apartamento em outra cidade.

Era uma chance para recomeçar, um novo lugar em que ele poderia começar uma vida completamente diferente, talvez até conhecer outras pessoas.

Havia sido um plano impulsivo e ambicioso quando ele decidiu que precisava ir embora, e inicialmente, quando Chanyeol pensou em seus alunos, na vida estável na capital apesar de sua própria infelicidade e do namorado que o tratava tão mal, ele quis desistir, temendo a própria imprudência.

Contudo, antes que ele pudesse apagar completamente a ideia da própria mente, seus amigos o encorajaram e o ajudaram até mesmo durante as buscas por um novo apartamento, com o transporte da mudança e a procurar por um novo emprego. Os mesmos amigos que agora estavam ali com ele, que haviam feito uma viagem de carro de mais de três horas, apenas para celebrar junto a ele pelas coisas que deram certo, para que Chanyeol não estivesse sozinho em sua primeira noite longe da família.

Ele não poderia ser mais grato pelas pessoas que conheceu.

"Esse apartamento é ótimo, Chanyeol." Ao inclinar a cabeça, o professor de música encontrou um de seus amigos falando com ele. Segurando uma taça cheia do champanhe que havia levado até o apartamento, Jongin, um dos melhores amigos de Chanyeol, sorria com orgulho. "Ainda bem que eu te ajudei a escolher, aquela sua outra opção era péssima." ele fez uma careta, franzindo o cenho ao lembrar do apartamento de paredes verde musgo que havia chamado a atenção do melhor amigo.

"Você só está elogiando porque esse era o apartamento que você gostou!" Chanyeol respondeu, curvando-se sobre o sofá para alcançar a outra ponta, onde Jongin estava abraçado com a namorada, e dar um soco em seu braço.

Não doeu, especialmente porque Chanyeol já estava um pouco bêbado e por isso não era capaz de aplicar muita força no que estava tentando fazer, mas Jongin, entrando na brincadeira, deixou escapar pelos lábios um choramingo infantil que fez os outros darem risada.

Ainda que o apartamento escolhido por Jongin fosse bonito, com as paredes cobertas por um papel de parede de padrão listrado em tons de cinza e branco, e a mobília bem cuidada que veio junto ao aluguel, ainda era pequeno para a quantidade absurda de convidados na pequena festa que eles haviam organizado.

Além da sala de estar e a cozinha que eram separados por um pequeno balcão, haviam apenas outros dois cômodos na casa ― um minúsculo banheiro e o quarto onde todas as malas e caixas com coisas para desempacotar estavam guardadas. Haviam pessoas sentadas no chão, espremidas no sofá ou contra as janelas, para que todos pudessem caber. Estavam todos muito próximos um do outro, praticamente colados, mas apesar do desconforto, ninguém parecia infeliz ou apto para ir embora.

"Meus parabéns, garoto" o pai de Chanyeol se aproximou durante a pequena troca de socos iniciada entre o filho e Jongin.

Ao sentir o toque gentil de seu pai em suas costas, Chanyeol parou o que fazia e se virou, agradecendo-o com um sorriso de lábios fechados. Ele abriu a boca, prestes a respondê-lo, quando o barulho seco e alto de fortes batidas contra a porta o interrompeu.

Quem estava do lado de fora estava batendo com força o bastante para assustar todos os convidados que estavam dentro do apartamento. A porta tremia, mexendo-se com a força e o ritmo constante dos socos que eram desferidos contra a madeira.

"Chanyeol?" Jongin o chamou, se levantando do sofá no mesmo instante em que Chanyeol também se colocou de pé em direção à porta.

Com o cenho franzido, Chanyeol desceu o olhar até a porta que, com o aumento das insistentes batidas, começou a se mover, arrastando-se sobre o batente no chão como se quem estivesse querendo que ele abrisse, também estivesse a empurrando-a. Era assustador, e estava deixando os convidados preocupados.

"Abra a porta!" palavras arrastadas soaram por baixo da porta, infiltrando-se pelas brechas da estrutura de madeira. O tom desesperado era mais semelhante a alguém que procurava por ajuda, do que alguém pretendia invadir, foi o que deixou o professor de música em estado de alerta, tentado a colocar a mão sobre a maçaneta e permitir que encontrassem quem estava querendo abrir.

Porém, antes que ele conseguisse sequer erguer a mão, foi contido por Jongin, que o segurou pelo pulso e o encarou com as sobrancelhas unidas em uma expressão séria. Ele estava temeroso. Chanyeol nunca havia o visto daquele jeito.

"O que foi?" ele perguntou, esboçando o que deveria ser um sorriso tranquilizador, mas apenas serviu para deixar Jongin mais sério.

"Não abre, você nem sabe quem está do lado de fora" respondeu seu melhor amigo, as palavras dele se perdendo em meio ao silêncio que dominou o cômodo. A festa, anteriormente barulhenta, havia caído em um silêncio tenso, ocasionalmente perfurado pelos ecos de um punho socando a madeira e uma voz que se arrastava por baixo da porta, pedindo que ela fosse aberta.

Ignorando qualquer possibilidade de que poderia ser algo não desejado, Chanyeol apenas deu de ombros.

"Deve ser algum vizinho", disse o mais alto entre eles, erguendo a mão antes de ser contido pelo melhor amigo outra vez. Esbugalhando os olhos, o professor de música encarou o outro. "Jongin!" ele o repreendeu, "O que você está fazendo?"

Ao fundo, era possível notar que as batidas estavam diminuindo.

"O que você está fazendo?" Jongin devolveu a pergunta, "Chanyeol, parecem que querem quebrar a sua porta, como você pode estar tão tranquilo?"

"Eu preciso saber o que está acontecendo antes de tentar fazer alguma coisa", foi a resposta de Chanyeol, ele balançou a cabeça e continuou com um sussurro: "Quem está lá fora já deve saber que escutamos, e é uma voz feminina, talvez seja uma mulher pedindo ajuda. Nós estamos em maioria, e somos jovens e fortes, talvez ela precise da gente e estamos hesitando por medo."

"Chanyeol, eu não acho que seja esse o caso..."

"Jongin, vamos, solte a minha mão, me deixe atender a porta." Parando, o mais alto olhou ao redor encontrando as expressões tensas de seus amigos e familiares, bem diferente de como estavam a alguns minutos atrás, quando estavam bebendo e celebrando juntos. Suspirando, Chanyeol voltou-se para o melhor amigo outra vez e disse: "Você está assustando os outros."

Espelhando o suspiro que Chanyeol deixou escapar, Jongin respirou fundo e após alguns breves segundos em que eles não falaram nada um com o outro, e as batidas do lado de fora iam desaparecendo, ele finalmente soltou o pulso do professor de música e ergueu as duas mãos, afastando-se ao dar um passo para trás.

"Obrigado", Chanyeol agradeceu, virando-se para a maçaneta da porta. Pelo canto dos olhos ele viu o melhor amigo alcançar um abajur e segurá-lo como se fosse uma arma, preparando-se como um jogador de beisebol pronto para bater na bola.

Ao dar mais um passo em direção à porta, o professor de música desejou que ao menos Jongin tivesse a decência de tirar a lâmpada do abajur, caso pretendesse bater com ele em alguém.

Ao encostar os dedos no metal frio da maçaneta, a porta sequer tremia mais, os punhos que antes encontravam a madeira parecendo ter se enfraquecido. Quase não havia mais estrondo ou barulho quando Chanyeol prendeu a respiração, fechou os olhos e virou a tranca, puxando a porta para trás, abrindo-a.

Deparando-se com uma idosa. A mulher estava com os punhos erguidos, os braços fracos levantados, pronto para deixar suas últimas batidas. Ela parecia surpresa, os olhos enrugados esbugalhados, seus lábios finos igualmente abertos. Ao erguer o olhar, encarando os punhos cerrados da idosa, Chanyeol notou a pele dos nós dos dedos avermelhados, tal qual a mão repleta de nítidos machucados, devido a força que ela estava usando para bater.

Ela não segurava nenhum objeto que pudesse representar alguma arma ou ameaça, para falar a verdade, com seu corpo pequeno e curvado envolvido por agasalhos de lã, a senhora de idade poderia parecer qualquer coisa menos ameaçadora.

Inclinando-se em direção a ela, Chanyeol sentiu pena, quase não percebendo a advertência sussurrada por Jongin.

"A senhora estava batendo com tanta força, precisa de ajuda?" ele perguntou, recebendo em resposta os acenos da idosa.

"Eu perdi os meus bonecos..." disse ela, unindo as duas mãos, massageando-as, precisando de algo para tocar onde descontaria a própria frustração. "Eu perdi os meus bonecos" ela repetiu, como se Chanyeol não houvesse escutado na primeira vez.

Confuso, o mais alto ergueu uma sobrancelha.

"Seus... bonecos?"

Mais uma vez a resposta da idosa foram simples afirmações, acenando com a cabeça.

"Você mora aqui?" ela perguntou para Chanyeol.

"Acabei de me mudar", ele respondeu, sorrindo para a velha. "Estávamos comemorando minha mudança quando a senhora começou a bater na porta."

A nova informação pareceu surpreender a idosa, que olhou ao redor, só então prestando atenção ao número e ao andar em que estavam. Ela deu alguns passos confusos para trás e observou os números impressos na porta do apartamento, assentindo logo em seguida, murmurando algo que Chanyeol foi incapaz de entender, mas que se assemelhava muito a um "Eu entendo... Isso explica muita coisa."

"Eu estou procurando meus quebra-nozes" ela voltou a explicar. "Também moro nesse prédio, no andar debaixo, tenho dois netos que gostam de brincar com os enfeites que tenho em casa. Eles sempre pegam os meus quebra-nozes e levam para os apartamentos vazios para brincar por horas, mas não devolvem quando terminam as brincadeiras e eu tenho de sair procurando por eles."

"Isso parece terrível, eles parecem crianças que gostam de aprontar", Chanyeol assentiu, falando em um tom de compreensão, como o que ele usava com as crianças que ensinava. Atrás dele, Jongin, que ainda segurava o abajur, se permitiu revirar os olhos, se sentindo menos preocupado ao escutar a inclinação gentil na voz de Chanyeol. Ele estava tranquilo ao atender a idosa, e sua tranquilidade tão contagiante estava tranquilizando aqueles que estavam dentro do apartamento.

"Eles sempre estão aprontando" a vizinha retrucou, agarrando o tecido quente de suas roupas. Ela parecia estar se abraçando, como se sentisse frio, apesar do calor que estava fazendo. "Se você encontrar um dos meus quebra-nozes poderia me devolver? Eles têm essa altura..." e, para ilustrar, Chanyeol assistiu a idosa separar as duas mãos deixando um espaço largo o suficiente para caber uma bola de futebol, "E usam uniformes vermelhos, um capacete preto feito de madeira e uma baioneta que tem uma lâmina na ponta, é usado para abrir a tampa de garrafas."

"Eu devolvo, sim, não precisa se preocupar com isso."

"Obrigada", ela agradeceu, erguendo o canto dos lábios enrugados. Sorrindo, a idosa colocou uma mão sobre o peito, segurando-o como se quisesse envolver o próprio coração entre os dedos fracos. "Você não sabe como isso me deixa aliviada" disse ela com um suspiro sinistro, que arrepiou cada um dos ossos de Jongin. Ele tremeu e quase perdeu o abajur.

Foi estranho, mas de longe era a coisa menos esquisita desde que aquela idosa parou na frente de seu apartamento.

"Eu estive procurando a noite, batendo de porta em porta por todos os apartamentos, o seu foi o último, eu quase não tinha mais esperanças. Meu nome é Arin, Jung Arin, assim que encontrar algum quebra-noz, coloque eles dentro de algum saco e leve para o meu apartamento. Por favor, não brinque com eles e nem fique com eles! Você precisa me devolver, entendeu?"

Não entendendo qual razão ele poderia ter para ficar com um boneco de madeira em seu apartamento, Chanyeol assentiu mais uma vez.

"Entendi, Senhora Jung, se por acaso eu encontrar algum quebra-noz, vou devolvê-lo dentro de um saco e levar ao seu apartamento."

"Isso mesmo, e você não pode brincar com eles, me escutou? Não brinque com eles, e nem faça o que eles pedem."

"Eu garanto à senhora que não tenho interesse em brinquedos, então seus quebra-nozes estarão a salvo se eu encontrar algum deles, não vou brincar."

"Isso mesmo" ela falou. Em seguida, houve uma pausa quando a Senhora Jung decidiu se calar, mas não se afastou. Chanyeol a observou inclinar o rosto e encarar, pela segunda vez, os números em relevo impressos na porta do apartamento. "Muito obrigada pela sua gentileza, Chanyeol" a vizinha voltou a falar de repente, cumprimentando-o com um último aceno ao se despedir "Se algum dia você estiver procurando por alguma coisa, irei retribuir esse favor."

Antes que o professor de música pudesse devolver a despedida, a idosa se virou e, mancando em passos tortos, simplesmente foi embora.

Apenas nesse momento, Jongin colocou a cabeça para fora do apartamento, assistindo a sombra dela se misturar com a escuridão dos corredores sem lâmpadas, até que ela desaparecesse, engolida pela falta de luz.

Seguindo o olhar do melhor amigo, Chanyeol observou a idosa partir em passos trôpegos, mancando, segurando as paredes para se apoiar em pé. Quando ela se foi e Jongin fechou a porta, tranquilizando os outros convidados da festa, ao contar que estava tudo bem e só havia sido a vizinha procurando por alguns enfeites, Chanyeol se viu incapaz de desfazer o semblante pensativo, intrigado com as últimas palavras da Senhora Jung, as quais estavam cravadas em sua mente como se ardessem em chamas.

Estranho... Ao se despedir, a idosa havia o chamado pelo nome.

Mas Chanyeol tinha certeza de que ele não havia se apresentado.

 

 

 

A celebração durou mais algumas horas depois que a Senhora Jung foi embora. Eles beberam um pouco mais, cantaram, dançaram pateticamente e compartilharam entre eles algumas lembranças de quando eram jovens, até que todos precisassem ir embora.

A despedida, como Chanyeol poderia ter imaginado, teve um sabor agridoce. Ele nunca foi uma pessoa que gostava de ficar sozinha, e acostumado a sempre estar acompanhado por uma ou duas pessoas ao longo de toda sua vida, foi inevitável que um sentimento novo e ligeiramente desconfortável o atingisse, ainda que estivesse grato e feliz por toda a consideração que havia recebido de seus amigos e familiares.

Ele sorriu para cada um dos rostos conhecidos que o abraçava antes de partir. Jongin foi o último a ir embora, depois de ter ajudado Chanyeol a separar os sacos de lixo, ele e a namorada abraçaram o professor de música com cuidado, como se soubessem o que ele estava sentindo, e só então também foram embora.

Fechar a porta e pela primeira vez saber que não havia mais ninguém além dele em casa, foi estranho. Chanyeol tentou sorrir para si mesmo quando pegou os sacos repletos de copos descartáveis e embalagens de pizza, enrolando os dedos com o material plástico. Ele ergueu o rosto e até tentou cantarolar alguma música que tinha ensinado para os antigos alunos, enquanto carregava as sacolas até a lata de lixo na cozinha.

"É melhor assim." Ele tentava se convencer. É melhor estar sozinho começando algo novo, do que continuar a vida da maneira que ele estava levando, permitindo-se ser abusado, sendo usado e constantemente humilhado. Chanyeol precisava de independência, ele precisava de distância daqueles que estavam fazendo mal a ele. Ele reconhecia isso, mas então, por que agora a vitória parecia ter um sabor tão estranho para ele?

Ele tinha muito medo do que viria a seguir.

Mordendo os lábios, comprimindo um desejo de chorar, um pavor ansioso quanto ao que seria de sua vida, agora que ele finalmente tinha criado coragem para mudar, o mais alto abriu a lata de lixo. Chanyeol estava prestes a jogar os sacos fora, quando ele escutou um barulho seco que o fez parar.

Era como se algo tivesse se jogado contra a parede, emitindo um som semelhante a uma bola quicando no chão, ou ao de uma pessoa de mãos leves batendo na porta.

Contudo, Chanyeol tinha quase certeza de que não havia ninguém batendo na porta. Seus amigos haviam acabado de ir embora e ele não tinha visto ninguém se aproximando no corredor. Além disso, o professor de música podia se certificar de que ele havia escutado o barulho na cozinha, ele tinha ouvidos muito bons e sabia que não estava escutando errado.

Logo, ele fez silêncio, permitindo que breves segundos envolvidos por um silêncio tortuoso seguissem.

E então, ele escutou novamente.

Duas batidas rítmicas, perfeitamente compassadas como se fossem o tic-tac de um relógio. Um punho batendo duas vezes na porta, como uma vizinha impaciente que aguardava do outro lado do corredor. No entanto, nada acontecia no corredor do andar, e as batidas mais altas que ecoaram pelo apartamento possibilitaram que Chanyeol notasse de que direção vinham as batidas.

Como se estivesse reagindo à descoberta de Chanyeol, felicitando-o por sua perspicácia, outras batidas mais altas surgiram no vazio.

Ele percebeu, desta vez, que o som vinha de uma das paredes.

Seu cenho se franziu, antes que o mais alto pudesse conter a própria curiosidade e, abandonando os sacos de lixo, se aproximasse com passos lentos em direção à parede de onde vinham as batidas esquisitas.

Aquilo era terrivelmente estranho. Chanyeol sabia que as paredes eram finas demais para que permitisse que pequenos animais passassem livremente por ela, a construção era feita inteiramente por concreto, tijolos e vigas de metal. Da mesma maneira, os canos passavam pelo tato e pelas paredes da sala de estar, não pela parede da cozinha, de onde as batidas estavam vindo.

Também não poderia ter ninguém batendo do outro lado da parede. O apartamento de Chanyeol era o último no andar, ao lado daquela parede não havia nada, nem mesmo as escadas de emergência estavam instaladas ali.

Intrigado, o professor de música não pôde controlar os próprios pés. Ele se aproximou das paredes, parando quando as batidas deixaram de ecoar.

Houve silêncio novamente.

Ainda curioso, Chanyeol deu um passo para trás na intenção de voltar para onde tinha deixado os sacos de lixo, quando um barulho diferente das batidas nas paredes rasgou a quietude no apartamento.

Um estalo soou sob a sola das pantufas e ele sentiu algo afiado atravessar o material do calçado, furando sua pele. Doeu e ele soltou um gemido dolorido quando sentiu a ferida se abrindo.

Ele levantou o pé por instinto, chutando o objeto que o machucou. Com a ação, o crepitar de algo sendo esmagado se tornou mais alto, como se diversos pedaços de uma escultura estivessem se partindo. Houve um estalo de madeira e quando Chanyeol tirou a pantufa para desvendar o que tinha cortado a sola de seu pé, ele encontrou uma minúscula lâmina presa na sola. Parecia uma pequena faca que havia sido arrancada do cabo, com algumas lascas de madeira ainda presas no lado que não estava preso nas pantufas.

Ainda com as sobrancelhas unidas, Chanyeol olhou para baixo, deparando-se com o que restou do corpo de madeira que havia se soltado da lâmina.

Ele congelou, sentindo o corpo enrijecer ao reconhecer os pedaços partidos de um chapéu preto e uniforme vermelho, botões dourados haviam se espalhado pelo chão, soltando-se da faixa de tecido do brinquedo. Entretanto, ele ainda era reconhecível.

Era um quebra-noz, e o professor de música sabia a quem aquele brinquedo pertencia.

"Porra" ele xingou, soltando a pantufa. Suas mãos imediatamente foram para os seus cabelos, puxando-os com força. "Porra" ele repetiu, incrédulo com sua própria tolice.

Ele não podia acreditar que tinha feito uma besteira tão grande.

Aquele quebra-noz com certeza era um dos brinquedos da Senhora Jung. A descrição combinava com os pedaços do que um dia tinha sido um artefato precioso, e Chanyeol tinha pisado nele. Ele havia esmagado e então chutado o corpo de madeira do quebra-noz, que inevitavelmente perdeu a própria arma e um pedaço da cabeça.

O mais alto choramingou, esquecendo-se até mesmo das batidas estranhas que ele estava escutando e o levaram até aquele lado da cozinha.

Balançando a cabeça em negação, ele se curvou, pegando cuidadosamente cada pedaço e cada farpa de madeira do boneco da vizinha. Estava desmontado, mas ele sabia que poderia dar um jeito naquilo. Colar e usar pregos não resolveria, mas ele poderia procurar um profissional em confecção. Talvez comprar um novo soasse ofensivo, ainda que parecesse uma boa alternativa, então Chanyeol não quis se arriscar.

Segurando os pedaços do brinquedo como se fosse um animal ferido, ele se levantou novamente. Sua respiração acelerada combinou com o ritmo das batidas ligeiras que soou pela parede.

Dessa vez havia soado mais rápido, como se quem batesse estivesse incomodado com algo.

Chanyeol não soube o que fazer, temendo ceder a própria curiosidade outra vez e quebrar mais alguma coisa.

Ele quase não quis seguir em frente, quase não quis ceder à própria impulsividade, quando seus olhos encontraram o relevo do que parecia uma pequena porta próxima ao chão.

Era assombroso como ele nunca havia reparado naquela porta em nenhuma de suas visitas anteriores ao apartamento, ou quando arrastava os poucos móveis que tinha, para receber os convidados de sua festa de boas-vindas. Ele deveria ter notado aquilo antes, não havia sentido em ele não ter visto.

Era uma porta em miniatura, grande o suficiente para que um cão atravessasse. Detalhe que também aguçou o estranhamento de Chanyeol, o qual não pôde evitar voltar a se aproximar, ainda segurando os pedaços do brinquedo entre as mãos grandes.

Não havia nada do outro lado da parede, então por que um apartamento como aquele, em um prédio que sequer permitia a presença de animais, teria uma porta para a passagem de cães em um lugar tão estranho?

Ele não deveria ter se aproximado, mas foi o que fez, mancando toda vez que o pé machucado tocava o chão. Com os lábios unidos, Chanyeol cambaleou até que estivesse em frente à porta. Ele se curvou, averiguando sua altura e largura, questionando-se sobre a necessidade de algo como aquilo em seu apartamento, quando seus olhos caíram sobre o estranho formato da fechadura.

A porta não possuía maçaneta, mas tinha uma trava por onde, obviamente, uma chave poderia ser passada. O formato da tranca era semelhante a um raio, da mesma forma que a lâmina do quebra-noz possuía quando observada de cima a baixo.

Chanyeol não deveria ter feito o que fez a seguir. Ele era um homem temeroso e por muitas vezes havia sido chamado de covarde pela hesitação que tinha sempre que precisava tomar uma decisão realmente importante. Chanyeol estava acostumado a viver pequenas aventuras, viagens decididas na última hora e se atrever a novos hobbies, mas nada que fosse tão excêntrico quanto terminar um relacionamento anos, se mudar, largar um emprego e vir para uma nova cidade.

Ele ainda sentia muito medo, ainda que sua decisão já tivesse sido tomada. Mas ele tinha medo de se arrepender. Chanyeol temia que algo desse errado nessa nova jornada, ele temia que as coisas ruins voltassem a acontecer, ele temia que não fosse conseguir um emprego novo, temia ficar sozinho e temia que as palavras gritadas por seu ex-namorado fossem verdades — que ninguém iria o querer, porque ele era um imprestável que, ao fim de tudo, voltaria rastejando para Seul quando caísse em si.

Chanyeol não queria ser essa pessoa. Ele queria ser a pessoa corajosa, aquele que tomava as boas decisões e que vivia aventuras de verdade.

Ele encarou a lâmina presa na pantufa como se ela fosse seu bilhete premiado para algo novo. E talvez fosse.

Cego pela adrenalina que o fez suar com antecipação, Chanyeol alcançou o calçado que estava caído no chão, arrancando a lâmina de onde estava presa. E, sem pensar muito no que estava fazendo, enfiou a lâmina na fechadura da porta.

Houve um clique gelado, ferro antigo rangendo dentro da porta, acompanhando o movimento das travas se mexendo antes que ela se abrisse e uma mão escapasse da abertura.

Foi mais rápido do que Chanyeol pôde registrar. Ele sentiu a mão gelada tocando sua pele, antes mesmo que tivesse tempo de vê-la saindo pela misteriosa porta em seu apartamento. Ele quis gritar, mas não conseguiu, horrorizado demais com o que estava acontecendo para ser capaz de reagir.

Ele sentiu como se houvesse sido puxado para um filme de terror quando a mão começou a puxá-lo, arrastando-o sobre o chão.

Chanyeol tentou resistir, usando os pés para se manter firme, mas a mão sozinha era forte demais para que o professor de música conseguisse resistir.

Cheio de pavor, ele continuou a ser arrastado, seu corpo lentamente desaparecendo sob a escuridão que guardava o interior da porta. Quando ele conseguiu separar os lábios para gritar, infelizmente já era tarde demais.

Ao imergir na escuridão, Chanyeol pôde sentir uma leve tontura. A última coisa que ele viu antes que a porta se fechasse em frente aos seus olhos, separando-o de sua nova vida, foram as lâmpadas no teto. De alguma maneira, ele havia encolhido o suficiente para caber, o bastante para que seus ombros e braços longos não doessem ao entrar.

Ele também quase não sentiu quando a porta foi fechada e a luz se extinguiu diante seus olhos.

A mão fria, tão repentinamente quanto surgiu, desapareceu, abandonando-o.

Por alguns segundos, Chanyeol não sentiu nada, como se estivesse preso entre um sonho e um pesadelo.

Por breves instantes, era como se estivesse flutuando no vazio.

Até que ele começou a cair.

Chanyeol sentiu como se existisse algo pesando sobre suas costas, empurrando-o com a maior velocidade em direção ao chão. Apesar da escuridão, era possível distinguir um distinto brilho roxo que irradiava conforme sua queda pelo buraco.

O professor de música gritou, esperneou e tentou se proteger de sua queda, ainda que estivesse escuro demais para que ele soubesse dizer quando alcançaria o chão. Não havia nenhuma indicação de fim, tal qual também não havia indicação de um começo ― ele apenas estava caindo, sem sinal de que em algum momento poderia parar.

Chanyeol sentiu medo pela própria vida, seu rosto estava gelado, umedecido pelas lágrimas que ele não tinha notado ter deixado escapar, quando abruptamente sua queda começou a diminuir a velocidade.

Seu corpo, que estava em total inércia, descendo como um projétil ao disparar de uma arma, lentamente voltou a flutuar. Ele levitou como uma pena, até que gentilmente pousasse no chão, encontrando o fim do buraco, onde uma outra pequena porta o aguardava.

"Que porra é essa?" Ele murmurou as únicas palavras capazes de esboçar, depois da experiência que tinha acabado de passar.

Diferentemente da entrada por onde ele tinha passado, a porta no final do buraco possuía iluminação. As paredes do túnel eram mais iluminadas naquela parte do que no começo, o que possibilitava ao mais alto erguer o rosto e encarar todo o caminho por onde ele tinha caído.

Ainda não era possível encontrar o início, o que só mostrava quão alto tinha sido sua queda, mas ele pôde notar com clareza as paredes que pareciam muito com a toca de um animal.

Aterrorizado, Chanyeol se viu preso em um impasse. Ele estremeceu ao imaginar o que aconteceria caso decidisse passar pela porta, mas também não queria ficar no túnel. A toca em que ele havia caído era estreita, além disso, o mais alto não havia esquecido a mão gelada que tinha o puxado. A mão estava sozinha, como se possuísse vida própria após ter sido decepada, mas se havia um membro perdido, certamente também havia um corpo a quem ela pertencia.

E Chanyeol temia encontrar o resto do corpo.

Longos minutos se arrastaram, conforme ele tentava decidir o que fazer.

Era difícil descobrir o que seria menos arriscado. Ele tinha sido imprudente antes, e foi assim, querendo sanar a própria curiosidade, que o mais alto acabou sendo arrastado para dentro do início deste pesadelo, ele temia que sua próxima decisão impulsiva fosse capaz de o guiar para um caminho ainda mais atemorizante.

Ele queria fugir, mas ao olhar para o buraco acima de sua cabeça, escalar e voltar ao topo parecia impossível. Era muito alto e estava longe, além de que, ao julgar como seu pouso tinha sido mais cuidadoso do que sua queda, provavelmente havia algo que influenciava a gravidade naquele espaço.

O que o levava para a segunda opção.

Talvez ele estivesse preso em um sonho, um sonho muito realista que beirava o precipício dos pesadelos, mas que ainda era um sonho. Isso justificaria os eventos bizarros em sequência.

Do outro lado da porta havia música, alguém estava cantarolando em um tom agradável. A melodia ligeiramente familiar chamou a atenção do professor de música que, após encarar o túnel uma última vez, procurando pela entrada que não conseguiria encontrar, atreveu-se a abrir a segunda porta.

A porta era assustadoramente semelhante à entrada por onde ele havia sido puxado, sob a única diferença de que, nesta não haviam trancas e a maçaneta, assim como as dobraduras, estavam instaladas no lado contrário, como se esta porta fosse o reflexo espelhado da versão idêntica que havia em seu apartamento. Elas poderiam se encaixar caso fossem colocadas lado a lado, Chanyeol sentiu um arrepio desconfortável cobrir sua pele quando notou tal detalhe.

Trêmulo, ele se agachou, ainda hesitante quanto ao que fazer. Voltar para casa era improvável e aquele parecia ser o único caminho possível para seguir em frente.

Mordendo os lábios, Chanyeol fechou os olhos e ao levantar as mãos, encostou a palma contra a madeira fria, empurrando-a suavemente.

Houve um ranger fraco que ecoou pelo cômodo no instante em que a porta se moveu, mas que só foi escutado pelo mais alto. A música que estava sendo cantarolada se tornou mais alta, a voz de um cantor escapando por auto-falantes acompanhava as sequências de murmúrios musicais, parecia que um rádio estava ligado e por sorte a música tinha abafado a percepção de que alguém tinha aberto a pequena porta.

Ainda agachado, Chanyeol colocou apenas a cabeça para fora, espiando o lado de fora do túnel como uma criança faria. Ele olhou para os dois lados, e o que viu fez com que ele prendesse a respiração.

Era como se ele estivesse de volta à entrada do túnel, de volta a uma versão melhor do próprio apartamento. Eram os mesmos móveis porém novos, como se houvessem acabado de ter sido comprados. O chão e as paredes estavam limpos, parecendo ter sido recém reformados, luxuosamente decorados com estantes de livros, porta-retratos e um relógio que Chanyeol não tinha comprado.

Felizmente, não havia qualquer sinal de uma mão amputada também.

Reconhecendo que aquele apartamento era uma versão igual do próprio apartamento, o mais alto, que ainda não havia saído de seu esconderijo dentro do túnel, atreveu-se a encarar em direção ao que seria a cozinha. Era dali que partia a música que Chanyeol escutava e, ao julgar pela lâmpada acesa e o crepitar constante de talheres batendo contra artefatos de madeira, era fácil adivinhar que o possível morador do apartamento estava cozinhando.

"Será que estou sonhando?" Chanyeol murmurou, ainda incrédulo. Seu tom de voz foi baixo, não muito mais alto que um sussurro, mas o dono do apartamento parecia ter ouvidos muito bons para reconhecer tons de vozes. Ele não escutou o ranger desconfortável da porta ao ser aberto — ou se escutou, ignorou-o deliberadamente —, mas se empertigou, como se houvesse levado uma descarga elétrica nas mãos ao escutar o tom grave da voz de uma nova presença em sua casa.

O estranho se virou, parando o que estava fazendo, procurando Chanyeol com os olhos. No mesmo instante, apavorado em ter sido pego, o mais alto deu dois passos para trás ainda agachado e caiu no chão. Ele não conseguiu flagrar o rosto do estranho, mas em meio à nuvem de horror que o atemorizava, distinguir o semblante do indivíduo que morava nessa realidade alternativa do que só poderia ser um pesadelo seu, não era um desejo do professor de música.

Ele queria ir embora. Queria muito ir embora.

Logo, acima das notas musicais que ainda tocavam no rádio, Chanyeol pôde escutar o ecoar alto de passos estalando sobre o chão. As passadas eram regulares, mas foram ficando cada vez mais altas conforme seu dono se aproximava.

Esforçando-se para escutar acima da voz dos cantores e os instrumentos musicais, Chanyeol prestou atenção no som dos passos, até que eles parassem em frente à pequena porta que servia como barreira entre a cópia de seu apartamento e o túnel em que se escondia. Ele havia a fechado antes de cair, quando voltou para dentro do túnel ao perceber que alguém tinha notado sua presença.

Porém, essa porta, que era a versão sem trancas da idêntica que ele tinha em casa, poderia ser facilmente aberta caso o desconhecido do outro lado tentasse empurrá-la. E isso Chanyeol se negava a permitir acontecer.

Antes que o estranho pudesse tentar abrir, o mais alto se projetou contra a maçaneta, segurando-a com força, empurrando-a para impedir que a porta fosse aberta. Ele não sabia o que havia do outro lado, mas tinha a certeza de que era um homem. E, se ele já havia se assustado com apenas uma mão, não exagero dizer que Chanyeol estava apavorado com o que poderia estar dentro do apartamento.

"Estávamos esperando por você," disse o estranho. Sua voz era agradável, ela soava tão bem ao pronunciar palavras quanto ao entoar melodias. "Por favor, não nos faça esperar, eu estava preparando uma refeição para te receber."

Desconfiado e nem um pouco disposto a diálogos, Chanyeol se negou a responder. Ao invés disso, ele tentou usar mais força contra a porta, praticamente se deitando sobre a superfície de madeira, usando os pés como apoio para se firmar no chão. Suas mãos estavam firmes sobre a minúscula maçaneta de metal que parecia pronta para se partir sob seu toque, ao ser puxada de um lado para o outro através do buraco na porta.

"Por favor, não tenha medo!" o estranho voltou a falar. "Eu estou aqui para te ajudar, foi você quem me chamou!" Ele tentou, mas Chanyeol o ignorou rapidamente, não levando o que ele dizia a sério. A criatura que o esperava do outro lado poderia inventar todo tipo de histórias para enganá-lo, mas ele estava decidido a não ceder.

De ambos os lados havia resistência e teimosia, empurrando e puxando até que a superfície de madeira começasse a soar como se estivesse se partindo, o craquelar de madeira quebrando horrorizando o mais alto. Com isso, sua pressão contra a porta suavizou, fazendo com que ele tombasse para frente quando quem estava dentro do apartamento usou toda a força uma última vez. Chanyeol tropeçou, caindo para a frente, mas antes que a outra pessoa pudesse abrir a porta de uma vez e puxá-lo, o barulho de passos correndo e latidos surgiu, sobrepondo até mesmo a música que escapava da cozinha.

A sequência de ganidos e uivos fizeram com que a figura desconhecida se afastasse quase em desespero, levantando-se para seguir os animais que invadiram o apartamento.

"Não, isso não é para você!" Ele parecia estar falando com um animal de estimação. "Menino malvado! Como você alcançou esse pedaço de bife?" A última sentença tinha sido dita em voz baixa, como se o estranho estivesse questionando a si mesmo e não ao cão. Em ambos os casos, a conversa seria esquisita.

Imóvel, Chanyeol escutou rosnados e grunhidos, como se o cão estivesse insatisfeito com a repreensão do outro e estivesse tentando estabelecer um diálogo. Mas o possível perseguidor do professor de música era irresoluto, e persistia lamentando pela comida perdida, ao mesmo tempo que brigava com o cachorro.

Até esse momento, o mais alto imaginava que poucas coisas poderiam impressioná-lo naquela noite. Contudo, contradizendo o próprio bom senso, ele se sentiu tentado a espiar o que acontecia dentro do apartamento.

Saindo de sua posição defensiva, o professor de música se atreveu a se levantar e lentamente voltou para a abertura, onde mais uma vez ousou colocar apenas a cabeça para fora.

Ali, ele encontrou uma cena que parecia estranhamente familiar. O dono do apartamento estava com as costas voltadas para Chanyeol, ajoelhado em frente a um animal que, do ponto de vista dele, parecia um cachorro comum. Igualmente, a figura misteriosa não parecia tão estranha agora que Chanyeol observava com mais atenção.

Ele não tinha se atrevido a encará-lo e devido a todas as coisas que aconteceram até que ele encontrasse a pequena porta que o levava ao apartamento idêntico ao seu, Chanyeol supôs que o proprietário deveria ser uma criatura tão horripilante, ou até mesmo pior do que a mão amputada que tinha o arrastado para dentro do túnel.

Entretanto, ele sequer era assustador. A figura, que era semelhante a um homem, parecia com o próprio Chanyeol. Porém, apenas para sanar as próprias dúvidas, o mais alto se prontificou a contar cada parte do corpo que era possível enxergar através das roupas e a iluminação fraca da sala de estar.

Haviam um par de pernas, um par de orelhas que escapavam pelos fios de cabelos longos e escuros e dois braços que não paravam de se mexer enquanto disputava a força contra a mandíbula de um cão que, teimosamente se negava a soltar um pedaço de carne meio cru.

"Toben!" o outro homem falou, "Olha como você está se comportando mal, nós temos visita hoje!"

O cuidado em, sutilmente, avisar que sabia que estavam sendo vigiado, deveria ser um convite para que o mais alto se revelasse, mas Chanyeol estava intrigado demais para que fosse capaz de falar qualquer coisa, suas sobrancelhas estavam profundamente franzidas enquanto ele meditava no nome do cão. Toben. Seu cachorro, aquele que ele tinha deixado de criar e que agora ficava apenas na casa de seus pais porque seu ex-namorado odiava o adorável animal, tinha o mesmo nome.

Era estranho demais para que fossem simples coincidências. Desde a maneira que ele havia caído, até a semelhança entre os apartamentos e agora até mesmo o cão que havia acompanhado Chanyeol durante a infância e adolescência. Ele não sabia em que tipo de pesadelo estava vivendo, mas gostaria de acordar.

Seu subconsciente estava sendo cruel, foi a conclusão que ele chegou. Era a única justificativa possível para a noite aterrorizante que estava tendo.

Ainda que ele não fosse capaz de lembrar o momento em que começou a dormir, era fácil e parecia lógico supor que talvez tenha acontecido pouco depois que Jongin foi embora.

Sim, talvez tenha sido isso. Ele poderia estar sonolento e se deitou no sofá da sala, então tudo o que aconteceu, os barulhos nas paredes, o quebra-nozes quebrado, a mão que o puxou pelo pé e a minúscula porta por onde, de alguma maneira, ele tinha conseguido passar, tenha sido tudo parte de um sonho que ele ainda estava preso.

Ele só precisava acordar.

Era reconfortante pensar assim.

Balançando a cabeça, Chanyeol assentiu para si mesmo apesar da inquietação que brincava em seu estômago, assombrava sua mente e dificultava sua respiração. Tudo parecia muito real à sua volta, até mesmo as misteriosas luzes arroxeadas que iluminavam o fim do túnel e a entrada da porta que levava ao apartamento, muito tangível e palpável, apesar de suas negações, como se estivessem zombando de suas conclusões desesperadas.

Perturbado, o mais alto balançou a cabeça outra vez, afastando os pensamentos e só naquele momento percebendo que eles estavam estranhamente silenciosos.

A discussão entre Toben e seu dono havia sido encerrada e, no lugar disso, a figura desconhecida dava a Chanyeol toda sua atenção. Ele havia se virado e agora encarava-o desavergonhadamente.

O estranho era, definitivamente, uma pessoa. Ele possuía um rosto bonito, cabelos escuros cortados em uma franja que cobria suas sobrancelhas e olhos pretos em um tom tão profundo e escuro, que poderiam ser comparados à madrugada de estrelas, eram foscos, sem brilho e sem emoção. Entretanto, eram estranhamente cativantes, ainda que diferentes. Um par de íris tão pretas que se mesclavam à cor das pupilas. Em um contraste gritante, porém, os lábios do outro eram expressivos, coloridos em um tom saudável de vermelho, puxados em uma sugestão de um sorriso.

O semblante do estranho era convidativo, ele parecia ansiar por uma conversa com Chanyeol, ainda que o mais alto se mostrasse resistente em falar.

Logo, eles apenas se encararam. O silêncio foi desconfortante para Chanyeol, que se sentiu intimidado pelo olhar persistente do outro. O estranho parecia querer falar alguma coisa, ele estava inquieto como uma criança, balançando-se de um lado para o outro, trocando o peso entre os pés.

Parecia cruel mantê-lo ansiando, mas o professor de música não estava particularmente caridoso depois da noite que teve. De maneira que ele se negou a falar uma única palavra.

O silêncio perdurou entre eles durante mais alguns segundos, até que o estranho não conseguisse mais suportar e desatasse a falar:

"Eu estava esperando por você há horas, não acredito que você finalmente chegou, espero que a viagem não tenha sido muito desconfortável, infelizmente é o único caminho que temos." Ele sorriu, apontando para o túnel ao falar sobre um caminho, rindo como se estivesse contando uma piada interna entre dois bons amigos. "Eu sou o Baekhyun, é um prazer conhecê-lo, Chanyeol."

Tantas coisas estranhas estavam acontecendo que, dessa vez, o mais alto mal deu atenção ao fato do estranho já conhecê-lo ― até mesmo estar esperando pela chegada dele.

Agarrando-se à ideia de que estava em um pesadelo como se sua vida dependesse disso, Chanyeol usou toda força de vontade que restava em seu corpo para ignorar a apresentação de Baekhyun. Ele apenas se curvou, cumprimentando-o em resposta quando o outro se aproximou ainda ajoelhado, até a abertura da porta de onde o mais alto ainda não havia saído.

Quando ele se aproximou, Toben o seguiu, o pedaço de bife preso entre os dentes, a carne meio congelada pingando e sujando o chão, deixando um rastro mal cheiroso por onde o cão havia passado.

"Não vai nos perguntar de onde nos conhecemos?" Baekhyun perguntou com a sugestão de um tom malicioso brincando em sua voz. Caso seus olhos não fossem tão apáticos eles estariam brilhando.

Balançando a cabeça, o mais alto respondeu com um "não" não dito. Honestamente, ele temia saber a resposta para aquela pergunta.

Ainda assim, de alguma maneira, ele havia dado a resposta correta, ou ao menos aquela que agradaria a Baekhyun, que assentiu enquanto seu sorriso se tornava mais largo.

"Eu o conheço porque você pediu a minha ajuda" disse Baekhyun "Você precisava de algo, então fez um pedido e eu estou aqui para oferecer os meus serviços."

"Seus serviços?" Chanyeol não pôde evitar ecoar, arrependendo-se no instante em que as palavras escaparam de seus lábios e o sorriso do homem em frente a ele se alargou.

"Então você também pode falar?" O outro riu, inclinando-se para frente, unindo seus rostos em uma distância desconfortável para o mais alto que, instintivamente, pendeu o corpo para trás.

Agora que estavam mais perto um do outro, Chanyeol tinha uma visão mais clara da aparência dos olhos de Baekhyun.

Ele percebeu que, diferentemente do que havia pensado antes, aqueles olhos não estavam vazios apesar da falta de luz ou expressão.

Não existiam íris ou pupilas em meio à escuridão, ainda assim, no lugar disso era possível encontrar pequenos pontos escuros espalhados como estrelas em uma constelação. Chanyeol conseguiu contar exatamente quatro pontos que se destacavam em meio à opacidade, irradiando em um preto ligeiramente mais brilhante, como pedras preciosas costuradas em um veludo caro. Dentro das orbes brancas eles se distinguiam com um formato diferente. Haviam linhas finas também pretas que interligavam os quatro minúsculos pontos nos olhos de Baekhyun, conectando-os em um trabalho bem feito como se houvesse sido feito pelas mãos cuidadosas de uma costureira e uma agulha.

A combinação quando vista de perto, dava a impressão de que, no lugar das pupilas e íris, o outro carregava um par de botões costurados aos olhos. Era uma aparência incomum, mas não horripilante ou bizarra. A impressão de que haviam botões costurados em seus olhos, dava ao semblante de Baekhyun um pouco mais de beleza, ele parecia um boneco com os cabelos bonitos, os lábios apertados em um sorriso e a expressão atrevida.

Sabendo que estava sendo observado, Baekhyun voltou a falar.

"Encontrou alguma coisa interessante?" ele quis saber em um tom naturalmente audacioso, ele estava provocando a Chanyeol como se eles já se conhecessem.

"Seus... Seus olhos..." foi a resposta do mais alto.

Ele temeu ser indelicado, sentindo o rosto esquentar ao perceber como havia sido direto. Chanyeol ainda estava encarando os olhos com aparências de botões, ele não conseguia afastar a atenção, por mais que se esforçasse.

"Meus olhos?" Baekhyun perguntou em um tom dolorosamente ingênuo e mentiroso. Seus lábios estavam pressionados um contra o outro, escondendo o sorriso que antes brincava em seu rosto, ele parecia estar contendo o riso. "O que tem eles? Você gostou dos meus olhos?"

E ele piscou, pálpebras rapidamente escondendo os olhos de aparência inumanas. Com os olhos fechados, Baekhyun parecia alguém que Chanyeol facilmente encontraria na rua, talvez um belo professor com suas roupas elegantes, ou quem sabe até mesmo um cantor popular, como aqueles que passavam na televisão.

Mas, quando ele abria os olhos novamente e o encarava com os olhos de botões, era como se o mais alto estivesse preso em algum conto fantástico, em uma fantasia horripilante digna de livros ou histórias de halloween. Chanyeol estava receoso, assustado o bastante para se negar a admitir o fascínio que sentiu.

Mais uma vez, ele se calou. Baekhyun havia feito uma pergunta e parecia esperar por uma resposta, mas Chanyeol não sabia o que dizer. Ele gostaria de fazer mais perguntas. Será que Baekhyun sabia que ele tinha botões costurados aos olhos?

Ele deveria saber, mas estava agindo com tanta tranquilidade, rindo e brincando como se fosse algo comum, como se todos também tivessem botões costurados onde deveriam estar pupilas e córneas, que Chanyeol desejou questionar. Perguntar se doía colocar os botões também seria indelicado, e para essa pergunta Chanyeol não sabia se gostaria de saber a resposta. Mas ele estava curioso, terrivelmente interessado como uma criança que ganha um presente embrulhado em uma caixa e se contorce desejando descobrir o que existe dentro do pacote.

"Sabe," Baekhyun voltou a falar com casualidade. Ele se espreguiçou, levantando os braços e Toben surgiu ao seu lado, colocando a cabeça coberta de pelos escuros logo abaixo de seu cotovelo. Naquele instante, Chanyeol notou que o cão também possuía os olhos com uma aparência semelhante a de botões. "Você não parece tão assustado quanto eu imaginei que ficaria."

O professor de música quis rir, mas ele ainda estava ligeiramente paralisado.

Em frente a ele, o dono do apartamento franziu o cenho. Ele inclinou a cabeça parecendo analisar o mais alto, mas era apenas uma suspeita de Chanyeol. Era difícil saber para onde Baekhyun estava olhando.

"A não ser que sua falta de palavras seja porque você está assustado..." Baekhyun sussurrou de maneira pensativa. Balançando a cabeça, ele se virou para o cachorro e reclamou em tom acusatório: "Está vendo o que você fez, Toben?" Erguendo o dedo, ele apontou para o poodle e disse: "Se você não tivesse entrado e roubado a comida do nosso visitante, ele não estaria tão assustado!"

Em resposta, Toben deixou o pedaço de carne cair no chão em frente a eles. Ele olhou para Baekhyun e depois de brincar um pouco, revirando o bife com o focinho, mastigou enquanto ainda o encarava. Caso o animal fosse capaz de raciocinar e pensar como um ser humano, o professor de música poderia jurar que o cão estava zombando do outro.

Aparentemente, Baekhyun teve a mesma impressão ao julgar pela maneira que ele jogou a cabeça para trás e gargalhou.

"Eu..." Chanyeol hesitou. Os olhos de Baekhyun fizeram um movimento diferente, procurando por ele, ainda que aparentassem não ser capazes de focar. Chanyeol não tinha certeza se Baekhyun estava o enxergando. Mas ele se comportava como se estivesse, e acenando para o professor de música, pediu que ele continuasse a falar. Então, o mais alto perguntou: "Onde eu estou?"

Não abandonando o sorriso constante, o dono do apartamento deu de ombros.

"Isso depende de onde você quer estar."

Foi uma resposta insatisfatória. Chanyeol fez uma careta.

"Eu estou sonhando?" ele tentou novamente.

Dando de ombros outra vez, Baekhyun replicou:

"Você quer que isso seja um sonho?"

Chanyeol separou os lábios, ele não sabia o que responder, mas antes que os pensamentos pudessem acumular em sua mente, Baekhyun se levantou de onde estava agachado. Ele bateu nas próprias roupas, um par de calças de linho elegantes e uma camisa social, limpando-as, para em seguida erguer os braços oferecendo a mão e ajudá-lo a também se levantar.

Desconfiado, Chanyeol ergueu uma sobrancelha, encarando a mão estendida. Ele até mesmo se atreveu a espiar o pulso de Baekhyun, procurando por qualquer sinal de uma cicatriz, suspeitando que talvez a mão que havia o puxado poderia ser dele.

Não havia cicatrizes e a mão parecia estar presa firmemente ao resto do corpo, mas tal conhecimento ainda não foi o suficiente para tranquilizá-lo.

"Prefere não receber ajuda, então? Por mim tudo bem." Baekhyun deu de ombros outra vez, não desfazendo o sorriso. Ele voltou a se ajoelhar, sujando a roupa de aparência cara e, sem aviso prévio, atreveu-se a segurar Chanyeol pelos cotovelos, cuidadosamente puxando-o para dentro do apartamento.

O professor de música quis gritar, ele se contorceu para que o mais baixo se afastasse e Baekhyun retirou as mãos rapidamente.

"Eu só quero te ajudar a sair, não é bom ficar no túnel durante muito tempo" ele explicou em tom de aviso e então, ignorando o espaço pessoal de Chanyeol, engatinhou para fora do apartamento, juntando-se a ele no espaço apartado na entrada da pequena porta. Eles se espremeram um contra o outro, ficando tão próximos que Chanyeol estremeceu.

"Você não sabe quando outra pessoa vai entrar e cair pelo buraco" disse o homem com botões nos olhos, apontando para cima.

Fugindo dos botões pretos que piscavam para ele, o mais alto seguiu a direção que os dedos de Baekhyun indicavam, encontrando as paredes escuras do túnel, o topo tão distantes que era impossível de se enxergar. Bufando, ele voltou a atenção para Baekhyun, que ainda estava assustadoramente próximo.

"Por favor, eu até mesmo preparei uma refeição para você. Não seja cruel comigo, eu só quero ser um bom anfitrião."

"Eu quero voltar para casa." Chanyeol quis soar ameaçador, mas sua voz falhou nas últimas palavras. Baekhyun pareceu notar e quis rir, mas antes que fosse possível, o professor de música conseguiu afastá-lo, empurrando-o pelos ombros.

"Não é difícil" Baekhyun respondeu, em seguida fez uma pausa, como se estivesse pensando. "Posso lhe conceder esse desejo." E sorriu.

Assentindo para si mesmo, o dono do apartamento se afastou, engatinhando para trás como uma criança faria. Toben estava logo atrás dele, querendo entrar pela porta que levava ao túnel ao também, quando Baekhyun pediu que o cão se afastasse para que ele pudesse passar e voltar ao apartamento.

Chanyeol o observou sair, atravessando a pequena porta para em seguida desaparecer, como se estivesse procurando por alguma coisa.

Longos minutos se passaram até que ele finalmente decidisse sair de seu esconderijo.

Baekhyun não tinha retornado e havia levado consigo o cachorro, deixando o professor de música em uma quietude agoniante. Não havia qualquer outro som além do murmurinho distante da voz da cantora, que soava através do rádio ainda ligado na cozinha. Além disso, o mais baixo havia sido bem-sucedido ao assustá-lo, quando levantou a possibilidade de outra pessoa cair pelo túnel enquanto ele se escondia ali.

Sua resistência não durou muito tempo.

Com um suspiro resignado, Chanyeol ousou sair.

Ele foi ainda mais cuidadoso ao colocar a cabeça para fora da pequena porta dessa vez, certificando-se de que o dono do apartamento não estava por perto, enquanto ele tentava escapar. Quando não escutou os latidos do Toben ou o eco da voz de Baekhyun, ele colocou as mãos para fora e lentamente saiu.

Ele estava na sala de estar, em uma versão rica e mais bonita da sala de seu próprio apartamento. As paredes eram forradas com um papel de parede luxuoso e quente, em vermelho, sua cor preferida. O cômodo todo era de seu agrado, repleto de móveis que ele jamais poderia comprar e que haviam sido seus objetos de desejo quando gastava horas fazendo pesquisas em catálogos antes de se mudar.

Havia uma enorme televisão sobre uma estante de madeira cara, aparelhos de som e video games novos, junto a alguns artigos tecnológicos, que Chanyeol sequer tinha certeza se já haviam sido lançados para o público comprar.

Ele girou, observando tudo com extrema atenção, antes de olhar na direção da cozinha e do corredor que levava ao quarto uma última vez e checar se havia alguém vindo. Não houve barulho, ele estava sozinho. Então, ele se dirigiu até os porta-retratos na estante.

As fotografias que estavam emolduradas ali não pertenciam a ele, o que o deu certo alívio. Chanyeol não se lembrava de ter alguma foto ou porta-retratos, ele não tinha levado nenhum da casa dos pais e no apartamento em que ele vivia junto ao ex-namorado, as poucas fotos que enfeitavam as estantes, eram dos dois juntos. Fotografias que agora o mais alto gostaria de queimar.

Se ele fosse sincero consigo mesmo, porém, confessaria que gostaria de ter algumas fotos. Porta-retratos possuíam um gosto familiar, faziam com que qualquer ambiente se tornasse um lar e o confortava. Eram memórias emolduradas, registradas e guardadas bem às vistas, para que ele sempre pudesse espiar as paredes quando precisasse de conforto.

No lugar disso, as memórias protegidas atrás do vidro dos porta-retratos, eram de Baekhyun. Haviam vários Baekhyuns em diferentes estágios da vida, começando quando ele parecia estar na adolescência, com o corpo esguio e franzino, até a fase adulta, sorrindo com confiança para a câmera. Em algumas fotos ele estava acompanhado por Toben, abraçando o cão como se ele fosse seu próprio animal de estimação, o que ainda o incomodava um pouco.

Toben era estranhamente semelhante ao seu cachorro, sob a única diferença de que aqui, preso nesta realidade que Chanyeol tinha certeza que era um sonho, ele era bem mais comportado e escutava Baekhyun como se eles fossem capazes de se comunicar.

Em todas as fotos também haviam botões. Desde a juventude Baekhyun parecia ter ostentado seus olhos de botões, com apenas algumas variações de cores ― não muitas, o professor de música só notou preto, azul e algumas poucas imagens com botões castanhos ―, ele sempre teve a aparência de um boneco. Da mesma maneira, Toben também não possuía olhos, no lugar disso ele tinha botões tão escuros, que se camuflavam com o pelo preto.

Nenhum dos dois havia mudado muito. Eles ainda eram sinistramente cativantes, principalmente o proprietário do apartamento, que estava ganhando a simpatia de Chanyeol apesar da conversa vaga.

Ele sabia como se comportar e quais palavras dizer, ele era um estranho, mas não era alguém que despertava medo nos outros. Talvez fosse seu sorriso, Baekhyun possuía dentes limpos, brancos, que brilhavam e ofuscavam tudo o que seus olhos de botões pareciam não ver.

Pareciam, apenas pareciam, porque Chanyeol acreditava que o mais baixo enxergava muito bem.

Ao se chocar com os botões pela primeira vez, o mais alto considerou a possibilidade de que Baekhyun poderia não vê-lo. Os botões ocupavam boa parte do branco dos olhos, e por essa razão, quando se moviam, tornava difícil identificar para onde Baekhyun estava direcionando a atenção. Mesmo quando o mais baixo tinha se aproximado, quase encostando seus rostos dentro do túnel, não parecia que seu foco estava totalmente no professor de música.

Mas isso poderia ser proposital. Baekhyun o encarava de maneira desfocada, mas ao mesmo tempo parecia se aproveitar do modo vago que se comportava. Ele poderia estar o confundindo de propósito, para que Chanyeol baixasse a guarda. O mais alto ainda não tinha certeza se ele era amigo ou inimigo.

Naquele mesmo instante, Chanyeol escutou passos ecoando pelo corredor. Ele deu um salto assustado, meio em pânico, afastando-se da estante. Quando Baekhyun retornou a sala de estar com Toben trotando ao seu lado, Chanyeol estava em pé parado de forma deslocada. Ele olhou rapidamente para a pequena porta, tentado a correr e voltar para o túnel, mas o dono do apartamento foi mais rápido.

Como se houvesse adivinhado seu pensamento, ele casualmente andou até que estivesse em frente à entrada do túnel, colocando-se ali como um bloqueio inconveniente.

Inclinando a cabeça, ele esboçou um sorriso. Botões foscos piscaram para Chanyeol, antes que ele falasse:

"Fico feliz em saber que você decidiu ficar."

Chanyeol não tinha decidido ficar, mas não o respondeu.

Não abalado com o silêncio, o mais baixo continuou.

"Mas, por mais tentador que seja ficar com a minha companhia, eu disse que iria conceder o seu desejo, então você terá de ir embora e voltar para aquela sua vida miserável em breve." Colocando uma mão no peito, ele deixou escapar a imitação de um suspiro trágico. "Não parecia muito bom enquanto eu assistia aqui embaixo, mas quem sou eu para julgá-lo, não é mesmo? Talvez eu não esteja enxergando tão bem com esses olhos, talvez seja o momento de trocá-los" ele falou, sua voz era leve, como se estivesse brincando.

"Eu posso voltar, então?" Chanyeol perguntou, recebendo como resposta um aceno do mais baixo. De onde estava, estático entre o sofá de aparência cara e a televisão luxuosa, ele viu Baekhyun dar um passo para a frente, indo em sua direção.

Instintivamente o professor de música deu um passo para trás, sentindo-se como uma presa coagida.

Tal detalhe não passou despercebido por Baekhyun, que bufou, rindo, provavelmente para zombar de Chanyeol novamente.

"Eu vou te mostrar o caminho" disse ele. "Mas antes disso, quero te mostrar uma coisa." E sem esperar por uma resposta, ele deu meia-volta e voltou para o mesmo corredor de onde havia saído.

Não era necessário que ele olhasse para trás para conferir se Chanyeol estava o seguindo. O professor de música estava atrás dele em questão de poucos segundos, seguindo-o em passos hesitantes, incertos e desconfiados.

Assim como em seu próprio apartamento, o apartamento de Baekhyun possuía poucos cômodos, apesar de ser ricamente mobiliado. A distribuição dos cômodos também era idêntica ― uma cozinha pequena, a sala de estar em que eles se encontraram, um banheiro e um quarto. Não havia muito para onde ir, a não ser que eles saíssem do apartamento, que era o caminho que o mais baixo estava o levando.

Com Toben os acompanhando, Baekhyun abriu a porta, dando um passo para o lado para que Chanyeol saísse antes dele.

De cenho franzido, Chanyeol o fitou com atenção quando pararam sob a soleira da porta. Baekhyun segurava a maçaneta ― de alumínio, prateada, uma cópia perfeita da maçaneta da porta do novo apartamento de Chanyeol ― com uma mão e com a outra apontava para fora, em um convite mudo que Chanyeol não estava inclinado a aceitar.

Suspirando, Baekhyun o olhou de maneira vaga, como se estivesse procurando por seu rosto.

"Tudo bem, eu posso ir primeiro" ele tagarelou, saindo primeiro.

Chanyeol e o pequeno cachorro o seguiram. Quando o dono do apartamento se inclinou para trancar a porta, o professor de música aproveitou para olhar ao redor.

Eles estavam em um corredor bem iluminado por pequenas lâmpadas alaranjadas que tremulavam, elas emitiam um barulho suave, como o canto de um grilo e o zumbido do bater de asas de um inseto. Era um som familiar, que lembrava ao mais alto sua própria infância, as férias no campo, acampando com os pais e caçando vagalumes. Também haviam flores rebuscadamente pintadas nas paredes forradas por um papel roxo, que brilhavam e pareciam se mover quando eram tocadas pela luz das lâmpadas, como se estivessem vivas.

O corredor, assim como o interior do apartamento de Baekhyun, era esquisitamente semelhante ao seu próprio apartamento. Havia a mesma quantidade de apartamentos e as mesmas portas de numeração igual. Eles até mesmo estavam no mesmo andar.

"Para onde você está me levando?" Chanyeol decidiu perguntar, caminhando a uma distância que ele considerava segura, enquanto acompanhava o outro para as escadas.

Quando a porta que os levava para as escadarias foi aberta, um distinto e agradável perfume floral surgiu no ar, acompanhado pela mesma luz bruxuleante que iluminava o corredor. Pequenos castiçais pendurados na parede zumbiam, derramando luz sobre as pinturas das flores e pequenas árvores pintadas nas paredes. Roseiras, pessegueiras, cerejeiras e diversas margaridas tremulavam conforme eles desciam os degraus. Chanyeol suspeitou que as lâmpadas dessem às pinturas uma ilusão de movimento. Afinal, não havia como elas estarem se movendo de verdade. Eram pinturas na parede. Certo?

"Para o saguão, lá há um salão em que existe algo que quero te mostrar, antes de você ir embora" Baekhyun explicou calmamente.

Pelas escadarias eles facilmente chegaram ao térreo, onde outra vez o anfitrião abriu a porta para que Chanyeol saísse primeiro. Desta vez ele aceitou a oferta sem muitas reclamações, muito impressionado com o interior do prédio para que pudesse discordar.

Naquela mesma manhã, ele havia passado por uma recepção muito parecida com aquela em que eles estavam. Ele havia se registrado como novo morador e pego suas chaves e cartão de acesso em um balcão como aquele, onde um porteiro com olhos de botões acenava para eles.

Também haviam flores no saguão, roseiras e espinhos espalhados no chão, trançados no piso de mármore sob os pés deles. Galhos de árvores estavam pintados no teto, colorindo-o como um afresco delicadamente pintado. O professor de música poderia identificar as árvores e seus frutos pelas diferentes folhas e flores que haviam sido desenhadas, brotando nos galhos que se cruzavam, abraçando-se como braços unidos em um aperto de mão com dedos entrelaçados.

Era muito bonito, devastadoramente encantador, Chanyeol nunca havia visto nada como aquilo. Era como se o saguão do prédio tivesse sido abraçado por um jardim que, gentilmente, tinha permitido que eles pudessem ficar para apreciar sua beleza.

Ao fechar os olhos e respirar profundamente, o mais alto pôde sentir outra vez o perfume agradável das flores.

"Era isso o que você queria me mostrar?" ele perguntou, inclinando o rosto para Baekhyun.

O homem com botões nos olhos ergueu a sobrancelha em resposta, parecendo distraído. Chanyeol o flagrou também inalando profundamente o tranquilizante aroma das plantas, antes de balançar a cabeça e piscar para ele, apontando para um par de portas-duplas do outro lado do salão.

"O que quero te mostrar está ali" o mais baixo respondeu, guiando-o para as portas fechadas.

Empurrando as portas para dentro, um outro salão se revelou. Este era menor, e no lugar de lâmpadas bruxuleantes ou flores entrelaçadas na superfície da parede, possuía paredes pálidas parcialmente iluminadas pelas velas acesas nas mesas.

Era um minúsculo salão de festas, com cadeiras entalhadas e algumas mesas redondas forradas por um tecido branco e imaculado. Sobre cada uma das mesas havia uma vela alta e brilhante, com um pavio queimando no topo, clareando os pratos organizadamente postos, prontos para serem comidos.

Arriscando uma olhada breve para Baekhyun, Chanyeol piscou, finalmente entendendo. Há alguns minutos atrás o mais baixo estava insistindo que eles deveriam ter uma refeição juntos, ou então ele não seria um bom anfitrião; era por isso que ele tinha o guiado até o salão de festa, para que eles pudessem comer antes que Chanyeol acordasse desse sonho estranho.

Aquele estranho homem, com os olhos de plásticos e aparência etérea, era inesperadamente obstinado por alguém que era a invenção do subconsciente de um professor de música desempregado.

"Surpresa!" Baekhyun exclamou com um floreio, apresentando a mesa que ele mesmo havia preparado.

Toben apareceu logo atrás dele, dando leve empurrões contra as pernas de Chanyeol, em um incentivo para que ele continuasse em frente. Chanyeol estava ligeiramente petrificado, ainda atônito, e por isso sequer era capaz de abrir a boca.

Haviam diversos tipos de doces na mesa, alguns bolos, tortas e refeições caseiras que transitavam entre a culinária ocidental e oriental. Baekhyun havia preparado até mesmo um bule de chá para que eles pudessem desfrutar enquanto comiam, escolhendo xícaras de porcelanas com detalhadas pinturas da natureza, flores de pessegueiros ilustradas com tinta roxa, que combinavam com o salão meio imerso na escuridão.

Ele estava entusiasmado e mal se conteve ao ousar segurar a mão de um Chanyeol ainda incapaz de falar, puxando-o para a mesa. Como se fossem amigos de longa data, Baekhyun escolheu uma mesa e ajudou o professor de música a se sentar, logo em seguida sentando-se no assento em frente a ele, colocando o Toben na cadeira vazia ao lado.

Ainda sustentando um sorriso, Baekhyun ergueu um pequeno sino que havia sobre a mesa, balançando-o. Logo uma melodia doce soou dele, ecoando pelo salão de festas.

O som do sino continuou sendo escutado mesmo depois que o anfitrião o guardou novamente atrás do bule de chá.

Quando o tilintar do sino desapareceu no ar, Chanyeol escutou o primeiro crepitar de algo estalando, um constante barulho de algo de madeira batendo numa superfície dura, um barulho muito parecido com os toques de batidas contra a porta, dando-o uma sensação de dejá vú não desejado.

Os estalos estavam vindo de todas as direções, aumentando como se estivesse se aproximando deles. Chanyeol lançou um olhar confuso para o chão, procurando pelo responsável por tantos ruídos.

Mas, antes que fosse possível notar qualquer coisa entre a escuridão onde a luz das velas não tocava, algo surgindo voando dentro do salão chamou sua atenção.

Asas batendo rapidamente passaram diante seus olhos, acompanhado por um pequeno enxame de pequenos insetos que pousaram sobre a mesa. Os vagalumes agiam como ajudantes para as velas, iluminando a mesa para eles, ao passo que os gafanhotos, formigas, mosquitos e até mesmo algumas baratas se aproximavam dos pratos cheios de doces e acompanhamentos.

"Ew!" Chanyeol pulou com nojo, prestes a se levantar antes de ser contido por Baekhyun, que alcançou seu braço, mantendo-o em seu assento.

Baekhyun o encarou, fixando os botões em seu rosto, para em seguida baixá-los em direção a mesa, voltando-se para os pequenos insetos que estavam rastejando à comida, em um pedido não dito para que o professor de música contesse o medo e prestasse atenção no que os insetos estavam fazendo.

Mesmo enojado, Chanyeol tentou acatar o pedido.

Três gafanhotos de diferentes cores estavam ao lado de uma xícara de chá, puxando-a com suas patinhas até onde o professor de música estava sentado. Eles estavam em sincronia, movendo-se como uma equipe bem organizada.

Antes que o mais alto pudesse começar a fazer perguntas, Baekhyun apontou para um prato de bolo que parecia se mover sozinho, flutuando entre as sobremesas.

Prendendo a respiração, Chanyeol inclinou a cabeça, curvando-se para olhar sob o prato. Surpreendentemente, ele não se sentiu tão chocado quanto imaginou que ficaria caso descobrisse atividades paranormais em seu novo prédio. Talvez não fosse tão assustador porque ele já havia assumido que estava vivendo um sonho, e depois de cair por um buraco e encontrar um anfitrião com olhos de botões, poucas coisas poderiam assustá-lo de fato.

Não houve estranhamento ou horror, seu parâmetro do que era comum ou anormal já havia sido abandonado, deixando-o apenas com a curiosidade infantil, a satisfação de presenciar as anormalidades com seus próprios olhos.

Enquanto ele espiava, tentando descobrir como o prato estava flutuando, o súbito zumbido de asas surgiu sobre sua cabeça. Quando ele olhou para cima, Chanyeol viu um grupo de mariposas que havia se juntado à refeição, elas carregavam caramelos e estavam esperando para entregá-los a ele.

As mariposas carregavam os pequenos pedaços de caramelo entre as patas, e ao perceberem que estavam sendo observadas, deixaram que o doce caísse sobre o prato vazio diante de Chanyeol.

Então ele percebeu que aqueles insetos estavam ajudando-os a servir a refeição.

Quando o prato de bolos também parou diante dele, Chanyeol notou a sombra escura ser desfeita, e gradativamente pequenas formigas apareceram, saindo de baixo do prato em uma fila organizada.

Antes que ele pudesse separar os lábios maravilhados, uma voz feminina soou da mesa atrás deles.

"Que exibido!" houve um resmungo, seguido por uma risada vinda de uma segunda voz.

Atrás da mesa em que eles estavam, havia uma única outra mesa ocupada, igualmente submersa em uma escuridão parcial, pobremente iluminada por uma vela. Sentadas à mesa, duas mulheres compartilhavam uma refeição. Elas possuíam uma aparência jovem, com longos cabelos escuros penteados em tranças e rabos de cavalos. Suas roupas eram limpas e escuras, embelezadas por detalhes com prata e jóias caras.

Enquanto comiam, elas eram servidas por bonecos de madeira que faziam barulho sobre a mesa, seus passos crepitando sobre a superfície. Eles marchavam de um lado para o outro, carregando talheres, taças de vidro e doces.

Um dos bonecos, que chamou a atenção de Chanyeol, era um quebra-noz fantasiado com um uniforme vermelho, muito parecido com aquele que ele tinha pisado horas atrás.

Ele foi tirado de seus pensamentos ao escutar Baekhyun bufar.

"Eu estou sendo o exibido?" o anfitrião resmungou, não erguendo os olhos da xícara de chá que preparava. Contudo, sua voz era alta o bastante para evidenciar como as palavras daquelas mulheres o atingiram, provavelmente manchando seu orgulho.

"Sim, até mesmo convocando os pobres insetos para se exibir" a primeira mulher voltou a falar, "Lamentável, Byun, até para você."

Outra vez, a mulher que a acompanhava na refeição soltou uma risadinha.

Sua crítica foi irônica, mas Chanyeol não se atreveu a traçar qualquer comentário sobre isso. Ela havia chamado Baekhyun de exibido pelos insetos que estavam levando os doces para eles, mas no outro lado do salão, na mesa em que elas estavam sentadas, bonecos de madeira de aparência humana estavam fazendo o mesmo por ela.

Insatisfeita com a falta de resposta do homem com olhos de botões, a mulher que estava falando estava pronta para acrescentar alguma outra coisa, quando foi interrompida pela outra que a acompanhava.

"Deixe-os em paz, Sooyoung!" disse ela, bebendo de sua própria xícara de chá. Olhando por sobre a porcelana, ela voltou os olhos para Chanyeol, encarando-o.

Ela não possuía olhos de botões, nenhuma das duas mulheres. No lugar disso, suas íris eram coloridas; Sooyoung possuía olhos perversos pintados em um tom vibrante de vermelho, ao passo que a outra mulher junto a ela, ostentava um par de olhos sinistramente roxos.

"Por favor, perdoe a falta de educação da minha vizinha" Baekhyun falou, fazendo um movimento com a cabeça semelhante ao revirar de olhos. "Eu não sabia que elas estariam aqui, caso soubesse, teríamos nossa refeição em meu apartamento." Ele parou de falar, agradecendo a uma mariposa que o entregou uma colher para provar o doce de pêssego que havia sido servido.

Com a boca cheia de doce, Baekhyun voltou a apresentar as duas mulheres,

"Essas são Park Sooyoung e Kang Seulgi," sua voz estava baixa como se ele não quisesse que elas escutassem o que ele dizia. Curvando-se sobre a mesa, ele sussurrou: "São duas bruxas, literalmente, então tome cuidado com essas duas."

Ao fundo do salão, houve o tilintar de talheres sobre uma tigela de porcelana. As duas mulheres ― bruxas ― se viraram ao mesmo tempo para a mesa em que Baekhyun estava sentado, os lábios abertos em choque, ofendidas.

"Eu estou escutando" Sooyoung resmungou entredentes, Chanyeol estremeceu, mas o mais baixo pareceu não se importar.

Rindo, ele ergueu a colher cheia de doce como quem propõe um brinde, e esboçou um sorriso brilhante para as vizinhas.

"Isso é ótimo, uma bruxa que não escuta certamente seria ainda mais assustadora" ele zombou.

"A criatura mais assustadora nesse salão é você, Byun." A outra bruxa, Seulgi, acusou, deixando escapar outra série de risadas maliciosas. Como se estivessem se comunicando sem precisar de palavras, as bruxas se encararam e riram juntas, e então olharam para Chanyeol em um movimento simultâneo, sorrindo sinistramente para ele.

Ele se viu preso entre dois pares de olhos cruéis e risonhos, zombadores, apreciadores de algo que ele desconhecia. Um desconfortável arrepio assombrou sua nuca, e ele se moveu na cadeira em que estava sentado, de repente querendo muito acordar e ir embora.

Ao perceber o desconforto no professor de música, Baekhyun devolveu o longo olhar das bruxas, erguendo uma das sobrancelhas escondida pela longa franja. Houve alguma coisa no semblante dele, algo que Chanyeol não pôde ver, que amedrontou até mesmo as bruxas e as forçaram a abaixar o rosto e voltar para a refeição.

Foi perturbadoramente estranho como o clima no salão mudou abruptamente, o humor leve e as provocações desaparecendo, substituído por um véu embebido em tensão. Ninguém disse qualquer coisa e o único som audível entre as mesas eram os talheres se chocando com as tigelas, o zumbir dos insetos na mesa do anfitrião e os passos dos bonecos de madeira que serviam as bruxas.

Após alguns segundos, Baekhyun lentamente voltou a conversar. Enquanto ele falava sozinho, Chanyeol permitiu-se discretamente encará-lo, observando.

As palavras da bruxa sobre Baekhyun ser a criatura mais assustadora ali, o incomodou, e ele não conseguia parar de se perguntar se deveria levá-las a sério. Ele não conhecia o homem com os olhos de botões, tudo o que ele havia dito a Chanyeol poderia ser uma mentira, mas ele ainda estava o tratando bem. Além disso, ele havia dito que iria guiá-lo de volta para casa, se era verdade ou não, o mais alto não tinha outra alternativa além de acreditar.

Ele não saberia como voltar sozinho, e se Baekhyun realmente fosse medonho como havia sido dito, assustador o bastante para assustar as duas bruxas, então seria inteligente que Chanyeol também não provocasse seu pior lado.

Além disso, Chanyeol também ficou um pouco curioso. Por que aquele estranho risonho poderia ser considerado assustador?

Se o professor de música tivesse de ser sincero, ele poderia admitir que Baekhyun parecia tão inofensivo quanto ele. Além dos botões pretos que pareciam estar dolorosamente costurados aos seus olhos, não havia nada em sua aparência capaz de assustar alguém. Ele era forte e apenas um pouco mais baixo que Chanyeol, mas não parecia alguém que se aproveitaria disso para atacar alguém.

"Você não fala muito, não é?" Baekhyun disse de repente, interrompendo o próprio monólogo. Ele sorriu atrevido, e não permitiu que Chanyeol respondesse ao continuar falando: "Você deve estar pensando em alguma coisa. Não! Não diga nada, deixe-me tentar adivinhar o que pode ser." E silenciando o outro, colocou os dedos sobre as têmporas, pressionando-as como se isso fosse ajudá-lo a ler os pensamentos de outra pessoa.

Por um instante, Chanyeol se perguntou se aquela poderia ser alguma verdadeira habilidade do mais baixo.

Contudo, antes que ele pudesse pensar muito sobre o assunto, Baekhyun ergueu uma mão e bufou, silenciando-o.

"Eu vou adivinhar!" ele exclamou, brincando como uma criança "Você estava pensando em..." houve um murmúrio "Você estava pensando no porquê eu te trouxe aqui, acertei?"

Errado, mas Chanyeol não negou. Ao invés disso, ele até mesmo assentiu, desviando os olhos de um empolgado Baekhyun para uma pequena centopéia que se arrastava sobre a mesa, carregando em suas costas uma minúscula tigela com amendoins.

Alcançando os amendoins oferecidos pela centopéia, o professor de música mordeu os lábios. Ele havia mentido, mas aquilo era um sonho estranho e talvez aquela pessoa com quem ele estava conversando sequer fosse real. Se nada ali era verdade, então tudo bem contar uma pequena mentira, certo?

"Eu sou muito bom em jogos de adivinhação" Baekhyun se vangloriou. Uma borboleta passou voando sobre seu ombro, derrubando em sua mão uma porção de amendoins. Logo, ele levou os amendoins à boca e os mastigou, ainda esboçando um sorriso, antes de prosseguir. "Mas, respondendo à sua pergunta, gostaria de te lembrar que você está aqui porque você desejou."

"Eu não desejei nada disso" Chanyeol respondeu rapidamente.

"Desejou sim" o outro retrucou, terminando de devorar sua porção de amendoins. "Você desejou ser uma pessoa diferente, mais corajoso, por isso eu estou aqui, para ajudá-lo a se tornar quem você quer ser e, se você quiser, tirá-lo da sua vida miserável."

Ofendido pelo tom de desprezo, Chanyeol franziu a sobrancelha. Ele separou os lábios para retrucar, pronto para falar como sua vida não era miserável coisa alguma, mas nada soou.

Ele percebeu, tardiamente, que o que pretendia dizer seria provavelmente uma mentira.

Sua vida não era totalmente infeliz, mas Chanyeol não era uma pessoa feliz. Ele era medroso, evitava tomar decisões importantes e constantemente fugia de grandes responsabilidades. Durante a infância e a idade adulta ele não havia tomado qualquer decisão por si mesmo, sempre tendo vivido pelos outros, trabalhando, estudando e amando pelos outros. Até mesmo sua busca por independência ao mudar de apartamento tinha sido diretamente influenciada pela escolha de outras pessoas.

Sentindo-se mal, Chanyeol voltou a fechar os lábios.

Esgueirando-se pela mesa de chá, outra centopéia surgiu rastejando sobre o pano, esta que carregava em suas costas uma estranha caixa de metal. O objeto parecia pesado demais para ela levar sozinha, de modo que após um gesto rápido dos dedos de Baekhyun, duas baratas subiram na mesa e foram ajudar a centopeia a levar a caixa de metal até Chanyeol.

"Eu vou te fazer uma oferta." Ao erguer o rosto, Chanyeol encontrou os olhos de botões fixos em seu rosto. Baekhyun estava falando com ele. "Dentro dessa caixa está uma chave. Vou te dar um dia para pensar na minha oferta para ajudá-lo, você vai voltar para casa assim como eu te prometi e quando quiser retornar para aqui, basta pegar a chave e eu vou saber que precisa de mim."

Erguendo uma sobrancelha, o professor de música voltou-se para a caixa de metal outra vez. A centopeia parou ao lado de seu prato, esperando que ele pegasse a caixa.

Acenando para a centopeia, ele pegou a caixa.

A caixa de metal cabia na palma de sua mão e era pequena o bastante para que coubesse facilmente em seu bolso. A tampa era lisa, sem qualquer inscrição que implicasse o que poderia ter dentro. Chanyeol quis balançar, mas ele se conteve com medo de que pudesse quebrar alguma coisa. Ainda assim, não deveria ser nada muito grande ou pesado, ele pensou, ao julgar como a caixa parecia um pequeno kit de costura como o que sua mãe guardava na bolsa quando ele era criança.

Ele falou isso ao mais baixo, que riu, concordando.

"É como um kit de costura!" ele exclamou. "Mas lembre-se que você não deve abrir agora. Você só deve ver o que está aí dentro, quando decidir aceitar minha oferta para ajudá-lo."

Analisando a caixa de metal uma outra vez, o mais alto franziu o cenho.

"O que você ganhará em troca?"

"Em troca do quê?" Baekhyun perguntou de maneira distraída, acariciando a cabeça de Toben.

"Em troca da sua ajuda" Chanyeol respondeu. "Eu tenho certeza que você não fará nada de graça."

"Oh." Ele piscou, afastando-se do cachorro. Erguendo os olhos de botões, Baekhyun esboçou um sorriso ligeiramente misterioso. "Eu tenho as minhas condições, mas o que eu quero em troca de te dar o que você quer, também está dentro da caixa."

"Então basta que eu abra?"

Fazendo que sim, o mais baixo acenou.

"Por isso você só deve abrir se tiver total certeza. Mas não fique pensando muito sobre isso, é uma oferta que favorece ambos os lados, todo mundo será beneficiado" ele garantiu.

Chanyeol tinha suas dúvidas, mas não quis contestar, calando-se com mordidas de bolo.

Não demorou muito para que Baekhyun voltasse a conversar, iniciando uma discussão sobre os insetos em que apenas ele argumentava. Ele parecia saber muito sobre as pequenas criaturas, comentando com empolgação sobre as características que diferenciavam os vertebrados dos invertebrados, as diferentes carapaças que uma barata e um besouro poderiam ter. Enquanto terminavam o chá, Baekhyun revelou que no prédio eles tinham um jardim que era cultivado pelas bruxas e que ocasionalmente ele visitava para ver os insetos que rastejavam entre as plantas.

Com um sorriso encantador ele garantiu que na próxima vez que Chanyeol aparecesse, eles visitariam o jardim.

Quando os pratos se tornaram vazios, o professor de música se sentiu empanturrado de comida como nunca havia se sentido em toda a vida. Baekhyun parecia igualmente cheio, cutucando a própria barriga. Toben havia se levantado da cadeira ao lado do anfitrião, e estava passeando pelo salão de festas, quando começou a latir para um dos bonecos na mesa das bruxas.

"Baekhyun!" uma das bruxas, aquela que tinha os olhos vermelhos que faiscavam como fogo, rosnou. "Tire essa criatura asquerosa daqui, ele está incomodando meus bonecos."

Parando de brincar com o próprio estômago, o homem com botões nos olhos preguiçosamente ergueu os olhos, encontrando a mesa das bruxas.

"Por favor, especifique qual criatura asquerosa você está se referindo."

Revirando os olhos vermelhos, a bruxa se levantou, empurrando para trás a cadeira em que estava sentada que se arrastou pelo chão. Ela balançou as mãos, gesticulando em direção a Baekhyun, mas foi parada há tempo pela outra bruxa que segurou seus dedos. Elas se encararam, parecendo se comunicar, enquanto Baekhyun as assistia com interesse, sorrindo de maneira cínica.

Uma discussão parecia prestes a estourar entre eles, deixando Chanyeol apavorado. Sendo um sonho ou não, o mais alto queria estar bem longe caso começasse algum conflito.

Felizmente, a bruxa de olhos roxos conseguiu conter a briga iminente, levantando-se da cadeira em que estava sentada com muito mais cuidado. Ela murmurou algo que Chanyeol não pôde escutar para Toben e o cão se afastou dos bonecos de madeira que pertenciam à bruxa de olhos vermelhos. O professor de música levou alguns segundos para se lembrar dos nomes delas — Park Sooyoung era a bruxa dona dos bonecos e Kang Seulgi era a bruxa que a acompanhava.

Também se levantando, Chanyeol escutou Baekhyun o chamando.

"Acho que ficamos aqui por tempo o suficiente, Chanyeol, você deve estar ansioso para voltar" ele falou.

Assentindo, Chanyeol estava prestes a balbuciar uma resposta quando foi interrompido pelos passos das bruxas.

Elas faziam muito barulho ao andar, o que chamou a atenção de Chanyeol, que as olhou no instante em que elas passaram por trás de Baekhyun. Acompanhando o estalo que seus pés faziam ao andar, havia um crepitar insistente como se alguém houvesse derrubado uma caixa de nozes sobre o chão, as castanhas caindo e provocando estalos.

Tentando ser discreto, Chanyeol olhou para os tornozelos das bruxas, pensando que a fonte do barulho poderia ser algum objeto preso na barra de seus vestidos. Contudo, ele não encontrou nada.

No lugar disso, sua curiosidade foi solucionada quando ele se deparou com a estranha visão de um número chocante de bonecos de madeira marchando em fila atrás da dupla. Bailarinas, músicos em miniaturas, pequenos elefantes e quebra-nozes vestidos em uniformes vermelhos as seguiam com suas minúsculas pernas de madeira.

"Nós estamos indo primeiro" Seulgi informou, enviando ao homem com olhos de botões um olhar cortante.

Ele não a respondeu e esperou até que fossem embora, assistindo-as com seus olhos desprovidos de emoção.

Apenas quando só haviam eles no salão de festas que Baekhyun voltou a sorrir.

"Bom, agora é a nossa vez" ele falou, suas palavras acompanhadas por um gesto simples com os dedos que pareceu comandar os insetos.

Em questão de poucos segundos as borboletas, centopeias, grilos, baratas e formigas que ainda rastejavam sobre a mesa, desapareceram, usando o pano que forrava a superfície para descer ao chão e sumir em meio à escuridão, onde as chamas acesas não conseguiam iluminar.

"Vamos?" Baekhyun falou outra vez, esperando-o.

Fazendo que sim, Chanyeol voltou a segui-lo. Juntos, eles fizeram o mesmo caminho que os levou até o salão de festas, passando pelo saguão perfumado e as escadarias envolvidas pelas flores que se moviam na parede. Toben os acompanhava, fazendo a retaguarda, olhando de um lado para o outro ao mesmo tempo que farejava algo no ar.

O cachorro fungou algumas vezes, até que o ruído incomodasse a Baekhyun, que olhou para trás quando eles chegaram ao corredor em que estava seu apartamento.

"O que foi?" ele questionou, unindo as sobrancelhas.

A resposta do cão foi balançar a cabeça, como se estivesse tentando dizer que não era nada, perfeitamente racional.

Dando de ombros, o mais baixo concordou, mas manteve a atenção sobre o cão por pura precaução.

Com um cartão idêntico ao que Chanyeol tinha recebido para abrir a porta de seu apartamento, em seu próprio mundo, ele assistiu Baekhyun desbloquear a porta. A melodia que soava não surpreendentemente também era a mesma, como se ele estivesse no lado inverso de um espelho que refletia com perfeição o cenário em que vivia.

"Você disse que me levaria para casa" Chanyeol lembrou, confuso. Ele estava em um apartamento igual ao que morava, mas ali não era uma casa. "Esta não é a minha casa."

"Seja um pouco mais paciente" o dono do apartamento o repreendeu, levando-os pelo corredor que Chanyeol conhecia bem.

Eles pararam em frente a uma porta que estava fechada, mas não era necessário para que o mais baixo abrisse a porta para que ele soubesse o que estaria logo atrás. O apartamento tinha poucos cômodos e Chanyeol os conhecia bem, se ele estivesse em seu próprio mundo, fora daquele sonho bizarro, aquela sala estaria cheia de malas prontas para serem desfeitas.

Mas, como aquele não era seu mundo, quando Baekhyun girou a maçaneta, o que surgiu foram móveis limpos, uma cama bem arrumada, além de uma janela meio aberta por onde a luz da lua atravessava, iluminando os lençóis brancos.

Com um floreio, o homem com botões nos olhos indicou a cama, Toben também passou por ele latindo ao subir no colchão.

Franzindo o cenho, Chanyeol os encarou.

Então o mais baixo fez um floreio em direção a cama novamente, apontando para os travesseiros e o lençol macio.

Mas Chanyeol ainda não tinha compreendido o que ele queria dizer e, por alguns segundos, eles ficaram em um impasse em que nenhum dos dois falava.

Foi Toben quem rasgou o silêncio, descendo da cama para se aproximar de Chanyeol e puxá-lo pelas barras da calça. Não era uma mordida forte, mas deixava óbvio o que o cão queria que ele fizesse.

"Vamos Chanyeol, eu pensei que você queria voltar para casa." As palavras de Baekhyun soaram em um nítido tom de provocação, chegando aos ouvidos de Chanyeol com a implicação de um sorriso em sua voz.

Sob suas pernas, ele assistiu o cão deixar de mordê-lo para empurrá-lo, esfregando a cabeça contra a panturrilha do professor de música para fazê-lo andar mais rápido.

Sob a atenção de dois pares de olhos de botões, Chanyeol alcançou a confortável cama, afundando ao deitar sobre o colchão. Inevitavelmente, ele não pôde controlar o suspiro satisfeito que escapou de seus pulmões no momento em que suas costas caíram sobre os travesseiros. Ele nunca tinha sentido uma cama tão confortável, nem lençóis tão macios.

Um bocejo saiu por seus lábios antes que ele pudesse se controlar.

Baekhyun, que havia se sentado na beirada da cama, riu.

"Você já está com sono." Ele observou. Pulando do chão para a cama outra vez, Toben subiu em seu colo. Sem desviar os olhos de plástico, o anfitrião acariciou o cachorro antes de voltar a falar: "Talvez seja melhor que você durma aqui esta noite."

Balançando a cabeça com urgência, Chanyeol negou. Já havia sido o bastante que ele tenha passado algumas horas preso naquele pesadelo, ele tinha tido o suficiente de botões, bruxas e quebra-nozes de madeira. Tudo o que ele queria agora era voltar para casa, terminar de arrumar as coisas que havia trazido com sua mudança e tomar cuidado para nunca mais dormir como imaginava estar fazendo naquele momento, em casa.

Ele deveria estar em um sono perturbadoramente profundo para ainda não ter acordado.

"Oh, eu quase ia me esquecendo!" Baekhyun exclamou de repente, puxando o mais alto de seus próprios devaneios. "Toben, traga aquilo para o nosso convidado, por favor" ele pediu.

Sem se atrever a se mover, Chanyeol assistiu o cachorro obedientemente descer até o chão mais uma vez e atravessar o quarto em direção a uma pequena cômoda de gavetas largas, ali, com uma de suas patas, o cãozinho abriu uma das gavetas e entrou, procurando por alguma coisa.

Ele retornou alguns segundos depois segurando um frasco entre os dentes.

"Bom garoto!" Baekhyun agradeceu, estendendo a mão para receber o frasco.

Bufando, Toben subiu para seu colo novamente.

Com o cão aninhado em si, o anfitrião ofereceu outro de seus brilhantes sorrisos para Chanyeol, entregando-o também o frasco.

"O que é isso?" ele quis saber, desconfiado.

O frasco era pequeno, menor que a caixa de metal que Baekhyun havia o presenteado antes. Ele era de um material transparente semelhante ao plástico e dentro dele estava armazenado algo de conteúdo pastoso, selado por uma tampa preta de aparência parecida com os botões que piscavam presos ao rosto de Baekhyun.

"É remédio para o corte em seu pé" o mais baixo o explicou, balançando a mão em que estava o frasco, insistindo para que Chanyeol o pegasse.

Erguendo as sobrancelhas, Chanyeol desceu o olhar até os próprios pés, surpreso por não ter lembrado de seu próprio machucado. Havia parado de doer e depois de todas as coisas que ele tinha visto quando chegou, esquecer foi uma simples questão de onde ele depositaria toda sua atenção e horror.

"Não está doendo" foi o que ele falou, sua voz cheia de surpresa.

Não estava doendo, mas deveria. Chanyeol se lembrava de como havia conseguido o corte, a maldita lâmina do quebra-nozes tinha perfurado sua pele. Deveria estar machucando, ele deveria estar perturbado agora, deixando pegadas cheias de sangue sobre o chão. Por que isso não tinha acontecido?

Concordando com seu convidado, Baekhyun assentiu.

"Não está doendo" ele repetiu. "Achamos que seria desconfortável para você estar aqui com uma ferida no pé, então anulamos a dor para você. Mas quando você retornar para seu mundo patético, a dor também estará de volta, por isso você precisa de um remédio para ajudar a aliviar." E balançando o frasco, ele ofereceu novamente: "Aceite, por favor."

Chanyeol não queria aceitar. Contudo, enquanto ponderava nas palavras de Baekhyun, ele pensou em todas as coisas que tinha aceitado dele. Ele tinha confiado nele para sair do túnel, passar pela pequena porta e entrar no apartamento. Quando ele o ofereceu para ir ao saguão, Chanyeol aceitou, e quando chegaram ao salão de festas, Chanyeol comeu tudo o que Baekhyun tinha oferecido, até os doces entregues pelas mariposas.

E agora ele estava confiando que o mais baixo poderia levá-lo para casa. Não havia garantia de que ele realmente faria o que tinha dito, mas não era como se Chanyeol tivesse outras alternativas. Ou ele se arriscava, ou permaneceria ali naquele mundo de botões costurados aos olhos e bruxas.

Então, com um suspiro resignado, ele estendeu a mão, recebendo o frasco com o remédio, o qual Baekhyun entregou com um sorriso empolgante.

"Use sobre o corte e você vai melhorar logo!" disse ele. "Você guardou o que eu te dei?"

Em resposta, Chanyeol assentiu hesitantemente, guardando o frasco de remédio no bolso em que estava a caixa de metal.

"Isso é bom." Baekhyun falou, batendo as mãos apenas porque não conseguia passar muito tempo em silêncio. Ele parecia sentir uma necessidade de preencher a quietude com palavras, tagarelando pelos dois.

Observando-o com cuidado, Chanyeol assistiu Baekhyun dar a volta na cama, rondando como um animal preguiçoso, assistindo sua presa, entretendo-se, até que ele parasse e se curvasse alcançando a ponta dos lençóis, puxando-o até que o tecido estivesse cobrindo desde suas pernas até seu peito. Ele o embalou da mesma forma que uma mãe faz com um filho, preparando-o para dormir.

Confuso, com um vinco entre as sobrancelhas, Chanyeol encarou o homem com olhos de botões até que ele se afastasse, parecendo satisfeito, tendo cobrido quase todo o corpo do professor de música.

"Agora é hora de dizermos adeus" ele disse, erguendo uma mão em direção ao teto, balançando-a até que de sua palma brotasse uma única e singela borboleta prateada.

Levando a borboleta que descansava entre seus dedos até a altura dos lábios, Baekhyun soprou suavemente, incentivando a borboleta a voar. Quando suas asas começaram a bater, espalhando pó prateado e ela voou, muitas outras borboletas surgiram brotando da mesma mão, igualmente sopradas, guiadas para que se espalhassem no quarto.

Elas pareciam pétalas de flores embebidas em prata, irradiavam como pequenos sóis, brilhantes o bastante para que fossem capazes de iluminar o quarto, ofuscando a luz da lua que passava pela única janela aberta.

Chanyeol não conseguia parar de olhar, impressionado pelo espetáculo de luz e cores, as pequenas explosões de estrelas voando ao redor dele, borboletas se organizando em um círculo, pairando sobre sua cabeça. Algumas delas começaram a pairar cada vez mais baixo, suas asas batendo mais rápido, até que elas formassem uma cúpula prateada ao seu redor, bloqueando a visão de um Baekhyun ou de seu cão com botões costurados aos olhos.

A última coisa que ele viu, antes que percebesse que o impressionante espetáculo era uma armadilha, foi um aceno trêmulo. Ele tentou abrir os lábios para gritar, mas quando o fez, sentiu os insetos invadirem sua boca, enchendo-o, mas não o engasgando, preenchendo-o com uma sensação fantasmagórica de vazio. As borboletas não eram reais, e quando elas tentaram entrar pelos seus lábios, orelhas e nariz, era como se luz estivesse o invadindo.

Tudo se tornou claro, até que a última borboleta pousasse em seu peito e Chanyeol sentisse o calor, a agitação provocada pelo bater de asas dentro de si, agitando-se até que provocasse uma explosão e ele estourasse como uma supernova em luz, calor e cores.

Após isso, houve uma letargia e quando ele conseguiu abrir os olhos novamente, não haviam mais borboletas, olhos de botões ou sorrisos enganosamente encantadores. No lugar disso, Chanyeol voltou a sentir a dor de um corte em seu pé e o calor de seu próprio apartamento.

Ele estava em casa e, surpreendentemente, estava inteiro.