Chapter Text
Foram apenas flashes constantes para ela. Honestamente, não tinha muito o que fazer depois que ela já tinha entrado no carro. Melissa se lembrava de poucas coisas desde o momento em que acordou ali, algo sobre tentar alcançar a tranca do carro no último instante antes que a porta se abrisse sozinha e ela fosse puxada para fora.
Desde então, sua última memória só lhe pertencia por todos os ralados ainda quentes nas suas juntas, acompanhados de uma dor constante na sua cabeça por ter sido puxada pelos cabelos. Claro, nada disso era pior do que o gancho de açougue rompendo seus músculos e carne naquele instante, mas seu corpo tinha aprendido a ignorar a dor.
No primeiro dia, ela tentou contar o tempo. Concentrou provavelmente toda a sua força mental para manter a noção dos segundos, mas começou a se perder depois da terceira hora. No segundo dia, ela tinha alucinações frequentes, a visão embaçada de sua mãe passando como um vulto na sua frente.
E então veio o terceiro, o quarto e, finalmente, o quinto.
Seus lábios estavam secos de tanto salivar sobre o pano calando sua voz, o ar já não entrava mais seus pulmões como antes e seus olhos ardiam de tanto chorar. Ela podia sentir seu sangue seco tentando curar a grande abertura no seu ombro direito e o suor do seu corpo se tornando uma segunda camada sobre a pele, mas seus ouvidos só conseguiam captar o vazio ao seu redor.
E então, um rangido.
Rrrééc… Um passo pesado, seguido de um som abafado e o chão embaixo dela se mexendo como se fosse partir ao meio. Ela ouviu chorar, provavelmente o décimo quinto de Jorge desde que Breno havia sido levado para Deus sabe onde, por sabe-se lá quanto tempo. A porta do sótão — que, de tanto tempo fechada, levantou poeira — abriu com um outro rangido fúnebre e a luz quase a cegou de tanto tempo que passou no escuro.
A primeira coisa que viu foi a cabeça de um homem conhecido, a segunda foi a jarra de vidro com líquido translúcido balançando no seu interior. Seus sentidos pareciam voltar imediatamente para a água, incapaz de pensar em outra coisa que não fosse o enorme corte seco no interior da sua boca implorando por alguma coisa. Ela o olhou com desespero, olhos tão azuis e opacos que pareciam jóias brutas.
Aguiar deixou a jarra sobre um dos barris empoeirados, olhando para o andar de baixo com desdém.
— Que merda, eu odeio essa parte do trabalho. Se não fossem tão fracos seria muito mais fácil. — Ele disse, bufando. Parecia limpo, bem cuidado, portava roupas mais casuais e o cabelo molhado como alguém que acabou de sair do banho.
O que obviamente só acendeu uma raiva genuína na loira.
— Se recusarem é só usar a seringa, não é muito diferente do gado de qualquer maneira. — Uma voz disse da escada, por de onde se projetava uma sombra.
Melissa sentiu os pelos na sua nuca se arrepiarem e os olhos desviaram pelos lados do seu corpo como se procurasse a saída mais próxima de si. A voz, que apesar de muito calma e melódica soava irritada, causava nela um desespero desigual. Era um gatilho, uma emergência, o mero puxar do s já fazia seus sangue borbulhar de terror.
E então lá estava ela, a figura sorridente segurando uma espécie de bolsa. Era tão difícil não se sentir confuso, a raiva inerente se perdendo entre um tipo mórbido de desejo, Melissa nem podia apontar de onde vinha aquilo, mas odiava ter que admitir que o assassino era impossivelmente atraente. Quem sabe fossem os dias sem comer ou a desidratação lhe fazendo alucinar de novo, talvez o cheiro de enxofre vindo do cadáver apodrecendo à poucos metros tivesse deixado ela maluca.
Quem saberia dizer? Afinal, era só ela e Jorge agora e o homem parecia ter se urinado pelo menos quatro vezes agora.
— Que cheiro nojento, quando é que você vai jogar essa bosta de corpo fora, ein? — A figura perguntou, caminhando na madeira como se seus passos pesassem menos do que uma pena.
— Ei, faz parte do ritual. Não dá pra jogar fora, é o medo deles enfraquecendo a membrana esqueceu? — Aguiar corrigiu e nada naquela conversa fazia sentido.
Melissa balbuciou debaixo do pano, quase chorando a água que não tinha, seus pés amarrados balançando seu corpo e lembrando ela da dor agonizante no seu braço. Isso chamou a atenção dos assassinos, claro.
— Escuta, a gente só tem que deixar os dois vivos até a lua de sangue, você sabe do esquema. — O homem disse, segurando a corrente que mantinha Jorge pendurado no teto, soltando apenas o suficiente para que ele caísse no chão aos gritos abafados.
— É tanto faz, eu sei, só que a gente ainda não conseguiu achar ninguém pra colocar a máscara da sua mamãezinha…
Melissa ouviu o policial retrucar alguma coisa sobre respeito e memória, mas não entendeu muita coisa uma vez que sentiu seu corpo ser solto no chão de supetão. O tempo elevada fez com que seus tendões se chocassem, músculos apertando e torcendo em agonia enquanto tentavam expulsar o corpo estranho do gancho de sua carne vermelha. Ela deixou a cabeça em sua própria poça de sangue já oxidado, assistindo com olhos semicerrados as moscas pulando e voando ao seu redor.
Foi só então que ela percebeu o quão fraca realmente estava, com seus joelhos quase trincando de tão fracos e suas veias pulsando cada vez menos. Ela sentiu mãos fortes lhe colocarem sentada e sua visão ficou turva de repente.
— Se eu soubesse que você ia perder a paciência e matar os outros, eu não tinha perdido meu tempo colocando esses aqui no gancho. — A voz aveludada disse, sua própria paciência um pouco curta.
— O filho da puta mata meu cachorro e eu tenho que achar isso bom?
— Podia simplesmente ter cortado as mãos, mas agora nem diferença faz.
— Você é um preguiçoso desgraçado, Jaeyoon. — Aguiar rosnou e Melissa teve a impressão de ouvir um riso vir da figura.
— Eu só odeio perder o meu tempo. — Disse, seus lábios avermelhados pelo constante uso do batom abrindo uma expressão de escárnio.
Melissa teve alguns segundos de silêncio absoluto com sua cabeça entre os joelhos e um vislumbre quase fantasmagórico do que soava como o choro engasgado de Jorge poucos metros depois dela. Suas costas bateram contra a parede e ela sentiu o peso de uma mão no seu ombro.
— Bom, pelo menos guardamos os mais bonitinhos. Apesar da garota das tranças ser bonita também.
E então veio a tontura e uma dor cortante que rasgou cada nervo do seu corpo enfraquecido tão lentamente que parecia tortura. Mãos enluvadas puxavam e empurravam seu ombro e o gancho em lados opostos, separando-a do metal puro com força enquanto ela conseguia ouvir o craquelar do seu sangue seco. Melissa tentou gritar mais do que seus pulmões permitiam, a garganta áspera e dolorida tremendo enquanto a voz era abafada pelo pedaço de pano que ela optou por morder.
Cinco segundos, mas o sentimento foi o dos últimos quatro dias vividos de uma vez só.
— Porra, relaxa, já acabou… — A voz disse, parecendo por um momento minucioso com um tom de conforto apesar de sair mais como um descaso. Melissa ergueu seus olhos, os azuis perolados marcando uma enchente de lágrimas quentes e ácidas, descendo por seus olhos.
Jae pareceu fazer quase uma expressão de surpresa antes de dar um sorriso ladino.
— É, eu sabia que tinha visto essa cor antes.
— Você tá falando com ela? Merda, Jaeyoon, só faz o seu trabalho! — Disse o policial, apesar de estar não muito diferente enquanto literalmente dobrava o cachecol ensanguentado de Jorge, que ainda agonizava no chão.
— Disse a vagabunda que atraiu o sacrifício pelo Grindr… — Jae rolou seus olhos para o lado. Se não fosse o horror e o sofrimento desesperador da sua situação, Melissa teria achado aquilo quase cômico.
Melissa sentiu mais um par de mãos pesadas, essas trabalhando para abrir o seu colete, cortando-o ao meio até que pudesse jogá-lo fora. O terror subiu e a adrenalina fez com que ela chutasse a perna dobrada da assassina a fim de afastar ela de perto. Ela era uma mulher, sabia exatamente o que se passava na mente de pessoas doentes como aquela e não estava aberta a qualquer tentativa íntima que cruzasse àquela linha.
Preferia morrer se assim fosse.
Mas Jae quase não se moveu. Para falar a verdade, a pessoa sequer sentiu o peso do chute, não era como se pudesse realmente lhe empurrar mais do que um leve desequilíbrio, mas não podia ignorar de onde veio aquilo. Apesar de não se importar, foi decente o suficiente para levantar as duas mãos como um sinal claro de que não pretendia cruzar essa linha, até mesmo pondo a tesoura no chão.
— Ei, eu sou homicida e não um monstro.
Foi por seus batimentos cardíacos acelerados que Melissa notou a sensação quente no seu peito e o frio intenso que lhe dominou logo após isso, estava suando frio e, quando notou isso, sua pressão já tinha despencado assim como sua cabeça que caiu para o lado. Muito sangue perdido e todos aqueles dias sem comer ou se hidratar… Ela ia morrer.
E não ia ser bonito ou heróico, não seria ao lado de sua mãe ou em qualquer acidente de ginástica, ia ser dentro de um sótão abandonado e cheio de poeira, fedendo a excreções e enxofre, ao lado das moscas varejeiras que provavelmente lhe moer depois de tudo. Ela encarou um ponto vazio no chão, triste, com raiva, com fome, com frio… E sua visão só conseguiu captar o vulto de uma mão erguendo seu rosto e o fantasma dos mesmo lábios avermelhados lhe fazendo perguntas que ela não podia responder.
E então o escuro, o vazio completo e um ponto de luz muito distante.
[...]
Havia um cheiro salgado no ar e doce também, não era intenso, mas impossível de não perceber. Melissa sentiu como se houvesse flores propostas logo ao seu lado e aquilo coçou no seu nariz como um espirro guardado. E então ela molhou os lábios levemente, sentindo falta daquele pano úmido grudado na sua face.
Seus olhos piscaram uma e então duas vezes, se abrindo devagar ao ponto que se acostumaram com a escuridão do sótão, o enxofre voltou como uma onda tsunami, mas junto disso um cheiro diferente e o som de alguém desesperadamente batendo os dentes em metal.
Ela olhou para o lado e viu os mesmo barris de antes, então olhou para o outro e viu Aguiar se divertindo com sadismo ao torturar Jorge com uma tigela de alguma coisa, alimentando ele com a menor colher que ela já conseguiu ver.
Na sua frente, a figura — que agora julgava se chamar Jaeyoon — segurava uma seringa grande de alimentar gado, preenchida com um líquido amarelado e pastoso, se preparando para o que talvez fosse ser uma alimentação forçada.
— Tira essa porra de perto de mim!! — Melissa berrou, assustada com o som da sua própria voz.
— Mel! — Jorge exclamou de onde estava, a boca ensopada e cheia, seu colarinho parecido com o de uma criança aprendendo a comer. — Você tá viva, Mel! — ele chorou.
Jaeyoon sorriu, abaixando a seringa e deixando-a com suas mãos enluvadas.
— E eu achando que a gente ia perder mais um…
Melissa ainda não sabia o que sentir por ser uma cena bizarra, não parecia sequer ser o mesmo dia.
Não estavam suspensos em ganchos e ela tinha a impressão de seu ombro ter sido tratado. Jorge vestia uma camisa diferente e, apesar do desacato e o sadismo de Aguiar, estava sendo alimentado. Ambos eram presos à barris com os braços para trás, seus pés acorrentados por correntes grossas presas em uma parábola de ferro pregada ao chão.
Melissa assistiu ao terror enquanto Jae devolvia o líquido em um copo de metal que se parecia muito com o tipo de louça que veria na casa de sua avó. Primeiramente ela virou o rosto, enojada, se recusando a aceitar qualquer coisa que lhe fosse oferecida, mas então lhe subiu o cheiro salgado de batata e leite, como um purê feito para ser mais líquido que o normal. Sua língua parecia enrolar na boca enquanto as bochechas enchiam o berço dos seus dentes de saliva.
Ela virou o rosto e grudou os lábios no metal do copo, puxando ele para baixo quase que desesperadamente. Jaeyoon quis rir, um pouco de entretenimento dançando no seu olhar caçoado, mas ainda mais sádico do que qualquer coisa. Uma mão viajou para trás da cabeça de Melissa, como se guiasse sua fome animalesca de forma que ela não se engasgasse ou se afogasse.
E novamente, Melissa sentiu aquele ódio repulsivo de si mesma, achando ridícula a forma como seus olhos se sentem nervosos em desviar do fundo do copo ou como seu rosto ficou um pouco vermelho. Era nojento e pavoroso pensar que a pessoa alimentando ela era a mesma responsável pela morte de seus conhecidos e também pela sua tortura.
Bom, pelo menos do que ela se lembrava, afinal quem à carregou até o sótão era o homem verificando as correntes nos tornozelos de um loiro prisioneiro junto dela.
Quando acabou, sua boca ainda salivava por mais. Enfim, tudo o que recebeu foram mais dois copos iguais de água fresca, o que era com certeza melhor do que o nada dos últimos quatro dias, mas ainda era alguma coisa.
— Não… Não tem mais? — Ela perguntou, olhos altos buscando o mínimo de empatia nas orbes oblíquas e negras que lhe encaravam de volta com seriedade.
— Escuta, isso aqui não é um hotel.
— Por favor! — Exclamou Melissa. — Por favor, eu nem sei há quanto tempo a gente tá aqui! Eu não sei por quê vocês tão fazendo isso, mas eu só quero ir embora! Por favor, eu não conto pra ninguém, eu juro…
Ssshhhh… Aquele som maldito soou dentro do seu cérebro como um comando neural imediato que a fez travar. Melissa engasgou no próprio ar, parando com seus olhos enormes encarando a figura nos olhos, as mãos coçando e seu pulso subindo.
— Garota… Não abusa, tá? Você só tá aqui por sorte. — Um arrepio gélido subiu pelas costas de Melissa enquanto dedos calosos passeavam pelo seu rosto de uma forma quase íntima. — Sem gracinhas.
[...]
— Eles vão matar a gente, não adianta tentar escapar, cara. — Jorge lhe disse pela vigésima vez no nono dia, assistindo enquanto Melissa tenta pateticamente ignorar a dor no ombro para tentar puxar suas mãos, a fim de romper o cordão que as amarrava para trás.
— Você e aquele covarde do seu irmão podem escolher o caminho mais fácil, foda-se! Mas eu não quero morrer aqui pra dois psicopatas doentes! — Ela disse ao se debater, rosnando e grunhindo sempre que seu ombro lhe lembrava da aflição de estar sob o pendurar de um gancho.
— Melissa a gente já se fudeu, garota! Pensa! Não tem como sair desse inferno, ou a gente aceita isso ou a gente vai virar estatística!
— Porra Jorge, você desiste fácil assim mesmo?! Você acha que eles vão cuidar da gente pra quê? Tá na cara que eles vão fazer alguma coisa pior com a gente. — Ela disse, se virando pra ele com ódio. Não podia socar ele agora, mas se pudesse com certeza teria o feito.
Jorge pareceu pensar por um momento. Claro, ele também tinha escutado sobre aquela tal lua de sangue e o ritual esquisito, mas esteve distraído com a morte eminente e o luto pelo seu irmão por tempo demais pra se consentrar em ser um possível sacrifício.
— Aí e daí? A gente já tá fudido, Melissa.
A garota permaneceu se debatendo até que seus pulsos doessem demais e a ansiedade de quebrá-los fosse maior que a necessidade de fugir. Como sempre, levava apenas uma hora para que Melissa voltasse ao estado letárgico que seu corpo entrava toda vez que ela estava um pouco mais próxima de aceitar o fim.
— Aquele… — Ela começou. — Aquele negócio do Grindr que eles falam tanto, o que que significa? — Ela perguntou.
Jorge corou mais do que o sangue no seu corpo permitia, levando os olhos pro outro lado da sala onde o corpo putrefato de um homem permanecia à acumular moscas. Parecia melhor encarar um cadáver do que explicar isso à uma desconhecida em um sótão demoníaco.
— É um aplicativo idiota… De namoro… — Jorge disse, mas Melissa permaneceu calada, a fim de que ele continuasse falando. — Foi onde eu conheci minha namorada.
Após a explicação, se instalou um pequeno silêncio, cortado pela voz de Melissa.
— Tá e daí? — Ela perguntou, surpresa com a naturalidade daquela conversa casual em meio a situação desesperadora. Talvez um jeito de assimilar seu futuro mórbido e casualizar todo o drama.
— E daí que minha namorada é o Aguiar.
A resposta saiu com um balançar de cabeça antes de Jorge se virar e encontrar Melissa em absoluto terror, se não espanto e talvez um pouco de nojo.
— Tá de brincadeira?
Jorge bufou.
— Eu não tinha como saber que ele era um assassino, tá bom?
— E você veio da puta que te pariu pra ver essa tal namorada aqui?! Você nunca ouviu sobre tráfico de órgãos? Que burrice…
Jorge quis revidar, mas era difícil quando de todos os outros ele era o dono da pior motivação possível. Sabia que alguns deles tinham ambições maiores e motivos mais honrosos que um contato virtual, mas Melissa não poderia saber da situação com seus pais e o segredo.
Na verdade, mesmo que soubesse, ela só o acharia mais ridículo. Estava presa aqui pelo simples pavor de aviões que tinha, nunca mais veria sua mãe novamente e ainda sim se sentia mais nobre do que o rapaz que flertou com o assassino de metade do seu grupo.
— Olha, Mel… A gente vai morrer e eu não sei se quero ser julgado antes disso, tá bom?
A garota o olhou por um momento, sentiu seu coração assentar no peito e uma onda de compaixão, ela deixou um pequeno sorriso fraco escapar e esticou seu pé para o lado, até que pudesse alcançá-lo com uma batidinha fraca.
— Pelo menos a gente não vai morrer sozinhos, né? — Ela disse, já sentindo o nó enrolar sua garganta. Jorge por outro lado mal conseguiu segurar, também esticando seu pé a ponto de ambos se encontrarem.
— É… Pelo menos isso, eu acho…
Ambos dividiram um momento de irmandade, construído no que talvez fossem horas e mais horas de todos os tipos de horrores possíveis e perdas provavelmente incuráveis. Tudo interrompido pelo som sufocado de passos sob suas figuras e o som rangente da porta do sótão se abrindo de novo.
A escada desceu com um agudo estridente, passos sufocantes subindo os degraus lentamente até que Aguiar se fizesse presente. Sem dizer nada, ele apenas passou a desfazer as correntes do jovem Lagos, usando elas nas suas mãos pouco depois de soltá-las e o arrastando para longe.
Melissa e Jorge gritaram um pelo outro, lágrimas grossas que ela não achava que poderia produzir por muito tempo mais. E então a escada subiu, a porta fechou e os gritos de Jorge permaneceram audíveis até cessarem muito longe dali.
Ela se viu sozinha, abandonada com aquele corpo nojento, encarando os ecos fantasmagóricos da sua própria mente traumatizada por longos períodos até escurecer novamente e tudo que pudesse sentir fosse os rasantes constantes dos insetos passando por sua orelha. Melissa tentou manter a cabeça entre os joelhos pelo máximo de tempo possível para evitar moscas nos ouvidos, mas era impossível dormir.
Para ela, Jorge estava morto. Provavelmente ela seria a próxima e isso se tornou um desejo pulsante na sua cabeça.
O fim de tudo aquilo.
Mas ele simplesmente
Não.
Veio.
E por malditos dois dias tudo o que ela tinha eram os sons do vazio e talvez uma ou duas visitas de água por dia.
Até que um dia ela acordou com o som da água na jarra, mas o entregador não era Aguiar.
— Você dorme muito, sabia? — A frase acompanhou um riso baixinho. — Eu quase achei que tivesse perdido mais uma.
Melissa ponderou se deveria falar, definitivamente muito fraca para dizer qualquer coisa. E então, no fundo da sua psyche danificada, uma memória acordou seus pensamentos frustrados com um pulsar forte de vontade.
— Você sabe onde tá àquela máscara…?
E o silêncio se situou com uma brisa fria vinda da janela. A água parou de cair dentro do copo e Jaeyoon se virou sem muito hesitar, carregando olhos curiosos.
— Máscara? Tá falando da Caçadora? — Perguntou o assassino.
Melissa pendurou a cabeça para o lado, pequenos tiques quase forçando seus olhos a piscarem.
— Porra, não. Vocês ratinhos sumiram com ela. — Disse, rindo novamente enquanto levava o copo aos lábios da prisioneira. Foi só então que Melissa desceu os olhos para o copo, bebendo da água fria com um gosto desesperado, sentindo seu estômago florescer embaixo das suas costelas. — Mas eu te vi com ela, não chegou a colocar a coisa, chegou?
Melissa interrompeu sua sede apenas para balançar a cabeça, quase mordendo o copo quando voltou a beber. Jaeyoon apenas assistiu silenciosamente, um pouco de interesse dançando no fundo do seu olhar mórbido mas sem muito aparecer da sua expressão. Dessa vez, Melissa não implorou por mais água e nem choramingou desculpas, apenas se reclinou contra seu barril e relaxou os ombros, olhando para um ponto vazio no nada.
Jae achou aquilo curioso e um pouco estranho, já que normalmente as vítimas tendem a quebrar muito mais tarde do que isso. Ainda assim, não escapou da sua intuição o detalhe de que Melissa parecia entender da máscara, mesmo que não tivesse colocado ela ainda. Ouviu Aguiar dizer que ninguém deveria colocar ela no lugar da ex-portadora, mas só o jeito que a pequena menção fez Melissa se silenciar como um túmulo já atiçou sua curiosidade.
Queria saber o porquê. E queria saber da pior forma possível.
— Na verdade… — Ela respirou fundo, como quem se prepara para dar um mergulho em uma piscina mais funda. Melissa ergueu os olhos, fixada na próxima frase do seu futuro assassino. — O Aguiar levou ela. Sabe, nós precisamos de alguém pra usar aquilo. Só assim o grupo vai estar pronto pra lua de sangue… — Disse calmamente.
E então riu, balançando a cabeça em descrença.
— Não que você fosse entender alguma coisa disso, loira.
Melissa sentiu uma pontada de ódio, mas também de interesse. Algo sobre o perigo e talvez a adrenalina de um culto secreto sacrificando pessoas parecia quase intrigante, pelo menos à essa altura do campeonato e depois de tantas horas vendo sangue e vísceras com a mesma frequência que ela via barras olímpicas.
— E o que acontece se não acharem? — Ela perguntou, assistindo Jae servir mais um copo com água, enchendo seus olhos com a esperança de tomar mais um gole. Elu jogou os ombros pra cima, indiferente.
— É o que vamos descobrir. — E então, tomou um gole do copo.
Seu batom deixou uma marca evidente na lateral, como uma mordida de sangue. Melissa engoliu em seco, sentindo os olhos escuros lhe encarando como um falcão no campo aberto pronto para atacar, mas sua mente nublou de repente e ela viu o copo vir na sua direção mais uma vez. Jae virou o objeto, apenas para que Melissa tomasse da mesma beirada que si.
Ela julgou por um instante, pensando no que seria vantajoso tomar o que calculava ser menos que um gole do copo pela mesma via que alguém que vivia coberto de sangue. Ainda assim, não podia batalhar a sede e a fome, aceitando a oferta mesmo assim.
Quando deixou o copo vazio se afastar, seus lábios tinham uma leve pigmentação, roubada da marca que permanecia vivida na beirada metálica. Ela sentiu um pouco do cheiro adocicado da maquiagem, movimentando os lábios instintivamente pela textura diferente e viu Jae abrir um sorriso surpresa.
— Ou quem sabe você pode me surpreender, Melissa.
Os olhos azuis se espantaram por um momento, assistindo a figura se mover dentro do ambiente como uma sombra leve pairando no ar. Jaeyoon pegou a jarra de novo e jogou a escada de madeira, não pedindo qualquer licença ao se retirar, saindo e trancando a portinhola. Melissa permanecia estática, completamente imóvel, a loira sequer tinha explicação para a onda de choque que arrepiou cada fio do seu corpo como um comando, sentindo um mix intenso de ódio, repulsa, curiosidade e até interesse, tudo florescendo na sua pele como se seus nervos estivessem expostos ao vento.
Maluca, era o adjetivo.
Ela estava ficando completamente louca.
