Work Text:
O clima naquela casa estava uma merda. Desde a noite anterior em que os cinco perderam o Dalmo, parecia que tudo havia desmoronado. Que tudo estava perdido.
E talvez estivesse mesmo.
Estava tudo muito quieto. Quieto demais. Até mesmo Henri não falava quase nada. Labirinto e Jae estavam na sala, próximos ao banheiro, abraçados. Yoon estava com a cabeça deitada no ombro de Labirinto enquanto claramente tentava conter as lágrimas que queriam sair de seus olhos. Kemi e Henri estavam na sala de música que Pomba havia montado, o mais novo estava junto com eles. O único som do ambiente era o do choro dele. E Aguiar estava ali. Jogado no chão, segurando a própria perna. Sozinho. Estava próximo de Labirinto e Jae, mas não com eles – tanto fisicamente quanto emocionalmente. Ele nem ao menos tentava disfarçar as lágrimas que caiam em seu rosto ensanguentado.
Haviam vencido a guerra contra os Couraças. Haviam roubado aquele carro irado da Ana, colocado fogo na Escarlata, matado quase toda aquela equipe… O delegado achava que finalmente tinha feito o bastante. Que finalmente havia conseguido vencer, se mostrar digno de algo…
Mas não. Não havia sido o suficiente. Nunca seria. E o Magno era a prova daquilo. Ele era parte de sua nova família, era ele quem fazia as piadas que aliviavam o clima dos ambientes, ele quem oferecia paçoca até para seus inimigos… Ele quem tinha uma verdadeira família para voltar. Droga! Conseguia se lembrar da filha dele perfeitamente. Conhecia a filha dele… Dalmo salvou sua vida naquele show… E ele não conseguiu retribuir… Não conseguiu salvá-lo.
Parecia que não importava o quanto ele lutasse, sempre acabava daquele jeito… Sempre acabava na merda.
Era óbvio que imaginou que algum deles poderia morrer, estavam na porra do Hexatombe… Merda! Avisaram que o Dalmo quase morreu naquele mesmo dia. Mas nunca imaginou que aquilo iria acontecer mesmo. Nunca imaginou que teria que passar por aquilo.
Era como ter seu coração arrancado do peito. Como se tivesse desaprendido a como respirar, andar, existir. Como se cada músculo do corpo estivesse pesado demais, e cada pensamento, afiado demais.
Por que o Dalmo? Merda! Ele nem ao menos havia ido para a batalha. Ele havia ficado naquele maldito circo! Não tinha ido atrás de briga. Aquilo era injusto. Cruel. Mais que tudo, era estúpido porque você sabe que a morte é uma possibilidade. Mas saber não te prepara para nada. E quando finalmente acontece… É como se o mundo tivesse desabado sobre você e, ao mesmo tempo, ficado silencioso demais. Vazio demais. Como o silêncio onde deveria haver uma voz. Uma piada. O espaço que antes era ocupado por alguém, agora totalmente vazio.
E o pior de tudo era entender que aquilo não era um pesadelo. Era real. Talvez não fosse para sempre. Afinal, não eram os corpos deles ali. Dalmo não era o Dalmo, era outra pessoa. Era um agente da ordem. Dalmo se foi, mas a consciência do agente poderia acordar em seu corpo original… Certo?
Não dava para contar com isso. Porque mesmo se quem morresse no Hexatombe voltasse em seu próprio corpo, um dos cinco ainda não voltaria. Porque um dos corpos havia sido aberto e eles não sabiam quem. Era como uma roleta russa. Além disso, se Henri morresse… Henri ainda é o Henri. Ele só tem uma chance. Ele é o sacrifício. Se ele morrer é para sempre. E aquilo doía. Todas as possibilidades de perdas. A dor que todas elas dariam…
Precisava se esforçar. Não poderia deixar mais ninguém morrer. Aguiar poderia não ter total consciência de suas memórias como agente, mas sabia que tanto sua consciência quanto seu corpo dividiam um extinto: proteger aqueles que amam. Ambos foram treinados a vida toda para isso. Como cães de guarda. E é isso que ele iria fazer.
Os mascarados eram sua família ali e sua família seria sua prioridade sempre. Mesmo que ele não fosse a prioridade de nenhum deles – o que ele sabia que não era. Iria se esforçar mais. Precisava se esforçar mais. Precisava ser o suficiente para não perder mais ninguém.
Nenhum deles saberia dizer quanto tempo ficaram daquela forma. Mesmo com pequenos cochilos aqui e ali, o tempo parecia passar devagar. Os minutos pareciam durar horas, o que prolongava a sensação de vazio que agora preenchia todos ali.
Mas já estava de dia novamente. Já estava no quarto dia do Hexatombe. Eles precisavam se manter fortes. Continuar. Era o que o Dalmo iria querer… Certo?
Kemi foi a primeira pessoa a levantar naquela manhã. Apesar do semblante claramente abatido, ela tentou manter sua voz firme ao dizer:
— Porra, estamos fedendo para um caralho!
E estavam mesmo. Todos eles. Faziam dias que não tomavam banho e estavam todos cobertos por suor e sangue seco das batalhas anteriores.
Aguiar olhou para o lado, percebendo que Yoon fazia uma careta enquanto dava uma fungada em seu próprio braço.
— Credo, que nojo – elu disse. – Estamos fedendo pra caralho.
O faro do delegado era bom o suficiente para ter noção disso a um bom tempo. Claro que não eram os únicos daquele lugar a se sentirem assim, porém, parecia ter piorado de uma hora para outra.
Realmente precisavam de um banho.
— Bom, não podemos nos dar o luxo de usarmos a nossa água para isso – Labirinto argumentou, mesmo com a careta em seu rosto mostrando que talvez precisassem mesmo daquilo. – Precisamos só aguentar mais três dias.
— Mais três dias tendo que aguentar esse cheiro? – Henri perguntou, incrédulo.
Pomba se aproximou do grupo, que agora estava quase inteiro na sala. Quase. Ainda faltava Dalmo. Sempre faltaria o Dalmo. O mais novo estava coçando o próprio braço.
Seu rosto ainda estava molhado pelas lágrimas que havia derrubado. A morte de Dalmo foi um baque grande para o garoto. Para todos eles. Mas Pomba não conseguiu sequer tentar disfarçar. Ele estava piorando a cada sacrifício como um desertor, mas claramente não conseguia ficar feliz por ter um lugar para ele no grupo agora.
Ótimo, agora ele tinha um grupo novamente. Mas sua família continuava morta. E ele só conseguiu entrar no grupo porque uma das únicas pessoas que havia sido legal com ele desde o início também se fora.
Pelas mãos das mesmas criaturas.
— Bem… Os pássaros costumavam se limpar em um lago… Não tão longe daqui… – Pomba relembrou. Virando-se para Henri e Aguiar. – Vocês dois já conhecem… Né?
Jonas travou o próprio maxilar quase inconscientemente. Sim, ele se lembrava muito bem daquele lago. Se lembrava do pavor que sentiu assim que chegou minimamente perto dele. Do desespero que tomou seu corpo junto com as lembranças de sua infância.
E lembrava muito bem do que aconteceu depois de saírem de lá. De quando colocou a máscara pela primeira vez contra Sabara.
— Uhum… – murmurou simples.
— Talvez… Seja um bom local para nos limparmos… – Pomba sugeriu.
Aguiar apertou suas próprias mãos, tenso. Não queria ter que voltar naquele lugar. Não queria se sentir daquele jeito novamente. Ele não… Não conseguiria… Já estava machucado demais. Precisava mesmo se torturar daquela forma?
Tentou não virar a cabeça quando olhou para a reação de seus amigos. Kemi assentiu, como se realmente precisasse de um banho para colocar a cabeça de volta no lugar. Jae já estava se levantando e Labirinto parecia considerar a ideia.
O seu olhar se cruzou com o de Henri por um instante, ele já o olhava antes. Como se esperasse uma reação por parte do delegado. Aguiar desviou o olhar o mais rápido que conseguiu.
— Seria bom para caralho – disse Jae.
— Vamos – concordou Kemi. Firme como a líder que era. – A gente precisa respirar um pouco… Esfriar nossos pensamentos… Um mergulho pode ser bom.
— É, acho que a gente realmente precisa disso e não deve ser tão perigoso sair esse horário, mesmo cansados e machucados, ainda somos o maior grupo – Labirinto falou. – Vamos precisar ir atrás de comida e água de qualquer forma… Acho que vai ser bom tomar um banho. Precisamos tomar um banho.
— Iria ser maravilhoso diminuir esse cheiro de vocês, estão todos podres – Henri falou.
— Você não tá tão diferente – Jae falou imitando o tom de voz do sacrifício.
Aguiar continuou sentado. Não queria. Não. Não queria ter que lidar com tudo aquilo de novo. Todos aqueles turbilhões de lampejos de memória. De memórias ruins…
O olhar de decepção de seus pais… De sua mestra… Sentiu seu corpo tremer involuntariamente. Não poderia… Mesmo que precisasse. Droga, não dava para fazer um maldito chuveiro com as sucatas desse lugar?
Piscou algumas vezes, levando a própria mão para seu braço. Tentando se reconfortar com aquelas memórias. Tentando não surtar com a ideia de ir para o lago se limpar. Ele tinha um ótimo olfato, sabia que o cheiro deles poderia atrair criaturas mais facilmente. Mas como poderia?
— Aguiar, meu amor? – Jae o chamou.
Ele levantou o olhar, percebendo que o grupo o olhava com curiosidade. Seus traumas não eram segredo para ninguém ali. Ele compartilhou todas as memórias que tinha com eles. Com todos eles. Especialmente Labirinto.
Será por isso que estavam o olhando com tanta atenção?
Conseguia ver o olhar de preocupação de todos. Não sabia se era preocupação com ele ou preocupação com ele não querer se livrar daquele cheiro terrível. Conseguia ver a aflição no olhar deles. Especialmente no de Jae, que, mesmo tentando parecer neutre, claramente esperava que Aguiar fosse com eles. Talvez que confiasse neles. E ele confiava. Só que… Não podia.
O olhar de Kemi era compreensivo, quase maternal, ela estava destruída pelo dia anterior. Ele sabia disso. Mas ainda assim… Ainda assim queria que todos ficassem confortáveis com o que quer que fossem fazer. Pomba parecia com medo, como se tivesse errado ao sugerir ir para o lago. Henri deu um sorriso quase mínimo, assentindo enquanto tentava mostrar que ele não estava sozinho. Que nada iria acontecer com ele. E Labirinto…
Labirinto continuou a encará-lo com segurança assim que Aguiar o olhou. Como se quisesse mostrar que não tinha o que temer. Mas Aguiar o conhecia o suficiente para perceber que doía para elu ver Aguiar recuando tanto.
Jonas odiava isso. Odiava sentir que estava atrapalhando… Que estava incomodando. Sabia que estava, afinal, o único que não queria ir para aquele maldito lago era ele. Mas ele simplesmente… Não conseguia. Não poderia… As memórias… Eram muito vivas. Muito reais.
Difíceis de deixar de lado.
Kemi aproximou-se com um sorriso mínimo de conforto, os braços cruzados se abraçando como se ainda tentasse se reconfortar depois de tudo o que acontecera no dia anterior. Seu semblante estava cansado, mas firme.
— Aguiar – chamou ela, calmamente. Seu tom era quase materno. – Eu sei que deve ser difícil para caralho. Sei bem como é, acredite. Mas a gente precisa limpar a mente. Precisamos mesmo. Não só a mente, mas o corpo inteiro. Você inclusive. Sabe disso, certo? – Aguiar assentiu. – Você… Não precisa entrar no lago. Não precisa nadar. Nem chegar perto. Só… toma um ar com a gente, tá? A gente leva uma cumbuca e te damos banho fora.
O delegado virou um pouco a cabeça, tentando evitar o olhar de Kemi. Sabia que poderia confiar neles. Eles eram sua família agora. Eles nunca fariam algo para o machucar, não propositalmente.
Eles não eram seus pais. Eles não eram a mestra do assassino.
Mas ainda assim… Seu olhar caiu sobre Pomba – ou Juninho Paçoca, como tinham renomeado ele – que estava claramente inquieto, com um certo medo, olhando para o chão como se tivesse cometido um erro por sugerir o lago.
Como se se sentisse culpado por todas aquelas memórias dolorosas de Aguiar tivessem vindo à tona até sua cabeça.
— Se você não quiser… – o garoto engoliu seco, a voz fraca tentando não gaguejar. – Eu… Eu entendo. Desculpa. Eu não queria… – a voz dele morreu.
E, porra, aquilo doeu mais que qualquer soco, facada ou qualquer coisa que Jonas já levara.
Ele precisava enfrentar seus medos. Precisava fazer aquilo por sua família. Pomba já estava fraco demais por ficar tanto tempo como um desertor e se sentindo culpado demais por tudo o que aconteceu com sua família. Aguiar simplesmente não poderia deixar que o Paçoca achasse que era culpado por mais algum sofrimento.
Fechou os olhos. Inspirou fundo, o estômago embrulhado. Ele não queria voltar lá. Não queria ter que enfrentar aquilo tudo de novo. Mais do que isso, não queria sentir a água na pele, não queria lidar com a memória da cabeça dele sendo empurrada para baixo quando era criança, da mestra segurando sua cabeça até seus pulmões queimarem..
Mas também não queria ser o peso morto do grupo. Já se sentia inútil o bastante por não ter conseguido manter o Dalmo a salvo.
Ele precisava lidar com seus fantasmas. Se não por si próprio, por seus amigos que o olhavam com preocupação.
— Tá… Eu vou com vocês – Aguiar declarou. – Só… Não vou entrar no lago. Ok?
O alívio do grupo foi imediato. Não escandaloso, não comemorado, mas real. Como se estivessem orgulhosos por ele tentar enfrentar seus maiores pesadelos. Ou por se livrarem daquele cheiro terrível.
Kemi soltou o ar que parecia estar segurando desde a noite anterior, totalmente cansada, e assentiu como quem respeita um limite importante. Contente pela confiança depositada em si, em sua família.
— Tá bom. Não vamos te forçar a nada.
Henri também assentiu.
— É, sabemos o quanto você está se esforçando para isso e isso já diz muito.
Jae abriu um sorriso de orelha a orelha. Ele se aproximou e tocou o braço de Aguiar de leve com o cotovelo.
— Fico feliz que tenha topado, estou doida para te ver sem camisa de novo – elu flertou, em tom de piada apesar de não estar brincando em nada do que disse.
Labirinto também se aproximou, colocando uma mão no ombro de Aguiar. O cabeludo inclinou um pouco a cabeça para conseguir olhar nos olhos do mais alto.
Ele tentava passar segurança quando disse:
— Vai dar tudo certo, você não precisa se preocupar.
E, então, elu soltou o ombro de Aguiar e pegou a mão de Jae. Dando alguns passos para se distanciar do delegado.
— Vamos em uma formação – Labirinto declarou. – Jae e eu vamos na frente, deixem o Pomba no meio. Henri, como está de dia você não precisa se preocupar tanto, então você e Kemi vão ao lado dele. Aguiar, você fica na retaguarda, assim não vai ter o primeiro contato com a água e consegue proteger o grupo – ordenou. – Entenderam?
Pomba apenas assentiu.
— Aham – Jae disse.
— Positivo e operante – Kemi balbuciou.
— Sim – Henri concordou.
— Entendido – Aguiar murmurou.
Labirinto concordou com a cabeça, claramente satisfeito e saiu andando com Jae. Aguiar percebeu Pomba erguer o olhar pela primeira vez desde que pediu desculpa. Os olhos ainda estavam vermelhos pelo choro, mas agora brilhando de alívio.
Seu rosto tinha uma grande cicatriz de desertor e ele parecia prestes a cair duro no chão. Claramente não deveria sair de casa, não era racional, mas… Seu emocional estava abalado. Talvez o melhor fosse realmente sair dali. Se afastar por alguns minutos.
Porque a memória de Dalmo estava em todos os cantos daquela casa. Em tudo o que ele construiu. E, mesmo que não quisessem esquecer ele, tinham que espairecer.
Porque ainda estavam no quarto dia de Hexatombe.
— Eu levo a cumbuca – Pomba disse para Aguiar. – Tem uma ótima aqui.
E ele saiu andando até a cozinha por alguns segundos. Acompanhou o menino com o olhar, ele estava claramente frágil. Temia que qualquer tropeço poderia tirar a vida dele. Aguiar olhou rapidamente para o lado e percebeu o mesmo olhar apreensivo em Kemi. Mas, graças a Deus, Pomba foi e voltou rapidamente.
E, então, todos saíram. Caminhando pelo mesmo caminho de sempre rumo ao maior pesadelo de Jonas e do agente em seu corpo. Era até engraçado, quase irônico, como as memórias – os medos e temores – dos dois eram parecidos. Como se a conexão de ambos fosse inevitável.
Aquilo também era apavorante. Porque cada sentimento, cada medo, vinha em dobro. Todas as lembranças misturadas vinham em dobro. Doíam em dobro.
Toda aquela estrada era cheia de memórias. Conseguia lembrar claramente da crise de pânico que teve a pouco tempo. Do pavor em perder Henri para Sabara. Da energia, tesão e felicidade que colocaram aquela máscara e matar aquela vampira trouxe.
De tudo.
O caminho até o lago foi feito em silêncio, mas não o mesmo silêncio sufocante que estavam na casa. Apesar da clara dor em todos ali, não era esse o motivo do silêncio.
Estavam atentos. Cautelosos. Como se cada um estivesse respeitando o luto do outro. Não só isso, com medo de precisar passar por esse luto novamente. Barulho era sinônimo de chamar atenção e na condição que estavam, com quem estavam – já que sabiam que os vampiros estavam atrás de Pomba –, chamar atenção era o mesmo que oferecer a morte de mais um deles para o Hexatombe.
O lugar parecia diferente. O ar ainda era pesado, mas menos abafado. O chão úmido rangia sob os pés. Os céus pareciam ter mudado de cor, não estava mais alaranjado, estava vermelho. Vermelho como sangue. Provavelmente pelo dia da lua de sangue estar chegando.
Aguiar caminhava um pouco atrás de todo o grupo, como ordenado por Labirinto, sentindo cada passo pesar. Pesar mais do que deveria. Era difícil caminhar sabendo o destino que o aguardava. Sabendo como iria se sentir. Cada árvore mais próxima do lago fazia seu estômago se revirar mesmo totalmente vazio.
O cheiro da água chegou antes da visão. Era quase um destaque para o olfato no meio daquele lugar.
Apenas o cheiro já fez com que o delegado estremecesse. Mas quando o lago finalmente surgiu entre as árvores, aparecendo na visão de todo o grupo, que o coração dele deu um solavanco.
Era aterrorizante. Amedrontador. Intimidador. O que era irônico porque claramente não tinha nada de errado com a água, clara e calma. Pronta para um grande gole ou um mergulho. Mas só a visão dela já foi o suficiente para que o homem quisesse sair correndo dali imediatamente.
O corpo dele reagiu antes da mente. Os dedos tremeram. O maxilar travou instintivamente. O ar pareceu ficar mais denso, difícil de preencher seus pulmões.
E ele sabia que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Não só com aquele corpo, mas com sua mente também. Ele já havia se sentido assim antes, muitas vezes.
E aquilo já lhe tinha custado muito. Já havia custado vidas…
Henri foi o primeiro a entrar na água, animado até demais. Ele abriu um grande sorriso, soltando a risada mais histérica antes de falar:
— Gelada pra caralho!
Kemi entrou em seguida, dando um longo suspiro de alívio. Ela mergulhou sem dificuldade, voltando para a superfície poucos segundos depois.
Jae pulou logo atrás, sem se importar em olhar a profundidade. Por sorte o lago era profundo o suficiente para elu conseguir fazer aquilo sem se machucar.
Aguiar virou o rosto para o lado tentando evitar olhar muito para a água, ou para a forma como ficavam submersos na água. Labirinto se aproximava da borda do lago devagar, seus olhos variando do lago para Aguiar.
— Caralho! – disse a Yoon, animada.
— Tá foda – concordou Kemi.
Jae se virou para Labirinto com um sorriso sapeca. Sem se importar muito, começou a jogar água para cima. Em direção ao homem careca na tentativa de fazê-lo entrar lá logo.
— Porra, Jae – Labirinto disse.
— Vem, entra logo – Jae estendeu a mão, puxando-o para entrar na água.
Pomba se ajoelhou na borda do lado, como as aves faziam, lavando braços e pescoço com cuidado excessivo já que estava severamente machucado. Kemi se aproximou dele devagar, o ajudando a lavar as feridas com calma.
Ele não estava bem o suficiente para entrar ali e mergulhar, sabia que não, por isso estava se lavando da melhor forma. Apenas com os pés na água.
Aguiar permaneceu afastado de todos. Afastado do lago, ao menos o máximo que conseguia. Estava sentado em uma pedra. As mãos apertadas sobre os joelhos.
Ele se sentia pequeno ali. Pequeno demais para alguém que carregava tantas mortes nas costas, tantos nomes enterrados na memória. O lago à sua frente não era só água – era um espelho cruel, refletindo tudo o que ele tentava manter enterrado. Desde o que sofreu quanto que fizera outras pessoas sofrerem. Cada ondulação suave que distorcia sua imagem parecia mostrar quem era ele verdadeiramente.
O corpo dele estava tenso como uma das armadilhas de Jae prestes a disparar. Os músculos doíam de tanto se manterem rígidos mesmo que sem intenção. Como se seu corpo soubesse que relaxar era o sinônimo de morrer. O coração batia rápido demais até mesmo para quem estava acostumado a sair por aí e enfrentar tudo, irregular, como se estivesse tentando fugir antes mesmo que ele tomasse qualquer decisão. A respiração vinha curta, controlada à força, porque respirar fundo significava sentir demais.
Ele observava os outros à distância, como se houvesse um vidro invisível entre eles. E talvez houvesse mesmo. Estavam rindo, brincando, ajudando uns aos outros. Leves. Vivos. Presentes. E aquilo o fazia sentir uma pontada de algo que misturava inveja e culpa. Inveja por eles conseguirem estar ali sem que o passado os esmagasse. Culpa por ele não conseguir.
Aguiar se sentia quebrado. Se sentia errado. Se sentia…
Algo estava diferente. Ele olhou em volta, mesmo que não quisesse olhar diretamente para o lago. Havia um cheiro diferente por ali e não era apenas pelo banho que estavam tomando.
Não, era algo diferente. Uma pessoa diferente. Não! Uma criatura diferente. O cheiro de sangue estava claro, juntamente ao de carne quase podre.
O corpo dele ficou rígido. Tinha um vampiro ali. Um vampiro por perto.
E apenas Aguiar havia percebido.
Ele se levantou da pedra, uma mão agarrando o machado, a outra segurando sua máscara com firmeza. Antes mesmo de conseguir avisar qualquer um, Velisar apareceu em sua visão.
Apesar de não ter olhos, ele sabia quem estava ali. Muito provavelmente pelo cheiro. E Aguiar também sabia quem ele era. O que ele havia feito.
E Pomba também. O mais novo foi a segunda pessoa a perceber o ocultista ali. O garoto estremeceu ainda na beira do lago, procurando alguma forma de se esconder.
E Velisar deu um sorriso de orelha a orelha, mostrando aqueles dentes afiados para quem quisesse ver.
— Ora, ora – ele disse. – Quem diria que eu finalmente encontraria o passarinho fujão.
Pomba engasgou com o próprio ar. O corpo dele reagiu antes da mente – tentou recuar, mas o pé escorregou na lama da margem e ele caiu sentado, a cumbuca rolando para dentro da água.
O sorriso de Velisar se alargou mais um pouco, como se saboreasse o medo no ar.
O vampiro se moveu rápido demais para olhos comuns. Um borrão de carne pálida e podridão, contornando o lago sem sequer tocar a água, vindo direto em direção ao garoto. Pronto para finalizar o que começou.
Aguiar sentiu o sangue gelar novamente. Queria lutar. Queria ter a chance de arrancar a cabeça de outro vampiro. Mas não ali. Não naquele lugar.
Só que Pomba estava em perigo agora. Sua família estava em perigo agora. Então ele não pensou. Não hesitou. Não deu tempo para o medo se aflorar em si, mesmo com o lago logo atrás deles. Ele avançou em direção aos dois.
A água estava perto. Perto demais. Mas Pomba era mais importante do que qualquer coisa naquele momento.
Velisar ergueu o braço, as unhas se alongando, prontas para atravessar o garoto como se ele fosse um simples papel.
Aguiar se jogou entre os dois, acertando o machado em uma de suas mãos enquanto forçava o vampiro para longe com seu próprio corpo.
Os dois rolaram pela terra úmida, longe da borda por meros centímetros. Aguiar sentiu o respingo da água atingir suas botas e quase vomitou, mas manteve os dentes cerrados.
— Vai até a Kemi – Aguiar falou para Pomba.
Aguiar investiu contra o vampiro usando o machado novamente, o golpe vindo baixo, direto, quase certeiro. Quase. Velisar desviou com uma graça irritante, recuando um passo, ele inclinou a cabeça.
O sorriso nunca sumindo de seu rosto.
— Deixe-me adivinhar. Você é o cão de guarda do grupo – o vampiro disse. – Aquele que sempre se coloca entre a caça e o caçador.
O vampiro deu um passo lateral, calculado, tentando ganhar ângulo para atingir Pomba outra vez, que já entrava para dentro do lago desesperadamente gritando por Kemi.
Os outros já haviam percebido Velisar ali. Já estavam prestes a sair do lago, mas ninguém chegaria rápido o suficiente para impedi-lo de acabar com o Pomba.
Foi então que o delegado se lembrou.
— Eu protejo minha família – Aguiar disse. Ele segurava seu machado com firmeza antes de puxar outra arma com sua mão. Uma espada. A espada de Sabara. – Eu tentei avisá-los disso. Devem se lembrar da lembrancinha que deixei para vocês.
A cabeça da Sabara que deixaram no caminho. Não havia sido Aguiar quem a fincou ali, mas Velisar não precisava saber disso.
A lâmina da espada reluziu sob o céu vermelho, mesmo suja, mesmo marcada. O metal parecia beber a luz ao redor, pesado de intenção. Assim que o vampiro a reconheceu, pelo cheiro ou pelo som, o sorriso morreu por meio segundo.
— Você…
Aguiar ergueu a espada lentamente, deixando que Velisar visse cada detalhe. O entalhe no cabo. As marcas antigas. O sangue seco de várias pessoas, da própria Sabara, que nunca saiu por completo.
— Reconhece? – perguntou Aguiar, a voz perigosamente calma. – Eu roubei da sua amiguinha. Antes de arrancar a cabeça dela.
O vampiro rosnou em direção ao Aguiar. Ótimo, Pomba já não era mais o alvo.
— Você quem a matou.
— Eu não a matei – Aguiar disse. Abrindo um pequeno sorriso quase que em seguida. – Eu a executei.
Tudo tinha durado menos de um minuto. Incluindo o que aconteceu a seguir. Foram questões de segundos para Velisar avançar contra Aguiar. Assim como levou segundos para que o homem levasse a máscara ao rosto.
Mesmo com a máscara, não conseguiu conter Velisar que avançou nele. Aguiar desviou de forma desengonçada, mas conseguiu acertar o machado no braço do vampiro fazendo com que uma grande ferida sangrenta se formasse. O vampiro agora estava de costas para o lago, Aguiar tentava evitar olhar para a paisagem em sua volta. Não poderia. Não conseguiria lutar se olhasse para a água. Mas percebeu um raio passar por cima dele e do vampiro enquanto o segurava longe de seu pescoço com o cabo do machado.
Labirinto havia tentado acertar Velisar e havia falhado.
Mas não conseguiu pensar naquilo por muito tempo. Ouvia a água se mexer praticamente ao lado de seu ouvido e por um segundo, tudo dentro dele hesitou. A água. As memórias. A dor.
A hesitação foi tudo o que Velisar precisou para abrir um sorriso novamente.
O vampiro inclinou a cabeça, como um predador farejando sua presa. Soava quase irônico para Aguiar reconhecer isso tão bem. O nariz se ergueu levemente, o peito se expandindo num fôlego lento, quase satisfeito.
— Ah… Agora eu entendo.
Velisar sorriu.
Não aquele sorriso teatral de antes, com uma falsa educação que nunca existiu, mas algo mais íntimo. Mais cruel.
— Esse cheiro delicioso… É você – Velisar disse. – O pavor escorrendo da sua pele. O medo da água.
O estômago de Aguiar se revirou. Tentando ignorar o que a criatura dizia.
— Cala a boca, seu filho da puta! – o Mutilador Noturno rosnou, avançando antes que a mente pudesse atrapalhar.
Ele girou o machado em arco, pesado, certeiro, mirando a cabeça de Velisar enquanto tentava fincar a espada em seu estômago. E o vampiro não desviou. Não tentou revidar, muito pelo contrário, ele apenas continuou parado. Encarando Aguiar profundamente que o olhou de volta. Dentro dos olhos. Como Velisar queria.
O vampiro sorriu, dando passos para trás sem dificuldades e como se uma força invisível estivesse o puxando, levou Aguiar junto. Para perto do vampiro. Para dentro da água.
As vozes dos seus amigos estavam distantes quando sentiu a água em seu tornozelo. O corpo inteiro de Jonas travou.
Não foi um simples toque, foi uma lembrança. Um choque que subiu por sua pele, pelos ossos, direto para o cérebro. Aguiar tentou recuar no mesmo instante, mas mesmo que conseguisse – tinha certeza que havia caído em algum tipo de ritual – Velisar o agarrou.
Primeiro a mão do vampiro se fechou em seu colete com força brutal, depois agarrou a máscara em seu rosto e a jogou para longe, e, só então, veio o empurrão. Praticamente obrigado a se ajoelhar enquanto era empurrado para o fundo da água. Até…
— Não… – o som morreu antes mesmo de virar uma frase completa.
O corpo de Aguiar entrou em pânico antes que qualquer pensamento pudesse se formar. O impacto da água contra suas costas arrancou todo o ar de seus pulmões. Os músculos enrijeceram de vez, travando como se isso pudesse impedir o inevitável. O coração disparou tão forte que doeu.
— AGUIAR! – era quase impossível reconhecer de quem era a voz chamando por seu nome.
O som se dissolveu em um ruído abafado, distante, como se alguém tivesse fechado uma porta grossa entre ele e o mundo. Braços e pernas se debateram sem coordenação, teria perdido o machado se não estivesse amarrado por uma corda já que soltou suas armas instantaneamente.
A água entrou pela boca, pelo nariz. Queimava. Ardida. Gelada. O corpo gritava por ar enquanto a mente gritava por fuga. Porque ter toda aquela água entrando pela boca e pelo nariz, com seus olhos extremamente abertos, não era a pior parte. Não era só aquele lago. Não era só o agora.
Era a infância inteira voltando de uma vez. As lembranças voltando como facadas em seu coração. Em seu cérebro.
Mãos grandes demais pressionando sua cabeça como estavam fazendo naquele momento. A sensação de não ser o suficiente, de precisar passar por aquilo para ser melhor. A água invadindo tudo. As vozes dizendo que era para aprender, que era para obedecer.
Velisar estava ali, em cima dele, afundando-o com facilidade. Uma mão firme no peito, outra no pescoço, mantendo-o submerso mesmo com todos seus esforços para se soltar. Exatamente como faziam com ele quando ainda era uma criança.
Os pulmões queimavam com o tanto de água que entrava. O corpo entrou em modo de sobrevivência, debatendo-se sem força suficiente.
“Eu vou morrer.”
O pensamento veio calmo demais. Não porque ele aceitasse, mas porque já tinha sentido aquilo antes. Porque, talvez, fosse melhor morrer do que continuar a sentir aquilo.
Aguiar foi puxado para fora da água por Velisar que agora tinha sangue descendo por uma ferida em aberto parecida com um tiro em sua cabeça. Tentou puxar ar novamente para seus pulmões, desesperadamente.
Mas foi quase impossível quando Velisar mordeu seu pescoço, sugando parte de seu sangue assim como Sabara fez. Se sentia fraco. Sem ar. Talvez fosse melhor morrer daquele jeito.
Só que Velisar não o faria tão feliz. Ele ergueu a boca novamente, proferindo:
— Você lembra… Seu corpo lembra. Ele sempre lembra. E essa será sua última lembrança.
E ele o forçou para dentro da água novamente. O pânico voltou para Aguiar. Ele iria morrer daquela forma. Sabia que iria, não tinha mais esperanças. Mas era doloroso.
Aguiar sentiu o peito arder. Os pulmões imploravam para sair novamente. Seu novo machucado no pescoço ardia. A água em sua volta ficava manchada de sangue – seu próprio sangue. A visão começou a escurecer nas bordas, pontilhada de estrelas que não existiam.
Foi então que algo se chocou contra Velisar, fazendo com a pressão diminuísse por um segundo, mas não o suficiente para conseguir se soltar. Não conseguia ver o que estava acontecendo do lado de fora. Estava desesperado demais para isso.
— MORRE SEU FILHO DA PUTA – Yoon gritou, cravando sua adaga novamente nas costas de Velisar.
Kemi subia em uma das árvores o mais rápido que conseguia, precisava pegar um ângulo longo o suficiente para conseguir matar aquele vampiro com um tiro na cabeça.
Henri estava conjurando algum ritual, com Pomba atrás dele.
— Se afasta dele, caralho – grunhiu Labirinto ao acertar outra rajada caótica em direção ao Velisar.
E dessa vez ele acertou. Mas não como queria, ao invés de ficar desorientado e sair do lago, Velisar mergulhou para o fundo. Levando Aguiar junto.
— NÃO, PORRA! – Jae gritou.
— Vem comigo – ordenou Labirinto.
E sem nem hesitar, o careca mergulhou. Jae fez o mesmo quase em seguida.
A água fechou sobre elus, gelada, pesada – mas Labirinto não tinha medo dela. Tinha medo de perder Aguiar.
Debaixo d’água, a cena era um borrão de movimentos violentos. O vampiro segurava Aguiar pela nuca e pelo ombro, cravando os dedos com força suficiente para deixar marcas. Enquanto nadava cada vez mais para baixo.
Labirinto viu o rosto de Aguiar. A forma como ele ainda lutava para sair daquilo se debatendo. Os olhos abertos demais. O desespero absoluto. O corpo travado entre tentar lutar ou desistir.
Aquilo fez algo estalar dentro de Jae assim que percebeu o que Labirinto olhava. Yoon nadou o mais rápido possível até os dois e cravou a adaga no flanco do vampiro. Puxando em um grande X.
O grito da criatura borbulhou pela água, distorcido, agudo. Ele soltou o delegado. Principalmente quando outro ritual o acertou. O de Henri. O vampiro subiu novamente para a superfície apenas para levar um tiro certeiro de Kemi, boiando sem vida no lago.
Mas nada disso havia sido rápido o suficiente. Não para Aguiar que já não se debatia mais. Ou respirava mais.
Labirinto tentou o subir de dentro da água sozinho, mas precisou de ajuda de Jae para isso.
Yoon o agarrou pelo colete e o puxou até a borda do lago.
— RESPIRA! RESPIRA, PORRA! – Jae gritou. Ao perceber que não fazia diferença, Jae se virou para Labirinto. – Laby, faz alguma coisa.
— Sai da frente – Labirinto mandou.
Labirinto ajoelhou ao lado de Aguiar com um movimento seco, automático. Não houve hesitação, não houve espaço para pânico. Só ação.
— Vira ele – ordenou, a voz firme demais para alguém que estava claramente à beira de se despedaçar.
Jae obedeceu imediatamente, ajudando a virar o corpo do delegado de lado. A água escorreu de sua boca, se misturando com seu próprio sangue no chão. Ele estava gelado. Pesado. Inerte.
Jonas Aguiar estava morrendo.
Labirinto pressionou algumas vezes o peito dele com as mãos, com força. Nenhuma reação.
— Não, não, não… – murmurou entre os dentes, como se repetir aquela palavra pudesse mudar alguma coisa. Impedir alguma coisa. – Porra, Jae. Vira ele de novo.
— O que? – Jae perguntou, confusa
— De barriga para cima!
Jae o ajudou a fazer Aguiar deitar de barriga para cima e, então, Labirinto posicionou as mãos corretamente, entrelaçando os dedos, e começou as compressões com força e ritmo. Confiante.
Cada empurrão fazia o corpo de Aguiar ceder um pouco, como se já estivesse longe demais. Mostrando o quão frágil o homem estava.
Henri chegou pouco depois.
— Ele tá morto? – perguntou o sacrifício, não recebendo nenhuma resposta. – Ele morreu? Jae? Labirinto? – nada. Henri se virou para a árvore onde Kemi tentava descer rapidamente após finalizar Velisar. – KEMI, AJUDA!
— Respira! – Jae gritou de novo, a voz quebrando. – Respira, porra!
Labirinto parou apenas o tempo suficiente para inclinar o rosto de Aguiar, segurando-lhe o queixo com cuidado que contrastava demais com a brutalidade do momento. Com a brutalidade com a qual fazia a massagem cardíaca.
Ele abriu os lábios de Aguiar, segurando seu nariz tampado enquanto aproximava suas bocas. Labirinto soprou ar para dentro de seus pulmões. Uma vez. Duas. Três.
Nada.
O pânico começou a querer subir no homem. Um nó apertado no peito, nos ombros, na garganta. Não poderia falhar! Não agora! Não com Aguiar! Porra. Labirinto sabia que era bom. Sabia que era o melhor ali para tentar salvá-lo.
Ele não poderia estar errado.
— Laby… – Yoon chamou, a voz falhando. – Ele tá…
— Cala a boca, porra – Labirinto respondeu, ríspido demais, sem sequer olhar.
Ele não podia deixar mais ninguém morrer.
Voltou às compressões, mais fortes. Mais rápidas. Como se pudesse empurrar a vida de volta à força. Ele tinha que conseguir fazer isso.
Não parecia adiantar.
— Aguiar – disse, inclinado sobre ele. A voz baixou, perdeu a dureza. – Fica comigo. Você não pode…
Henri já estava com lágrimas nos olhos quando Kemi chegou perto deles. Foi o primeiro a correr para os braços da mulher.
— Tá dando certo? – Kemi perguntou.
Labirinto fez outra insuflação de ar. O tempo parecia errado. Elástico. Cada segundo longo demais. Não sabia a quanto tempo estava fazendo aquilo. Segundos pareciam horas.
O medo já tomava conta de Labirinto quando parou de fazer a massagem cardíaca. Ele mesmo já estava chorando.
Então Aguiar arqueou o corpo com violência.
Um engasgo seco, quebrado. Ele virou o rosto para o lado, tossindo com força, água e sangue escapando de sua boca enquanto o corpo tremia inteiro.
— PORRA! – Jae gritou, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Aguiar mal conseguiu abrir os olhos com a claridade do Sol. Apenas permaneceu com eles fechados enquanto puxava o ar como se estivesse aprendendo a respirar pela primeira vez. Cada inspiração era um golpe doloroso no peito. Ardida. Dolorosa. Desesperada. Mas real. Viva.
Labirinto soltou o ar que nem tinha percebido que estava prendendo, aliviado. As mãos ainda tremiam quando segurou o rosto de Aguiar, esperando até que ele se acostumasse com a luz do Sol para poder o obrigar a olhar para ele.
— Olha pra mim – disse, firme, mas a voz traiçoeira. – Aguiar. Olha pra mim – após um certo esforço por parte do delegado, ele finalmente olhou. Seus olhos estavam arregalados. Quase sem vida. – Você tá fora da água. Acabou.
Os olhos de Aguiar estavam arregalados, desfocados como se ainda não acreditassem que estava ali. Que estava vivo. O corpo ainda estava em pânico, mesmo com o perigo longe. Ele tentou falar, mas só conseguiu tossir de novo, o som quebrado, frágil.
Kemi soltou o ar com alívio ao ver Aguiar respirando, ela levou a mão à boca por um segundo, os olhos marejando.
— Puta que pariu… – Kemi murmurou.
Henri parou ao lado de Pomba, que estava abraçado às próprias pernas, tremendo. O garoto não desviava o olhar de Aguiar, como se precisasse ter certeza de que ele ainda estava ali.
— Deu tudo certo, Pombinha – Henri disse.
Aguiar finalmente conseguiu focar em tudo o que estava acontecendo à sua volta. Sua visão finalmente havia voltado totalmente, apesar da forma dolorosa que sua cabeça latejava.
A primeira coisa que viu foi Labirinto.
Depois Jae, Henri, Pomba e Kemi.
Sua família.
O choro veio antes mesmo de raciocinar o que havia acontecido. Silencioso, pesado, sacudindo seu corpo enquanto ele tentava puxar ar entre soluços involuntários.
Kemi puxou-o para perto em um abraço, sem perguntar, segurando-o com firmeza, como se pudesse impedir o mundo de tentar levá-lo de novo.
— Tá tudo bem, Aguiar – disse ela, baixo, repetindo como um mantra. – Você tá aqui. A gente te pegou. Você não está sozinho.
Aguiar não respondeu. Não conseguia. Mas se agarrou a ela com força suficiente para provar que estava vivo. Mesmo sabendo que parte de si havia sim morrido naquela manhã.
