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Conversa Franca

Summary:

Alastor conversa com sua mãe sobre a sua pós-vida no inferno.

Notes:

- Irei batizar a mãe do Alastor de Amélie, para facilitar a escrita já que não sei o nome dela. Como ela conseguiu descer do céu até o inferno e porquê? Eu não sei, não pensei nisso, mas não importa para a história de qualquer forma;

- Imagine que os dois estão na torre do rádio de Alastor ou no telhado do hotel ou em qualquer lugar privado onde eles possam conversar em particular. Não sei como colocar isso dentro do texto, me deem um desconto tá, é a minha primeira fanfic. E vai ter muitos diálogos, então desculpe se parecer confuso.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

“Você está decepcionada?”

Alastor encarava sua mãe enquanto lhe fazia a pergunta. O seu sorriso habitual não deixava o seu rosto, mas é como dizem, os olhos são a janela da alma e os dele diziam tudo. Alastor sempre foi o filhinho da mamãe, ele podia facilmente dizer que a amava e a respeitava mais do que a si mesmo. Então era de se esperar que ele estivesse preocupado que sua mãe o visse de forma diferente depois de descobrir onde sua alma foi parar.

“Bem...” Amélie começou um pouco receosa, procurando as palavras certas para dizer - “...nenhuma mãe que se preze quer que o filho vá para o inferno não é mesmo?” - Um pequeno riso saiu de seu nariz, tentando quebrar um pouco a tensão – “E de certa forma eu estaria mentido para mim mesma se eu dissesse que nunca vi nenhum sinal. Talvez eu esteja decepcionada comigo mesma. Se eu tivesse tentando um pouco mais, talvez você-“

“Não, de jeito nenhum” – Alastor a interrompeu, quase que bruscamente, totalmente indignado com as palavras de sua mãe – “Você foi uma mãe maravilhosa! Você deu tudo de si para me criar, com muito amor e sozinha ” - A última palavra deixou um gosto amargo quando saiu da boca de Alastor, se lembrando do momento em que seu pai os abandonou - “Você foi perfeita. Você É perfeita. Acredite em mim quando eu digo que eu não pertenço a outro lugar, eu viria para cá de um jeito ou de outro”.

Os olhos de Amélie se arregalaram, em choque com a honestidade de seu filho. Por um lado, ela estava em êxtase com os elogios, mas por outro, estava um tanto sentida por suas palavras finais. De qualquer forma ela engoliu todos esses sentimentos e com uma pequena tosse, abafada pelo seu punho, ela continuou - “O que eu estou tentando dizer é que isso não importa agora. O que está feito, está feito e não pode ser desfeito (eu acho). O importante é que você esteja bem e feliz! E olha para você!” – Amélie sorriu enquanto olhava para o seu filho de cima a baixo – “Você finalmente se tornou o homem que você sempre quis ser. Ou melhor. Que você sempre foi” – Um olhar cabisbaixo se seguiu com a próxima declaração – “Uma pena que você não pode desfrutar muito disso quando estava vivo. Eu podia ter feito mais para ajudar”

Alastor queria mais uma vez contrariar sua mãe, já estava cansado da autodepreciação dela. Mas ele se conteve, de certa forma ele concordava. Crescer como um homem trans dentro do armário naquela época foi difícil, mas uma ajuda de sua mãe teria sido ótimo para ele se libertar um pouco mais - “Sim eu teria gostado muito. Mas você terá que concordar comigo, eu amo a nossa época, foi a melhor (diga-se de passagem), mas não teria sido nada fácil para mim. Talvez tivesse sido melhor desse jeito”. Amélie deu a ele um olhar confuso, Alastor completou – “Aqui é praticamente uma terra sem lei, ninguém liga de verdade para seu gênero, sexualidade ou qualquer outra trivialidade do tipo, contanto que você tenha poder e imponha respeito”

Amélie concordou com a cabeça ainda parecendo um pouco aflita, Alastor continuou – “Apesar de tudo, eu amei o meu tempo enquanto eu era vivo. Eu tive muitos anos bons, mas acho que os melhores realmente foram no meu pós-vida”

“Sério?” - Amélie ficou bastante entusiasmada. – “Então me conta, o que você tem feito? Quero saber de tudo! – Ela deu ênfase em cada palavra.

“Bom...” – Alastor colocou a mão no queixo como se estivesse pensando em todas as coisas que fez nesses 90 anos – “... por onde eu começo?”

 

Amélie ouviu cada palavra de seu filho, encantada, por assim dizer, seus olhos concentrados no belo demônio cervo a sua frente. Alastor contou sobre sua chegada, sobre os poderes que recebeu e de como os usou. Ela ficou impressionada com o quanto ele havia conquistado em tão pouco tempo. Ele contou sobre suas batalhas, principalmente as com o seu rival, que ele recusou dizer o nome. Amélie tentou ao máximo não transparecer uma expressão nervosa ao ouvir seu filho declarar com fervor a sua paixão pela matança ou pelo seu novo interesse no canibalismo. Mas seu nervosismo logo a deixou assim que Alastor começou a falar sobre os seus amigos (ou pelo menos para ele são amigos). Seu filho falava deles com tanto esmero, desde de criança ele era uma pessoa autossuficiente, mas ele sempre valorizou muito as suas amizades, Amélie ficou feliz por isso não ter mudado.

Em certo momento do monólogo de Alastor seu tom de voz foi ficando um pouco baixo até ele soltar um longo suspiro – “Tem sido ótimo, ou, foi ótimo por um tempo”

“Como assim?” – Amélie estava agora apreensiva.

“Eu não sei quando nem porquê mas chegou um momento em que todas essas coisas que me fazem feliz, elas de repente se tornaram tão... sem graça” – Alastor nunca falou disso com ninguém, ele é orgulhoso demais para isso, mas a presença da sua mãe o deixava confortável para falar. Amélie ouvia atentamente, sem dizer nada. - “Eu acho que estou com tédio. Bom... pelo menos é o que eu digo que estou ou o que quero acreditar. Eu nem sei direito o que estou sentindo na verdade. É tão confuso, me sinto apático a maior parte do tempo. Então eu entrei numa busca insaciável por entretenimento, mas nada parecia me satisfazer. Até eu encontrar esse hotel”

“E você se sente melhor?”

“Sim. De fato, eu me sinto melhor. Mas não do jeito que eu esperava”. Amélie olhou para seu filho, curiosa. Alastor confessou – “Eu conheci uma pessoa”

“Hmmm e qual é o nome dela?” – Um pequeno sorriso malicioso se formou no rosto de Amélie, talvez pensando na jovem loira que a recebera quando entrou no hotel.

“É um rapaz” – Alastor estava quase suspirando em desgosto pela insinuação de sua mãe.

“Ah estou bem com isso também”

“Por favor mamãe” – Alastor revirou os olhos – “Você sabe muito bem que eu nunca tive esse tipo de interesse nas pessoas, sejam elas homens ou mulheres, e isso não mudou com a minha morte”

“Está bem, está bem, eu entendi” – Amélie riu, de qualquer forma essa conversa estava muito divertida – “Então me conta mais sobre esse rapaz”

Alastor relutou por um momento, mas então cedeu aos caprichos dela – “A princípio eu não gostei dele. Na verdade, eu o odiei. Ele é tão atrevido e vulgar. Você acredita que ele se ofereceu para chupar o meu pau no primeiro minuto em que nos conhecemos? – Alastor fez uma pequena pausa e pensou por um momento se Angel ficaria desapontado se descobrisse que ele não tinha um pau. É claro que Alastor podia facilmente mudar isso com magia, mas ele descobriu que certas partes do seu corpo não o incomodavam tanto quanto ele achava.

“Então você não teve uma boa primeira impressão dele?”

“Com certeza não. Eu queria distância máxima dele e mantive assim por um bom tempo”

“E o que mudou?”

“Eu comecei a observar ele, de longe a princípio. E vi que ele é uma pessoa de muitas camadas. Ele é muito inteligente na verdade, ele sabe usar as palavras com maestria, é impressionante. Ele tem tantas facetas, cada uma mais interessante do que a outra, a vulgaridade é só uma delas. Ele consegue ser uma pessoa muito sensível e entender o ambiente à sua volta. Sabe, mesmo tendo sido tão petulante no começo, ele não só compreendeu como respeita completamente minha aversão ao toque, ele entende de consentimento melhor do que ninguém. Ele não tem medo de sujar as mãos, ele é forte e é muito honesto. Honesto não só com os outros, mas consigo mesmo, ele sabe quem ele é e não tem nenhuma vergonha disso. É magnífico”

Alastor se perdeu completamente em suas palavras que nem notara o sorriso enorme que se formou no rosto da sua mãe.

“Então depois de um tempo eu percebi que não queria mais observá-lo de longe, queria conhecer ele de perto. Tentei me aproximar e fiquei surpreso por ele não ter recusado, mesmo eu tendo sido tão distante anteriormente. Essa é uma das coisas que me despertou um apreço por ele, ele nunca teve medo de mim em momento algum" – É claro que Alastor não culpava os outros demônios por se sentirem intimidados com sua presença, esse era um dos seus objetivos, mas nem sempre ele quer ser assustador. - “Em nossas conversas mais íntimas, geralmente em volta de bebidas, percebemos que temos muitas coisas em comum, apesar das muitas diferenças também. Ele é tão divertido, perto dele eu nunca me sinto entediado. Antes o que eu achava repugnante nele se tornou tão cativante e eu só quero saber ainda mais sobre ele”

O olhar de Alastor estava distante, os pensamentos longe e o seu sorriso muito mais genuíno. Quando ele não disse mais nada por alguns segundos Amélie se sentiu no direito de comentar – “Meu filho, se eu não te conhecesse, eu diria que está apaixonado”

“Oh eu com certeza não estou” – Alastor deu uma pequena risada e olhou para o lado – “Mas eu sinto alguma coisa sim, eu só queria saber o que é"

“Tenho certeza que você vai descobrir” – Amélie sorriu enquanto tocava levemente o ombro de seu filho.

“Obrigado mãe” – Amélie deu a Alastor um olhar questionador – “Por me ouvir. Acho que eu precisava disso”

“Não há de que meu filho. Você sempre pode contar comigo. Estou muito feliz por ter tido esse momento com você. Eu te amo” – Amélie deu um beijo na têmpora de Alastor, leve e rápido para não o deixar sensível demais.

“Também te amo mãe” – Alastor retribui o beijo na bochecha de Amélie.

Os dois ficaram lá, por um tempo, em silêncio, apenas aproveitando a presença um do outro.

 

“Bem, acho melhor a gente voltar, o pessoal já deve estar sentindo a minha falta” – Alastor disse depois de alguns minutos, com uma leve risada e gesticulando para a saída.

“Sim vamos! Eu estou doida para conhecer esse rapaz, o... – Amélie percebendo agora que Alastor em nenhum momento havia dito o nome dele.

“Angel Dust. E seja discreta mãe, por favor”

“É claro que vou, você me conhece” – O sorriso malicioso de Amélie voltou e ela soltou uma pequena risada.

Alastor revirou os olhos mais uma vez, isso estava começando a virar um hábito. Ambos voltaram para o saguão do hotel, onde todos aguardavam, se sentindo revigorados depois da conversa.

Notes:

Amélie não foi nem um pouco discreta ao falar com Angel, o que deixou a aranha muito confusa e o Alastor corando de vergonha.