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Finos e pequenos dedos, parcialmente velados pelo delicado tecido das compridas mangas da blusa, mexiam com inquietação no laço-gravata, ora puxando uma extremidade, ora rolando o tecido entre eles. Enquanto isso, sua outra mão agarrava a bainha da camisa branca, que aparentava ser larga demais para ele, com ânsia, como se buscasse uma âncora para atrelar seus trepidantes sentimentos. Se Miku estivesse por perto, Kaito não duvida que ele estaria atrelado a ela do mesmo jeito que uma criança assustada se atrela à saia de sua mãe quando se sente em perigo.
De minuto em minuto, os olhos de Len vagavam em sua direção, de relance, agitados demais para permanecer em um só lugar por um longo período de tempo
De um dos inúmeros detritos dispersos pela vastidão do mundo, onde ele estava sentado, Kaito encarava o menino. Nesta altura, ele tinha uma visão direta para a sua figura trêmula, onde mantinha seu olhar fixo. Ele não sabia explicar o porquê, mas ver Len assim trazia certo desconforto, como se houvesse uma mão imaginaria fazendo uma leve pressão sobre seu peito.
De qualquer maneira, sua testa se franziu, aprofundando suas linhas de expressão e tornando sua aparência mais severo do que já estava.
— O que você quer aqui? —
Curta e seca, a sua voz ressoou no vazio. Len largou a fita vermelha, agora amarrada de forma desproporcional, com uma das pontas do laço pendendo mais para a esquerda do que o normal. Seus grandes e arregalados olhos azuis não o olhavam, preferindo estudar o frio chão cinza escuro, como se ali ele fosse encontrar algum tipo de consolo para seus anseios. O ar ao redor deles era pesado, como se suas ríspidas palavras ainda pairassem por ali.
Num momento parecia que da boca entreaberta de Len iria sair algo, mas ele logo passava, deixando o silêncio reinar sobre eles, opressor e afligente.
— Se tem algo que quer dizer, ande logo e diga — ele advertiu, seu tom mais afiado que uma faca; embora não o suficiente para cortar a tensão que os envolvia.
Mas, no fundo do seu coração, por algum motivo, ele sabia não haver verdadeira animosidade pelo garoto, e que mesmo que seus braços cruzados, e seus dedos tamborilantes, apontassem ao contrário, ele estaria disposto a esperar o tempo que fosse preciso para que ele falasse, até se esse tempo nunca viesse. Afinal, ele podia ter escolhido ir embora quando ouviu os tímidos passos que ecoavam pelo intérmino mundo tácito vindo em seu encontro, ou quando Len se colocou no seu campo de visão, um pequeno ponto colorido na vastidão acromática. Mas ele não o fez, Kaito continuou ali, num estranho transe, como se hipnotizado por uma vacilante miragem.
O garoto respirou profundamente e o penoso som se alastrou pelos confins do mundo que eles se encontravam.
— …A-ah… E-eu… Eu… Acho que você… — ele disse, voz trêmula e semblante assustado, seus olhos esbugalhados e com as pupilas dilatadas fitando os seus semicerrados — Foi cruel demais… Com a Mafuyu-chan! — Len disparou as palavras contra Kaito, num singular e ínfimo momento de coragem. Suas mãos se comprimiram em pequenos punhos e suas pálpebras fecharam-se forçadamente, propelidas pelo misto de frustração e apreensão que ele provavelmente corria pelo seu ser.
Kaito arranhou uma risada, breve e grossa. Obviamente que esse seria o motivo de tamanha inquietação. O garoto, e o resto dos residentes deste mundo, não entendiam. Ele era o único que entendia, que enxergava a verdade, e era seu propósito fazer eles compreenderem como era inútil velar por uma flor que crescia entre rachaduras no concreto, porque, mesmo lutando, ela era destinada ao fim. Que palavras e gestos doces não levariam a lugar nenhum quando o mal vinha da raiz.
— Apenas coloquei a realidade em palavras. O que nenhum de vocês foi capaz de fazer até agora. —
— M-mas, mas… A Mafuyu-chan… ela não tem culpa… Então… — ele disse, hesitante e cabisbaixo.
A sua boca se pressionou em uma fina linha enquanto ele ouvia as lamentações do garoto. Len era delicado demais, frágil demais. Ele acreditava piamente que suas ações, ou a falta delas, trariam o brilho de volta aos olhos da dona desse mundo. Sua ingenuidade seria cômica, se não fosse trágica. Seria admirável, se não digna de pena.
— Ela pode não ter, mas vocês tem. Ignorar o verdadeiro problema não ajudará ninguém. —
Canções de ninar não curam corações estraçalhados, apenas os adormecem para que esqueçam a dor da realidade enraizada em suas veias. Enquanto o resto deles não se desse conta disso, nada mudaria e eles continuariam andando em círculos eternamente. Era preciso expor a ferida, mesmo que doesse.
— Mas… — Len começou, mas não finalizou, ainda com seu rosto voltado para o chão. Uma de suas mãos envolvia um de seus pulsos, apreensivamente a torcendo ao seu redor.
Ele solta um longo e fraco suspiro e se senta perto dele, no chão, puxando suas pernas para junto de seu torso e praticamente enterrando seu rosto em seus joelhos.
— Por favor… ajude a Mafuyu-chan… —
Kaito não precisa que ele lhe dissesse isso, porque era para isso que ele fora chamado a esse lugar, mas ouvir o seu pedido, ouvir a vulnerabilidade impregnada na sua voz, e a sua honestidade, fez seus nervos saltarem e seus músculos enrijecerem.
Os sentimentos de Len eram genuínos, disso Kaito tinha certeza. Ele podia não ver sentido no seu modo de agir, e, certamente, Len não entendia suas intenções, mas essa vontade de ajudar, isso ele compreendia. Na vastidão de diferenças entre eles, o desejo de ajudar era algo que os dois possuíam. No fim, mesmo que seus caminhos se divergissem, eles buscavam a mesma linha de chegada.
Talvez nem tudo estivesse perdido nesse mundo.
