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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-04-01
Updated:
2025-04-01
Words:
2,007
Chapters:
1/?
Hits:
30

A garota nova e o quaterback.

Chapter 1: Cap. 1: Derrotas consecutivas.

Chapter Text

O carro estava parado a tempo o suficiente para eu começar a me culpar do porque não tinha me mexido ainda. Mas é que eu não podia, não podia porque seria hoje primeiro dia sendo quem eu sou, sem armaduras, máscaras ou que quer que fosse que eu usava para não me machucar. Sempre fui muito sensível em relação à opinião dos outros sobre mim. E hoje, seria o dia de fazer o que mais temia, me expor, toda minha vulnerabilidade para o mundo, e fingir o máximo que conseguisse que suas desaprovações não me afetam. Pela primeira vez desde de que me entendi por inteira, e desde de comecei a fazer uso dos hormônios. Eu iria não só finalmente passar a existir de verdade para mim mesma, como estarei dizendo bem vindo para todas as desgraças futuras que me atingirão. Como se existir fosse um crime.

Exasperei, soltando todo o ar dos meus pulmões de uma só vez. Apenas testando se ainda consigo manter a calma. Não consigo. Meu coração está a milhão, minhas mãos estão suando frio e estou começando a ficar tonta, minha pressão deve ter caído com toda essa ansiedade, porém ainda não sinto o habitual aperto no peito que sempre sentia. Ainda devo estar sobre o controle de mim mesma, conclui, ótimo, agora é a hora certa para dar meia volta e fingir que não tentei por tudo na minha vida por água abaixo.

— Vai ficar parada aí quanto tempo, eu tenho outras corridas pra fazer. — Alertou, o impaciente e suado senhor que dirigia o uber no qual eu estava. Ele está certo afinal de contas, não devia o estar atrapalhando quando todos esses problemas são somente meus. E com isso como motivação, saltei para fora sem nem estar atenta nos meus pertences que ainda estavam no banco de trás, e da mesma forma com que saltei, o motorista mal humorado foi se num piscar de olhos, desaparecendo da minha vista.

Merda.

Já não bastava tudo e ainda me acontece isso?! Deve ser carma, ou punição divina, um claro sinal de que não devia nem mesmo ter levantado de manhã.
Derrotada, olhei ao redor. Alguns olhavam pra mim, aqueles olhos de quem está com informações conflitantes ao me ver, seus olhos vagam para meu rosto, meu gogó um pouco mais acentuado, meus peitos, para minha mãos e braços maiores do com certeza esperariam, minha pernas desnudas pelo macacão curto que decide usar, sobem seus olhares para meus peitos novamente, e finalmente, a droga da minha virilha. Tentando decifrar o que tinha ali. Bando de fuxiqueros, mal dei um passo e já querem me botar numa caixinha onde só tem esquisitos como eu, e que eles não vão nem chegar perto pra tentar entender.

E com minha terceira derrota nas primeiras horas do dia, me declaro incapaz de sustentar seus olhares sobre mim, e vou andando o mais rápido que consegui pra dentro da escola nova e do meu armário. Sim, minha mãe achou que seria uma boa ideia nos mudarmos já que ela havia sido transferida no trabalho dela. E claro que seria numa escola com dormitórios, onde provavelmente eu seria colocada junto com os meninos. Brilhante ideia mãe!!!

Parei na frente do armário 137, um que parecia meio acabado e repleto de restos de adesivos dos alunos dos anos anteriores. Toco o cadeado e finalmente percebo que dentre meus pertences deixados pra trás no uber, estavam meus livros do primeiros semestre, a senha do maldito cadeado, e a bendita chave da porcaria do meu quarto compartilhado. Quarta derrota. Tenho que parar de contar, isso ainda vai voltar para me atormentar mais tarde.

Tento lembrar onde ficava a sala do diretor, grunhi frustrada ao não me vir nada à mente. Alguém ouviu, sinto uma movimentação pelo canto dos meus olhos, não dá para ver direito, porém sei que é alto, o suficiente para eu precisar levantar meu rosto para encará-lo.

— Pois não?! — educado e alto, tem como ser mais? E pela voz que me fez arrepiar desde as pontas dos pés até minha nuca, ele exala confiança. Segurança eu diria, a de quem sabe que nunca será contestado, pois nunca fui, ele deve ser uma dos reis dessa escola com certeza, um dos que farão bullying comigo mais cedo ou mais tarde. Finjo não notá-lo, me esconder é a melhor opção.

Ele ainda está aqui, me olhando, enquanto eu, feito sonsa estou passeando os dedos pelo cadeado como se ele fosse mágicamente abrir. Odiava depender da ajuda dos outros.

— Você está com dificuldade para abrir também? — ouço risos meio contidos. Lindos, inclusive. — A chave que me deram não está funcionando então eu já estava indo pedir uma nova, se quiser pode ir comigo, te mostro o lugar todo se tiver tempo.

Não estou acreditando, ele não deve ter percebido pois não estou de frente pra ele. Só pode ser isso.

— Ehh… — droga, não devo falar, se não ele vai perceber, é melhor que eu só acene. Preciso de um guia e o sinal para o começo das aulas está quase tocando.
Balanço minha cabeça em afirmação e felizmente ele parece contente com isso, pois já foi colocando sua mão na parte baixa das minhas costas, me guiando com si. Ponho rapidamente meu cabelo sobre o lado esquerdo do meu rosto em que ele está posicionado, ocultando o máximo que conseguia da minha figura. Não deixo de notar seu toque, tão sutil que mal sinto, mas está ali, quente, discreto, um acalento que a tempos não sentia. Como é possível sentir tanto quando ele não fez quase nada. Ele continuou falando sobre como estava ansioso para começar suas aulas de engenharia eletrônica, e disse mais ainda sobre sua espera pela oportunidade dos sonhos de finalmente sair do banco durante as partidas de futebol, aparentemente a treinadora do time era uma amiga de longa data de sua família.

Quando estávamos no corredor que dava acesso a sala da diretoria, a qual ficava no terceiro e último andar do bloco A. Senti uma respiração no topo da minha cabeça e notei o quanto ele estava perto, me sobressaltei, deixando um pequeno soluço escapar. Não pude segurar a vontade de ver seu rosto, se sua voz já era tão viciante que me fazia arrepiar em cada vibração mais profunda que dava casualmente como quando parava para pensar sobre o que dizia e enquanto isso fazia um tamborilar costumeiro de como estivesse se divertindo, ou quando em seguida ele reafirma o que foi dito, com um tom firme e postura inflexível, uma nova lei do universo. E de sua risada que me arruinava, que retumbava em meu peito e o aquecia em todas as vezes em que reparava na minha falta de atenção sobre seu último jogo. O que me fazia ficar tão bobamente embaraçada e sentir uma vergonha urgente me fazendo apertar o passo e poder fugir para meu novo quarto, o quanto antes.

O motivo da minha fuga não parece ter problemas para me acompanhar, visto que ainda sinto o pesar de suas pisadas logo atrás de mim.

Sim, já estava ciente da minha quinta derrota, o senhor certinho e de óculos quadrados seria minha nova obsessão inalcançável da vez. E sim, já o estava encarando a segundos o suficiente para perceber que havia segurado minha respiração além do que conseguia continuar, me fazendo voltar a realidade, infelizmente. Suas feições eram tão perfeitas que dava raiva, raiva de mim mesma por serem tantas as coisas que passaram em minha mente que nem sequer pude tentar contê-las. Todas obscenas, é claro. Deus, como pode uma barba por fazer em cima de um maldito queixo marcado ser tão beijável, queria mordelo ali mesmo. Tudo combina tão bem com seu casaco do time e seu óculos estupidamente simples, mas que o realçava de um jeito meio desajeitado e sua sutil timidez demonstrada nesses poucos minutos de seu monólogo em que pude ouvi-lo satisfatoriamente, combina tanto com ele.

— Deixe que eu abro, — soprou para só eu escutar, quando já estávamos na porta do diretor. — Ela é meio pesada e você ainda precisa levantá-la enquanto a abre.

— Obrigada.

Dei dois passos até perceber que havia respondido, e mais um para visualizar a amplitude do que ocorreria a seguir. O diretor, que errou meu pronome várias vezes enquanto conversamos por telefone sobre minha matrícula. Iria se dirigir a mim assim na frente de um outro aluno. Não é possível que meus planos de tentar passar despercebida durante minha infeliz estadia aqui já foram arruinados. Esta sexta derrota deve pelo menos valer pelo resto da semana inteira.

— Sra. Aurora, Ótimo! Eu estava mesmo querendo lhe ver, já ia pedir para alguém buscá-la, mas vejo que alguém já o fez, sentisse por favor. — Sinalizou para uma das cadeiras vazias à frente de sua mesa.

Estou salva até o momento, e sinceramente, surpresa, não esperava esse avanço de consideração em tão pouco tempo. Talvez dê tudo certo. Inclusive, devo ter julgado errado o Sr. Wallace, afinal, ele é só um senhor de meia idade lidando com algo que não era comum em sua geração.

— Oliver, meu filho, não fique aí em pé, acomodasse ao lado do seu- de sua colega. — corrigiu-se em uma ríspida tosse mal fingida.

Bomba! Culpa minha esperar tanto dele assim tão cedo, agora é só torcer para que esse tal Oliver seja tão tapado como geralmente os integrantes do time de futebol são.

— Sim senhor, já ia fazer isso. — Ao sentar-se ele logo se inclina em minha direção, aproveitando a distração do diretor com o que parecem ser vários papéis com nossas informações pessoais e histórico em mãos.

— Ei! Quem é você pro senhor certinho se confundir com um erro tão bobo desse jeito, tô tentando a cinco minutos conseguir alguma informações sobre você, mas só o que sei até agora é que você deve ser bem introvertida pra só ter olhado pra mim uma única vez enquanto vínhamos pra cá.

Um pigarro alto é ouvido por nós, e quando olhamos para frente vimos a ameaça nos olhos do Sr. Wallace, ele com certeza não é um homem de alerta duas vezes, então nos endireitamos. passam-se alguns segundos antes de se dirigir a nós, deve ter levado essa tempo para decidir se merecemos sua paciência uma não.

— Muito bem. Primeiro gostaria de desejar aos dois aqui um ótimo e frutífero ano letivo, alguns desafios podem ser novos para lidarmos, mas nada do que possamos ultrapassar com a cooperação de todos.

Já ouvi essa discurso tantas vezes, ele finge compreensão e companheirismo em futuras adversidades que serão enfrentadas por pessoas como eu – minorias – mas que no momento em que algo de fato acontece, somos inquiridos sobre nossa falta de não-ação, “mas então por que você deixou que chegasse a este ponto?”, ou “por que não nos contatou para que resolvêssemos sem todo esse alarde desnecessário?”. Pra começar, que merda de “não-ação” deveria significar? Eu por acaso não fui responsiva o bastante para resolver o que quer que tenha ocorrido por conta própria e não incômoda-los, sobre o que aparentemente, cabe somente a mim? ou não fui agredida o suficiente para ser considerada sequer uma vítima?

— Então, com tudo dito, devo considerar que estão de acordo com a decisão que tomamos devido às suas condições peculiares.

“Perai, o que?”

— Esperamos que já estejam alojados nesta tarde —, Calma, eu preciso raciocinar! — Aqui estão as chaves do quarto de vocês e é claro, a nova senha do seu armário Sra. Vicente, creio que devem ter lhe informado da senha antiga por engano.

Deve ter me perguntado algo enquanto eu estava divagando, e pior, eu devo ter concordado.

— Aurora não é? Obrigado por aceitar sermos colegas de quarto, não ia saber o que fazer caso perdesse essa oportunidade. Prometo ser um ótimo colega de quarto —, Deus, esse sorriso dele. — Não vai nem perceber que estou lá. Juro por tudo.

— Ah, sim, claro, sem problemas, eu que agradeço.
Eu devo ser uma idiota.

Seria esta a sétima derrota, ou enfim tenho a primeira vitória do dia?