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Soobin estava nervoso naquela manhã, mas seus pés continuaram se movendo pelo corredor com a falsa confiança que aprendeu a ter com o tempo.
Era seu primeiro dia na escola nova, então ele havia se arrumado com cuidado para não parecer desajeitado logo de cara. Seu cabelo estava penteado perfeitamente, seu uniforme estava impecável e também fez questão de usar um bom perfume, escovar os dentes duas vezes e conferir se tudo que precisava estava na mochila.
Apesar de toda essa preocupação, Soobin nem era desajeitado como pensava ser. Ele só achava que seu corpo era grande demais e, por isso, sentia que não passava de um boneco de posto tentando caminhar entre as pessoas.
Infelizmente, viver em sociedade conseguia ser muito desconfortável quando se tinha a cabeça como a de Soobin, cheia de pensamentos ruins. Era como se estivesse sempre no lugar errado, principalmente agora que havia voltado para sua cidade natal depois de tantos anos e estava cercado de rostos estranhos. E como se não fosse o suficiente, ainda se sentia sufocado pelas palavras de sua avó. Elas rodeavam sua cabeça o tempo inteiro, ditando o que era certo e o que era errado de acordo com a bíblia, ao ponto de ter uma lista imensa de tudo que deveria ou não fazer, como deveria se portar e até mesmo sobre o que deveria falar. A religião estava em cada canto de sua vida, mas estaria mentindo se dissesse que gostava de qualquer coisa relacionada à igreja.
Porém, não tinha forças o suficiente para ir contra a avó, em especial depois de tudo que ela havia feito por si a vida inteira.
Por conta da morte de sua mãe, Soobin foi criado por Choi Yoonha, uma senhora carinhosa, mas com a mente muito fechada. Ele gostaria de se lembrar mais da mulher que havia lhe concebido vida, mas uma doença autoimune a levou embora antes que pudesse ter qualquer lembrança coerente dela. E pelo que sabia, seu pai só tinha servido para colocá-lo no mundo, sendo o tão conhecido caso de uma noite só. Então sua avó tomou o papel de mãe e o criou com todo conservadorismo religioso que ela conhecia.
Mas Soobin entendia, afinal, a maioria dos idosos eram assim.
Ele apenas a obedecia e tentava retribuir tudo que tinha recebido durante toda a sua vida, ainda que já estivesse cansado de ser podado por um livro sagrado. Inclusive, era por conta de sua avó que estava ali agora, em uma escola nova e lutando contra sua vontade de sair correndo.
A senhora havia decidido que queria voltar para Ansan, aquela cidadezinha, depois de perceber que estava mais para lá do que para cá. Ela tinha o desejo de passar seus últimos anos de vida no lugar onde havia crescido, como se essa mudança fosse o seu último pedido de paz. Em contrapartida, Soobin não queria ter saído de Seul. Ele tinha amigos e uma vida confortável lá, mas como diria não a sua avó? De fato, só lhe restava aceitar sua velha nova vida sem reclamar muito.
Essa escola é infinita?, pensou, voltando à realidade e sentindo que estava caminhando há mais tempo do que deveria para chegar à coordenação. Ele olhou ao redor, tentando não se importar com o sufoco em sua garganta enquanto invejava os alunos conversando animadamente e se reencontrando depois das férias. Deveria ser eu, resmungou baixinho. E mesmo sendo óbvio, não tinha como deixar de notar o quão aquele ambiente era diferente do que estava acostumado. Os corredores tinham a cor cinza, e não mais branca. As janelas eram mais retangulares, o piso era de madeira e estava sendo difícil entender a numeração na porta de cada sala.
A saudade mal havia chegado e já estava sendo cruel.
Porém, antes que pudesse aprofundar seu sofrimento, suas costas foram tocadas de leve e ele virou para trás.
— Ei, tá perdido? — Era um garoto.
Quando Soobin olhou para ele, a primeira coisa que reparou foi o cabelo curto e bagunçado. Logo depois, notou os vários brincos nas orelhas e o uniforme meio amassado, como se tivesse dormido com ele. Ele é tão bonito, constatou sem perceber e sentiu seu coração apertar de um jeito bizarro. Os dois se encararam em silêncio por alguns segundos, porque Soobin quase não soube o que responder, porém sua vergonha falou mais alto que o seu peito sendo esmagado por aquela sensação repentina.
— Tô, é me-meu primeiro dia — disse, pateticamente atropelando as palavras.
— Percebi. — Ele riu, olhando de baixo para cima. — Como é o seu nome? Você tá bem?
— Ah, meu nome é Choi Soobin — respondeu, tentando parecer um pouco mais normal. — Eu tô um pouco nervoso, mas vai passar.
— Entendi. — Ele concordou, parecendo convencido. — Meu nome é Choi Yeonjun, temos sobrenomes iguais.
— Oh, é verdade. Prazer, Yeonjun — engoliu em seco. Havia algo de errado com seu corpo, mas Soobin sabia que não era por se achar grande e desajeitado demais. Ele nunca havia sentido seu coração acelerar daquele jeito e tinha certeza que suas mãos estavam começando a suar também.
— O prazer é meu! Já pensou em fazer parte do clube de fotografia? — Yeonjun perguntou em seguida, como se não quisesse nada.
— Eu ainda nem sei em que turma eu tô. — Soobin tentou rir de forma descontraída.
— Sério? Se eu te levar na coordenação, você pensa sobre o clube?
— Claro — assentiu, se sentindo engolido pela energia indescritível que Yeonjun emanava.
— Fechado. Vem comigo, a gente tá perto.
Assim, Soobin foi atrás dele até a sala da coordenação. Sua intenção era ser simpático, mas sentia que se passasse mais um segundo olhando para aquele garoto, seu coração iria explodir de verdade.
Pelo menos o caminho foi realmente curto. Soobin tentou entrar de vez na sala, mas Yeonjun impediu sua passagem se colocando na frente da porta.
— Não esquece do clube, ok? Nós estamos precisando de gente nova — sorriu, e a pressão de Soobin quase caiu.
— Tu-tudo bem — gaguejou pela segunda vez, fazendo Yeonjun rir.
— Nos vemos por aí, Soobin! — Ele acenou e finalmente foi embora, andando despreocupadamente no meio de todos aqueles alunos agitados pelo primeiro dia de aula.
Soobin preferiu apenas abrir a maçaneta da coordenação com as mãos trêmulas, entrando lá com certa pressa. Ele fechou a porta atrás de si e apoiou as costas nela, tocando no próprio peito para confirmar se ainda estava vivo.
— Bom dia? — A voz do coordenador soou preocupada. — Está tudo bem?
O homem se levantou da cadeira dele com o semblante sério, mas Soobin ainda estava tentando recuperar a respiração.
— É uma crise de pânico? — voltou a perguntar, e a única reação de Soobin foi concordar com a cabeça rapidamente. Ele não sabia o que estava sentindo, mas estava mais perto de pânico do que de qualquer outra coisa que conhecia.
— Venha, sente aqui. Vou chamar a enfermeira e a psicóloga — ofereceu com cautela.
Dessa forma, Soobin foi até o sofá confortável, pensando que aqueles eram apenas os primeiros minutos em sua nova escola. Mal podia esperar pelo que ainda estava por vir.
[...]
Soobin ficou aliviado por não ter sido julgado pela sua crise estranha. A enfermeira mediu sua pressão e fez perguntas para confirmar se sua saúde estava estabilizada, e depois também teve uma breve conversa com a psicóloga para falar sobre sua ansiedade social. Mesmo que tivesse certeza de que não havia sido essa a causa da sensação de infarto, ele fingiu que sim, esperando poder acreditar na própria mentira.
E só depois de uma hora foi liberado, o que significava que já tinha perdido parte do primeiro horário, mas o coordenador garantiu que não seria prejudicado por isso e o acompanhou até a sala.
Soobin odiou ter interrompido a aula só para se apresentar para seus novos colegas de classe, porém, como já tinha se preparado mentalmente para isso, não foi tão ruim assim. Além disso, não ver Yeonjun naquela turma o deixou mais tranquilo, então apenas se sentou em uma das últimas carteiras e começou a prestar atenção no professor de história.
Mas sua mente ainda estava tão atordoada que logo as palavras sobre a Segunda Revolução Industrial viraram divagações sobre o terceiro ano e seu futuro incerto. Ele não estava assustado ou com tanto medo, mas também não podia dizer que estava animado. Sua vontade era de se formar em algo que lhe desse estabilidade, mas ainda não sabia muito bem o quê. Era péssimo ter que escolher tão cedo o que faria na faculdade, e ainda tinha a pressão de sua avó que mais parecia o peso do mundo em suas costas.
Já estava cansado e o ano letivo nem havia começado direito.
Pelo menos o resto das aulas foram tranquilas. Sua turma era calma, e Soobin estava sentado ao lado de um garoto meio esquisito que estava escondendo os fones de ouvido com o cabelo grande. Soobin achou legal ter alguém assim em sua turma. Em sua concepção, precisava ter coragem para fazer algo assim; uma coragem que nunca teria, por mais idiota que fosse.
E enquanto observava seus colegas de classe, sentiu, mais uma vez, a melancolia que só a saudade poderia causar. Ele queria fazer amizades ali também, mas não sabia se conseguiria. Era horrível se sentir deslocado, mesmo que tudo isso fosse só o drama do primeiro dia de aula em uma escola nova.
Mas como poderia não pensar dessa forma quando não conhecia ninguém ali? Assim que o intervalo chegou, Soobin travou no lugar enquanto os outros alunos se levantavam famintos, já que não sabia onde ficava o refeitório e, muito menos, tinha ideia de onde iria sentar para comer. Ele só saiu da sala quando viu todas as carteiras vazias, e se deixou levar pela movimentação até descobrir onde era o refeitório, que já estava cheio.
Sua respiração ficou pesada, mas tentou não pensar muito e apenas foi para a grande fila de espera.
Repentinamente, Yeonjun, o mesmo garoto de mais cedo, entrou no refeitório como um furacão, quase derrubando as bandejas das pessoas ao redor. Ainda assim, ele não se abalou antes de subir em cima de uma das mesas centrais, segurando um alto-falante em mãos.
— Boa tarde, gente! — Yeonjun gritou, ofegante, e Soobin sentiu o coração acelerando novamente. — Eu vim aqui divulgar o clube de fotografia. Nós estamos implorando por novos membros! Não precisa ter experiência, lá a gente dá apoio, mas o patrocínio tá perto de acabar pela falta de pessoas. Se vocês se interessarem, é só falar comigo ou com a-
— Choi Yeonjun, saia de cima da mesa! — Outra voz soou alta. Soobin olhou para porta e viu que era o inspetor.
Seu coração ainda estava a mil, mas dessa vez não estava sentindo que iria morrer, então continuou assistindo à cena com um sorriso divertido. Pelo visto, Yeonjun tinha roubado o alto-falante do inspetor e estava prestes a ganhar a primeira advertência do ano. Ninguém parecia surpreso, no entanto, o que fez Soobin gostar daquela rebeldia.
E tudo isso o fez ponderar se infartaria caso entrasse no clube de fotografia. Podia ser exagero, mas só de olhar para Yeonjun, sentia que perdia boa parte do controle sobre seu corpo.
Bom, só podia esperar que ficasse tudo bem, porque estava decidido a se inscrever assim que suas aulas terminassem.
[...]
Dito e feito, Soobin foi até a sala aberta para a inscrição dos clubes assim que foi liberado.
Ela estava lotada, e isso o surpreendeu. Na sua antiga escola, ninguém ligava muito para os clubes já que havia outras atividades extracurriculares fora do colégio, porém ali parecia ser algo importante.
— Soobin! Aqui!
Ele ouviu a voz de Yeonjun ainda na entrada, não demorando para encontrá-lo atrás de uma mesa com mais duas meninas que também estavam acenando. Soobin respirou fundo, sentindo o rosto esquentar por ele ter se lembrado do seu nome. Mais sensações estranhas, pensou enquanto caminhava naquela direção.
— Oi, eu vim me inscrever — disse, prestando atenção em como seu corpo reagiria. Por sorte, não sentia mais sua caixa torácica sendo comprimida, apesar do seu coração continuar acelerado.
— Eu sabia que podia contar com você! — Yeonjun respondeu, sorrindo. Ele era muito bonito, e Soobin ainda não entendia por que não parava de pensar sobre isso.
— Você é tão cara de pau, Yeonjun. — Uma das meninas ao lado dele disse.
— Sou mesmo, e por isso Soobin veio pra cá — riu, se gabando. — Aqui, pode assinar seu nome e sua matrícula nesse papel, e nesse outro você põe o seu número.
— Ok. — Soobin concordou e pegou a caneta para responder os espaços indicados. — Eu achei legal como você subiu na mesa do refeitório hoje, eu não teria coragem de fazer isso.
— Sério? Eu quase apanhei delas por causa disso — confessou, apontando para as amigas. — O inspetor ficou puto, mas deixou passar por ser o primeiro dia.
— Já é a décima vez que você coloca nosso clube em perigo. — A mesma menina de antes reclamou. — Aliás, meu nome é Chaeryeong, e essa é a Ryujin.
Ryujin apenas acenou rapidamente com a mão, e Soobin retribuiu.
— Prazer. — Soobin respondeu cordialmente, entregando o papel preenchido. — Sei bem pouco sobre fotografia, então espero aprender com vocês.
— Pode deixar, o clube é pra isso mesmo. —Yeonjun sorriu, pegando a folha e estendendo a mão livre em seguida. — Seja bem-vindo!
Soobin sentiu falta de ar por saber que o tocaria assim. Era besteira, apenas um aperto de mão qualquer, mas suas reações estavam estranhas desde que havia pisado naquela escola, então só ignorou e retribuiu o contato.
E uma corrente elétrica passou por todo seu corpo ao sentir a maciez da pele dele. Soobin olhou bem para o aperto, notando desde as unhas bem feitas até a diferença de tamanho entre suas mãos. Yeonjun era bem pouco mais baixo, então as mãos dele eram menores também e se encaixavam perfeitamente nas suas. Nesse instante, não quis soltá-lo de jeito nenhum. Era confortável, por mais simples que fosse, porém foi mais rápido do que gostaria.
— Obrigado. — Soobin agradeceu, tentando colocar a cabeça no lugar. — Quando vai começar?
— Na próxima semana, mas logo vamos entrar em contato com você.
— Então vou esperar — sorriu, mas logo lembrou que precisava voltar para casa. — Ah, eu tenho que ir agora.
— Tudo bem! Até mais, Soobin, você não vai se arrepender.
— Tenho certeza que não. — Se curvou minimamente, sentindo o rosto arder.
E quando virou de costas, se permitiu soltar todo ar que nem percebeu que estava prendendo. Yeonjun tinha mexido com suas emoções de um jeito muito esquisito, e Soobin não queria admitir, mas estava com medo do que isso poderia significar.
[...]
Soobin tinha certeza de que sua mão iria cair.
Ainda no caminho de volta para casa, sua mão começou a formigar como se estivesse prestes a ficar dormente. Ele ignorou momentaneamente, já acostumado com isso por conta da ansiedade, porém, depois de mais alguns minutos, a sensação escalou para uma queimação, como se estivesse tocando em uma superfície que ficava cada vez mais quente à medida que andava.
Em algum ponto, a dor ficou tão insuportável que Soobin precisou correr para chegar logo em casa. Ele morava perto da escola, porém as pequenas ruas se tornaram infinitas e ele realmente cogitou que fosse morrer pelo caminho, mas, de alguma forma, conseguiu chegar em casa. Ele rezou para que sua avó tivesse deixado a porta aberta como acontecia com uma frequência perigosa, e, para a sua única sorte naquele momento, ela realmente estava.
Soobin correu para o quarto antes que sua presença fosse notada, e se ajoelhou no chão assim que entrou. A queimação estava latente, e se tornava ainda pior quando olhava para a mão e não via qualquer diferença nela. A mesma mão que apertou a de Yeonjun. Perceber isso foi um choque, mas não conseguiu raciocinar direito enquanto apertava o pulso, tendo a vista embaçada pelo choro compulsivo que nem tinha visto chegar.
A dor era tanta que nem força para gritar tinha, e tudo que saía da sua boca eram sussurros angustiantes. Em algum ponto, seu corpo caiu no chão por não aguentar mais sustentá-lo. Ele estava desesperado, principalmente porque sua mão continuava normal. Não tinha nada além da sensação horrível de que estava em chamas.
Mas o que iria fazer? O que podia fazer? Que porra estava acontecendo com seu corpo?
Eram tantas perguntas que não fazia ideia do que isso poderia ser, e só lhe restou chorar enquanto se contorcia no chão. Doía tanto que, por um instante, pensou que estava pagando por algum pecado, assim como sua avó falava que os hereges queimavam no fogo do inferno.
Era isso que estava recebendo por não gostar da religião dela?
Sem dúvidas, estava delirando.
E todos os seus delírios o fizeram perder a consciência. Ele mal teve tempo de perceber em qual momento sua visão ficou escura, mas seu corpo agradeceu por isso. O desmaio cessou o sofrimento, mas, ainda inconsciente, Soobin temeu que tudo isso fosse muito mais profundo do que poderia sequer imaginar.
