Chapter Text
A ansiedade e tensão pairavam no ar da sala do Sr. Veríssimo, o codinome do manda-chuva da Ordem. Ele era um homem já com seus cabelos grisalhos, mas com uma poderosa e onipotente presença: só um olhar dele já te fazia tremer e questionar todos os seus pecados.
Se você dissesse aos três novatos parados em pé à frente da mesa do homem que havia uma organização secreta não governamental que protegia o “nosso” lado do paranormal , eles não acreditariam e ririam da sua cara. Bom, agora que viram o tal paranormal com os próprios olhos e quase ido dessa para melhor (ou pior), eles acabaram acreditando. E agora fazem parte dela.
— Vocês passaram pelo processo de treinamento com ótimo rendimento, meus parabéns. - Sr. Veríssimo diz. - Não são todos que aguentam a rigorosidade da Ordem. Por isso os chamei aqui. Julgo que estão aptos para se tornarem agentes efetivos da Ordem.
Os novos agentes se entreolham entusiasmados, depois de meses aguentando aquele treinamento desgastante até os ossos eles enfim foram elevados de nível. Eles já imaginavam que lutar contra o paranormal não seria nada fácil, mas imaginar é diferente de saber e eles souberam no momento que entraram na sala de treino quando tiveram que lutar contra um zumbi de sangue. O que antes já tinha sido um humano agora não passava de um amontoado de carne e, claro, sangue. A visão das entranhas da criatura e seus grunhidos enervou os novatos, se não fossem os instrutores eles teriam ido dessa para melhor de novo. Agora, estavam preparados para mais do que apenas um zumbi de sangue.
— Dito isso, designarei vocês para sua primeira missão - ele continuou enquanto erguia um arquivo de sua mesa para que um dos novatos pegasse. - Porém, mesmo agora sendo agentes de verdade, continuam sem experiência em campo. Além de que esse caso precisa da atenção especial de certos veteranos para guiá-los.
Sr. Veríssimo viu o deslumbre dos olhos mais novos vacilar à menção de que não tomariam a frente da missão sozinhos como tinham imaginado. Mesmo após tanto treinamento, ainda não estavam prontos o suficiente, ainda precisam de alguém que tomasse conta deles. Veríssimo notou que uma dos novatos cerrou os punhos ao saber desse detalhe.
E como se fosse uma deixa, após as últimas palavras de Veríssimo ouviu-se a porta se abrir, os três novos agentes se viraram curiosos para a entrada. De lá surgiram duas figuras distintas.
— Carmim. Jonathan. - Veríssimo cumprimentou.
— Fala , Chefe! - o homem, que logo descobriram ser Carmim, pálido e de cabelos longos e castanhos com as pontas loiras sorriu, mas o que mais chamava atenção no seu visual era seu casaco e óculos rosas, com certeza não era seus olhos esbranquiçados fantasmagóricos.
— Qual a boa Sr. Veríssimo? - o outro homem, Jonathan, loiro de olhos azuis e pele bronzeada, na cadeira de rodas também exibia um sorriso. Aqueles dois pareciam ser a confiança em pessoa, os novatos podiam sentir eles mudarem o ar da sala apenas de entrar nela.
Então era assim que era ser um agente veterano na Ordem?
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Carmim não estava nem um pouco confiante. Ele queria gritar, para ser sincero. Tinha um pouco mais de um ano desde a sua última missão liderando um grupo de novatos. Missão essa que deu catastroficamente errado. Ele estava satisfeito com as missões solo ou em dupla com Jonathan, os dois já trabalhavam com tanta sincronia que os outros agentes invejavam . Eram a dupla dinâmica da Ordem. O que o Veríssimo tinha na cabeça ao deixar três novatos sob seu comando de novo? Ele não viu o que aconteceu na última vez?
Mas aqui estava ele ao lado de Jonathan, seu fiel companheiro, se apresentando com um sorriso no rosto para a missão que ele os designou.
Ele olhou para os novatos, que o encaravam com curiosidade, o garoto na ponta era esguio e moreno, um pouco mais alto que Carmim. A garota ao seu lado era robusta e tinha o cabelo tingido de rosa, esperava que a missão não precisasse que fossem furtivos, caso contrário aquela ali estava ferrada. Por último a mulher na outra ponta de cabelos cacheados e negros olhava Carmim com certa relutância, não deixou de notar seus punhos cerrados. Ele estava se segurando ao máximo para não dar meia volta e levar Jonathan consigo.
Como se sentisse a tensão exalando de seu corpo, Jonathan segurou sua mão em busca de acalmar a tempestade que estava se formando dentro dele.
— Então vocês são os novatos de quem tanto ouvimos falar? - Carmim ficou grato por Jonathan tomar a iniciativa agora. - Falam muito bem de vocês por aí sabiam? Mas acho que seria bom chamar vocês pelos seus nomes e não só de novatos.
O sorriso radiante e elogios de Jonathan devem ter aliviado o clima na sala, até a carranca da mulher que fitava Carmim diminuiu, ele costuma ter esse efeito sobre as pessoas.
— Ah, é verdade! - concordou a menina de cabelo rosa - Meu nome é Eliza! E esse é meu irmão, Sam. - o garoto esguio acenou para eles. - E aquela é…
— Vanessa. - a mulher cacheada respondeu seriamente.
— Apresentações feitas, - interveio Veríssimo. - hora de apresentar a verdadeira natureza desse caso. Carmim e Jonathan já têm noção do que se trata, por isso estão aqui.
— O senhor tem certeza que esse caso pode ter a ver com aquele de um ano atrás? - Carmim cruzou os braços, seu sorriso se desvencilhando.
— É uma suspeita. Com base nos relatórios que os agentes anteriores encarregados deste caso enviaram, as descobertas traçam o mesmo padrão do primeiro caso, o que nos leva a crer que ela esteja de volta.
— Agentes anteriores? - Vanessa indagou receosa. - O que aconteceu com eles?
— Esse é o outro ponto que iremos discutir. - Carmim não gostou da hesitação na voz do homem. - Os agentes Fontele e Soares não enviam relatórios ou sinais de atividades há dois dias nem atendem às tentativas de contato. Estão tidos como desaparecidos até que se diga o contrário.
— E você quer enviar novatos para essa missão? Mesmo sabendo os riscos que ela traz se a sua suspeita estiver correta? Eles não estão prontos! - Carmim levantou a voz, assustando os três novatos.
Carmim não queria assustá-los nem nada do tipo, mas se Veríssimo estiver certo, aquela missão é muito arriscada para colocar aqueles novatos no meio, não é para o calibre deles. Se ela tiver voltado depois de um ano… Deus, ele não queria nem imaginar o que ela poderia fazer com aqueles três. Carmim não podia deixar nada acontecer com eles. De novo não. Meu Deus e dois deles ainda eram irmãos. Parece até que alguém tá tirando uma com a cara dele. Fazendo tudo se repetir.
— Se me permitir terminar, agente Arturo, - a rispidez de Veríssimo o tirou de seus pensamentos. - a missão de vocês se resumirá a um breve reconhecimento e possível resgate, caso encontrem os agentes. Quero que confirmem ou descartem a nossa suspeita, sem que alertem o autor dos crimes. Em caso de confirmação, os novatos devem voltar imediatamente e agentes veteranos serão enviados para ajudá-los a eliminá-la de vez.
— E por quê uma equipe mais experiente não é enviada agora? - Jonathan foi quem o questionou dessa vez.
— Como bem sabe, agente Avery, estamos com falta de pessoal no momento. O outro lado tem dado bastante trabalho para nós, muitos agentes estão ocupados ou se recuperando de suas missões. No entanto, é esperado que alguns deles voltem a tempo de ajudá-los caso seja necessário.
— Eu ainda acho isso uma péssima ideia. - Carmim comentou.
— Você tem uma ideia melhor? - desafiou Vanessa. Carmim desviou o olhar. Ele não queria enviar aqueles três para uma possível missão suicida, mas também queria acabar com aquilo logo.
— Bom, tenho certeza que vamos dar conta do recado, Sr. Veríssimo! - Eliza falou na tentativa de amenizar o tom da conversa.
— É - Sam falou em seguida. - afinal, treinamos para isso.
— Ótimo. Há mais detalhes sobre o caso no arquivo que os dei, acabamos por aqui. Boa sorte. - Veríssimo concluiu.
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Carmim fechou a porta atrás de si ao sair da sala e suspirou, já sentia uma dor de cabeça chegando. Olhou para os demais.
— E então? O que temos aí? - ele apontou com o queixo para o arquivo na mão de Vanessa.
Ela abriu o arquivo e todos se puseram em sua volta, Carmim prontamente pegou o documento e sentiu o estômago embrulhar com o que viu.
— É ela.
— Ela? - Sam perguntou confuso. - Ela quem?
— Carmim, você tem certeza? - Jonathan não deu atenção à pergunta do garoto, ele sabia o que aquilo faria a Carmim se fosse realmente o mesmo caso do ano passado.
— Olha, parece que vocês dois tem bastante familiaridade com esse caso, - Eliza disse. - mas nós ainda estamos um pouco no escuro.
— É, cara. - Sam concordou. - Não sabemos direito por que esse caso específico é tão perigoso para nós.
— É porque ele não confia em nós. - Vanessa mantinha um olhar cortante na direção de Carmim. A tensão entre eles retornou. - Ele não nos acha bons o suficiente e que vamos estragar a missãozinha dele.
— Não é bem assim… - Jonathan tentou argumentar, mas Carmim logo o interrompeu:
— É bem assim mesmo, na verdade. - Jonathan olhou para ele incrédulo. Em outra época, o tom de voz acusatório e a altura de Vanessa, a maior e mais velha dos três novatos, teriam intimidado Carmim. Mas ele já lidou com muita gente que tentava usar o próprio tamanho como uma ferramenta de intimidação, mais do que gostava de admitir. Ele já lutou com criaturas que eram quatro vezes o seu tamanho, aquilo não era mais nada para ele. - Querem saber com o que estão lidando? - sua voz agora era firme. - Covas violadas, corpos desaparecidos, cadáveres encontrados totalmente secos como se sua vida tivesse sido sugada e símbolos de Sangue e Morte vistos nos arredores do cemitério. Símbolos que ela criou. - Um gosto amargo tomou conta da boca de Carmim ao lembrar daquela mulher. - O nome dela é Verônica, uma ocultista que brinca com a necromancia a seu bel prazer.
— Ela rouba a vida e o sangue de suas vítimas para transferi-los ao corpo de outro morto. - Jonathan prosseguiu. - Ela acha que é o Dr. Frankenstein, ela não para só na ressurreição, mas também costuma fazer experimentos sádicos com os zumbis, ela os transforma em verdadeiras monstruosidades.
— E ainda trata eles como se fossem suas preciosas criações, seus bebês. É com isso que estamos lidando. - Carmim viu os olhares assombrados dos irmãos, Vanessa parecia contrariada, deve ter sentido o peso daquelas informações. - Vocês não estão prontos, ainda são amadores e ingênuos. Só foram convocados porque a Ordem tá desesperada e sem pessoal suficiente. Qualquer erro que cometerem pode levar ao fracasso da missão, e missão fracassada é morte na certa. - ele enfatizou.
— Vocês parecem bem vivos pra mim.
— Vanessa, - Jonathan tentou intervir. - é mais complicado do que isso.
— Complicado como? - ela continuou a desafiar.
Carmim suspirou. No fim, Vanessa não precisou de intimidação para desestabilizá-lo, a lembrança do seu fracasso acabou de fazer isso. Eles falharam, de fato. Mas ela errou em uma coisa, eles tão pouco saíram vivos daquela missão, o preço que pagaram foi alto demais. Uma parte deles morreu junto dos outros naquele dia. Agora, tudo que sobrou foram seus restos moribundo que andavam por aí, achando que fazem alguma diferença no mundo.
— Chega desse assunto. - seu tom firme foi substituído por um cansado. - Nosso foco é outro, vamos nos deter a ele. Não temos escolha senão cumprir a missão e dessa vez não vou deixar que nada aconteça com vocês.
Eu não me perdoaria se deixasse. Ele pensou.
— Que reconfortante. - Vanessa revirou os olhos.
Tá. Aquela ali já estava tirando Carmim do sério. Ele matou o gato dela por acaso? Ele não tinha cabeça para aquilo, ajeitou a postura a fim de mostrar o máximo de autoridade que a sua figura de 1,67 e casaco rosa podia oferecer.
— Eu não sei qual o seu problema comigo, mas é bom você reavaliar essa sua atitude, eu sou seu superior, quer vocês queiram ou não, então exijo pelo menos um pouco de respeito vindo de vocês. - ele encarou os três, era bom deixar o recado bem claro para todos. - Agora, vão e aproveitem o resto do dia, se preparem. Eu vou cuidar dos nossos preparativos, qualquer dúvida chamem o Jonathan aqui, beleza?
Carmim deu as costas ao grupo e foi em direção à sala de arquivos, mesmo assim ainda conseguia ouvir os murmúrios. Eles claramente não sabiam sussurrar.
— O que deu nele? - ouviu a voz de Sam.
— Acho que ele é só meio estressado com tudo. - Eliza disse.
— Ele nem sempre foi “estressado” assim. - Carmim ficou surpreso com Jonathan falando por ele, mesmo que já devesse esperar que ele o faria. - Carmim já foi alguém bem mais otimista e acolhedor.
— Aquele ali? Conta outra. - Vanessa disse cética.
— Parece um pouco improvável, cara. - Sam falou.
— Vocês ficariam surpresos com o quanto o fracasso de uma missão sob a sua liderança pode mexer com você. - Carmim podia sentir o peso do olhar de Jonathan e a melancolia em sua voz. Lembrar do seu eu de antes era doloroso. Ele apertou o passo até a sala de arquivos e se escondeu na sua escuridão.
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Quando Jonathan foi atrás de Carmim, ele estava sentado no chão da sala de arquivos, no escuro, olhando alguns documentos pertencentes à pasta ao seu lado. A ausência de luz não afetava tanto a visão de Carmim, ele ainda conseguia enxergar boa parte das coisas, cortesia dos rituais do outro lado que deixaram seus olhos esbranquiçados, rituais nem sempre eram ruins.
— Oi. - A voz de Jonathan era doce e mansa. Ele se aproximou de Carmim e ficou ao seu lado. Na cadeira de rodas, Jonathan o via um pouco de cima, o que lembrava do tempo em que aquela visão era o normal, quando Jonathan ainda podia andar. Outra consequência do seu fracasso.
— Oi. - Em contraste com Jonathan, a voz de Carmim era frágil e rouca, quase como se estivesse desgastada de tanto uso.
Ele não tirou os olhos dos documentos. Neles, mostravam as fichas dos agentes da primeira missão, eram quatro deles, todos novatos na época. O primeiro, Jack, era um garoto incrível e irritantemente realista, mas era uma parte essencial do grupo com seu raciocínio lógico, ele era um bom agente. Depois, vinha Cice, ela era um doce de pessoa, sempre ali para ajudar os outros quando precisassem, não à toa era a médica do grupo. Seus conhecimentos os salvaram diversas vezes, mas ninguém conseguiu salvá-la a tempo. E então, as irmãs Métis e Akira. Elas eram o clássico caso de irmãs opostas, enquanto Métis se portava de maneira elegante, tanto nos trajes quanto em seus trejeitos, Akira usava roupas alternativas e tinha o cabelo tingido de roxo. As interações típicas de irmãos entre elas traziam risos ao grupo. Não mais.
Nenhum deles tinha nem 30 anos.
— Eles eram tão novos… - Carmim lamentou, deitando a cabeça nos joelhos de Jonathan. - Ainda tinham uma vida pela frente.
— Eu sei. - Jonathan sussurrou, acariciando os cabelos de Carmim.
— Achei que eu já teria esquecido a esse ponto, mas eles sempre voltam.
— É impossível alguém esquecer o que aconteceu naquele dia. Acha que eu esqueço? Todo dia eu lembro das cicatrizes que nos marcaram. Em você. Em mim.
— Se eu tivesse sido mais forte e não hesitasse, talvez…
— Ei, - Jonathan segurou o rosto de Carmim com delicadeza e o fez virar em sua direção. - olha pra mim. - Carmim sentia ardência nos olhos enquanto sua mente entrava em espiral, sabia que o que quer que Jonathan falasse estaria certo, mas ainda era difícil acreditar, eles já tiveram essa conversa. Carmim não queria olhá-lo, mas virou seus olhos brilhantes e marejados para ele, projetando um leve brilho fantasmagórico na face de Jonathan. - O que aconteceu comigo não é culpa sua, tá bom? Eu sabia o que estava fazendo, sabia dos riscos. O que me aconteceu não foi sua culpa. Eu preciso que você entenda isso, tá? Você entende? - Jonathan acariciou a bochecha de Carmim, uma lágrima solitária desceu sobre ela. - Me diz, você entende isso?
Carmim não queria responder, mas a súplica na feição de Jonathan o fez concordar com a cabeça. Ele continuou:
— Eu entendo que o resultado daquela missão te deixa em um ciclo de culpa, já tive minha cota de lideranças com perdas. Eu sei como é, sei mesmo. Se não fosse pelo apoio da minha família e amigos, eu teria me afundado nos meus erros. Não quero que você se afunde carregando toda essa culpa sozinho, eu tô aqui pra te levantar quando você sentir que está caindo. Do mesmo jeito que você me levanta quando eu estou caindo. Além de que, você ainda era um líder inexperiente em uma missão maior do que nós estávamos preparados.
Carmim fungou e deu uma risada fraca.
— Acho que a Ordem tem um sério problema em mandar agentes em missões sem ter certeza da gravidade delas. - ele murmurou.
— É verdade. - Jonathan deu um sorriso igualmente fraco e voltou a entrelaçar os dedos nos cabelos de Carmim. - Você amadureceu, está mais forte agora e sei que vai cumprir a sua promessa de protegê-los.
— Você fala bonito. - Carmim se aconchegou mais em Jonathan. - Eu te amo, sabia?
— Eu também te amo, meu amor. - Jonathan sorriu de verdade agora. Ele depositou um beijo no topo da cabeça de Carmim.
Deus, ele era tão grato por ter Jonathan em sua vida. Não sabia o que faria sem ele. Carmim estava orgulhoso dele, na verdade. Jonathan também amadureceu bastante nos últimos tempos, antes ele era mais um gigante bobalhão, mas muito carismático, ouvir ele falar daquele jeito de agora era impensável naquela época. Não que ele fosse alguém superficial, do contrário, ele só tinha dificuldade com as palavras e em se abrir com os outros.
— Vem, - ele apertou suavemente o ombro de Carmim. - também precisamos aproveitar o resto do dia e nos preparar para amanhã.
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O familiar corredor com paredes brancas e encardidas fez Carmim prender a respiração. Estava na casa onde tudo aconteceu. O silêncio absoluto era opressivo, como se estivesse em uma espécie de vácuo, nem os passos vacilantes de Carmim faziam barulho quando ele começou a se movimentar.
Ele andou pela casa, analisando cada cômodo que investigou no passado, em busca de algum sinal de vida além dele. Nada. Ele tentou gritar por alguém, mas sua voz não saía. O desespero começou a tomar conta de Carmim. Ele tentou sair pela porta da frente, mas sempre que o fazia ele voltava para o meio do corredor. E sempre olhando para aquela porta no final dele, e a cada vez que voltava a porta estava mais perto. Carmim tentou ignorar a todo custo aquela porta, inutilmente. Até que ele deu de cara com ela. Carmim olhou para ela aturdido, seu coração era a única coisa que conseguia ouvir, batendo tão rápido e forte que podia explodir da sua caixa torácica. Ele não tinha outra escolha senão abrir a porta dos fundos da casa.
Mas quando a abriu, não viu a clareira onde sua equipe foi massacrada, em vez disso, se deparou com a escuridão, não enxergava nada além do vazio, nem com seus olhos. De repente, uma lufada de vento inexplicável arremessou Carmim direto no breu. E foi aí que o inferno começou.
Carmim caiu com um baque surdo no nada. Ainda não conseguia ver nada, nem o chão era visível, seus outros sentidos estavam a flor da pele, ele se sentia observado e não conseguir enxergar o assustava. Então o silêncio foi quebrado.
— Carmim. - um conjunto de vozes espectrais sussurrou bem pertinho do seu ouvido.
Seu corpo congelou. Aquelas vozes…
— Por que você nos abandonou, Carmim?
Não, não, não. Ele tentou falar, mas sua voz ainda não saía, ele precisa gritar, mas não conseguia emitir nenhum grunhido. Começou a ofegar, sua respiração curta e rápida não o deixava capturar oxigênio suficiente, parecia que iria asfixiar a qualquer momento.
As quatro figuras desfiguradas do que um dia foram Jack, Ceci, Métis e Aki o cercaram, Carmim não conseguia tirar os olhos do chão, não conseguia olhar para eles, já via o sangue manchando seus sapatos pela visão periférica, não queria olhar o resto, ele já sabia o que o esperava, mas ainda assim não quero olhar.
— Você nos deixou para morrer, Carmim. Você é um covarde. - os sussurros começaram a virar gritos, tão altos que Carmim cobriu os ouvidos, em vão. Seu corpo inteiro tremia e lágrimas derramavam sem parar. Ele deixou eles morrerem, não foi forte o suficiente, deixou o medo consumi-lo, não era apto para ser líder, como um líder poderia deixar quase toda a sua equipe morrer? Ele deveria ter morrido no lugar deles.
No momento em que teve esse pensamento, Carmim foi tomado por um banho de sangue. O líquido carmesim e pegajoso caiu com uma força brutal em cima dele. Carmim engasgou com o baque do sangue em suas costas, o que o levou para mais perto do chão. O sangue continuava a cair com velocidade e força total, Carmim tentava se levantar em desespero, mas o peso avassalador do sangue o prendia no chão, ele tentava gritar, mas não conseguia, todo os seus esforços eram em vão. Ele olhou uma última vez para frente, onde viu as quatro figuras de antes, ensanguentadas e quase irreconhecíveis de tão feridas. Do lado delas estava Jonathan, igualmente morto.
Carmim foi totalmente tomado pelo sangue espesso. Ele se afogava no que agora era um mar profundo de sangue. Levado cada vez mais fundo dele. Até dar seu último suspiro.
Ele acordou com um sobressalto e falta de ar, o coração disparado contra o peito. Ele tentou regular a respiração enquanto olhava ao seu redor. Estava no seu quarto e de Jonathan, que dormia tranquilo ao seu lado. Bom, pelo menos ele não o acordou. Olhou as horas no relógio da cabeceira, 2:47 da manhã.
Carmim escorregou da cama para o chão, encolhendo-se com os joelhos contra o peito, as lágrimas caíam lenta e silenciosamente por suas bochechas, ao contrário do seu choro desesperado no sonho.
Ele não conseguiu mais dormir naquela noite.
