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Quando criança, Cleo Brisa sonhava em se tornar policial. Ela sabia ser uma carreira perigosa, mas a região de Inquisidor do Vale nunca fora perigosa ao ponto de esse desejo assustar sua mãe. Ela sonhava com o dia em que chegaria em casa e diria à mais velha que realizou seu sonho graças ao apoio dela, sonhava em vê-lá sorrir orgulhosa.
Mas esse sonho acabou quando ela tinha 19 anos. A senhora Helena Brisa faleceu sem compartilhar a felicidade da filha.
Cleo lidou com isso da melhor forma que encontrou. Ela agora não deveria apenas conseguir entrar para a polícia local, ela deveria ser a maior e melhor delegada da região interiorana e tradicionalista em que sempre viveu com sua mãe.
Quando enfim conseguiu ingressar na delegacia local, encantou-se pelo delegado Jonas Aguiar. Via-o como uma base sólida, um pilar essencial para manter a paz na cidade. Por muito tempo, Cleo confiou cegamente no homem.
Isso até perceber a imensa quantidade de casos arquivados por ordem dele. Dezenas, talvez centenas de homicídios e massacres ocorridos nas regiões ao redor da cidade. Fazendas, acampamentos, zonas de caça autorizada, cada uma delas tinha pelo menos um assassinato violento remontando à pelo menos três décadas atrás.
Era isso, a oportunidade que a faria decolar em sua carreira. Em primeiro momento sentiu-se culpada por se aproveitar de tantas mortes para isso, mas também sabia que precisava fazê-lo. Por si mesma e pelas inúmeras injustiças cometidas nesses casos.
Investigando mais a fundo, notou que o padrão começava na mesma época em que Aguiar começou na polícia. Talvez antes. Não havia mais nenhum suspeito que tivesse capacidade física ou conhecimento sobre o funcionamento interno de uma delegacia que poderia ter mantido isso por esse período de tempo.
Sentiu-se traída. Mesmo a suspeita de que o homem que tinha como inspiração pudesse ter feito tudo isso deixou-a enojada. Cleo impôs uma missão a si mesma: descobrir a verdade sobre o Delegado Aguiar.
Ela sabia do estereótipo das loiras, mas era inteligente o suficiente para saber que jamais conseguiria provar nada por meios convencionais. Precisava de esperteza para juntar provas contra um homem tão importante.
Então Cleo aproveitou-se da mente fechada do homem. Utilizou do pensamento retrógrado e machista do moreno para fazê-lo confiar nela, mesmo que pouco.
Brisa tornou-se quase seu braço direito. Jonas contava com ela para liderar quando ele não estivesse e raramente saía para atender ocorrências sem aquela que era sua parceira não oficial.
Confiança profissional ganha, Cleo agora precisava aproximar-se dele de forma pessoal.
Aguiar, apesar do porte físico, aparentava ser um homem clássico de sua região: fingia ser o homenzarrão macho alfa, mas cedia controle à mulher na primeira oportunidade. Do tipo que apenas segue o fluxo que a companheira dita.
É o que parece, não é como se ela o conhecesse de verdade.
Cleo começou pequeno. Tocando mais do que o necessário, conversando com mais frequência, agindo com mais intimidade do que eles realmente tinham. Especialmente na frente de terceiros.
Conhecia muitas famílias que se formaram por vergonha de rumores de romances não assumidos. Ela queria se tornar uma delas, apenas por tempo o suficiente para confirmar suas suspeitas sem poder ser acusada de cumplicidade.
Aguiar jamais reclamou ou mandou-a mudar de atitude. Aparentemente seu plano estava dando certo.
Então ela ousou. Passava noites prendendo-o ao local de trabalho, conversando sobre besteiras de menos importância. Era mais unilateral do que qualquer outra coisa, mas enchia o saco dele o suficiente para que ele a mandasse organizar papelada nos arquivos. Exatamente o que ela queria para recolher amostras da provas e mandá-las para laboratórios particulares e revisar testemunhos.
O dossiê estava pronto, ela só precisava de uma coisa mais certeira do que provas que poderiam ser lidas como coincidências. Precisava de algo como uma confissão, comprometedor o suficiente para convencer a Corregedoria a iniciar uma investigação completa.
Naquela tarde, Cleo ficou responsável por lidar com alguns casos menores no lugar do Delegado enquanto ele levava seus cachorros ao veterinário. Tinha pena dos doutores, aquelas criaturas eram assustadoras.
— Pessoal, vou resolver algumas coisas para o Delegado, se precisarem de algo não hesitem em me chamar.
— Hmm, vai lá, futura senhora Aguiar, deixa tudo comigo que vai dar bom. - Disse Jaime, um homem em seus cinquenta anos que trabalhava no escritório do lugar há décadas.
— Isso, vai, aproveite suas vantagens de namoradinha do chefe. - Lucas, que ingressou há dois anos, cuspiu. Invejoso, passava seu tempo livre tentando envenenar seus colegas contra Cleo em vez de tentando crescer na carreira.
— Embora não precise, vou aproveitar sim. Diferente de certas pessoas, eu não preciso de atalhos para alcançar o que eu quero. - O rosto pardo do garoto endureceu.
A sala calou-se. Todos sabiam que sua vaga lá fora comprada, mas ninguém falava nada. As pessoas de Inquisidor do Vale pareciam viver de suas reputações e tratavam qualquer escândalo como o fim de suas vidas, mas, afinal, isso era verdade até certo ponto.
“Eita” Sussurrou alguém, iniciando um burburinho enquanto Cleo virava as costas e entrava no escritório particular de Aguiar.
Usava essas ocasiões para minar o computador do Delegado. Analisava seus e-mails, arquivos, pastas e tudo mais que pudesse encontrar.
Deixou as persianas abertas. Mostraria aos outros que merecia sentar-se na cadeira mais confortável do prédio, que era de confiança para alguém fechado como Aguiar. Calaria a boca de todos que, secretamente, pensavam como o imbecil Lucas.
Caminhou para trás da mesa e sentou-se na cadeira de couro marrom, puxando um caderno, alguns documentos e abrindo o computador.
M.N.E.X.+-DUO digitou a senha estranha do dispositivo, sentido que estava deixando algo óbvio escapar, mas ignorou e começou seu trabalho.
Automaticamente, deslizou o mouse para as abas abertas do Word para preencher os relatórios da manhã, mas seus olhos travaram no ícone verde aberto na barra de atalhos.
Impossível.
WhatsApp. As malditas conversas pessoais do possível homem mais perigoso do estado estavam abertas, logadas na tela à sua frente.
Lançou um olhar discreto para a janela, confirmando que ninguém a observava. Abriu o aplicativo e viu que uma conversa mandou duas mensagens.
Antes de abrí-las, porém, leu o nome dos outros contatos.
Veterinário
Tô indo deixar elas ✔️✔️
Carlos Birinto
Daqui duas semanas já é lua ver…
DALMO MOTORISTA
É PRA IR BUSCAR VOCÊ NO…
Rosângela costureira
Sua camisa tá pronta, ficou 15 re…
A conversa com o tal Carlos parecia a única levemente estranha, afinal, Cleo não conhecia nenhum Sr. Birinto na cidade e conversas sobre a lua eram bem estranhas. Aguiar não parece ser o tipo que acredita em superstições ou teorias da conspiração sobre lobisomens.
Cleo não julgaria muito, apesar de ser bastante cética. Talvez fosse alguma teoria estranha sobre as mortes violentas nas zonas rurais?
Se sua teoria estivesse errada e ele não fosse o assassino, faz sentido que ele busque respostas em lugares onde ninguém pensaria e esteja arquivando os casos para não assustar a população.
Mas Cleo não acredita nisso. Distraidamente, arrancou um pedaço da última página do caderno e anotou o nome e o DDD de Carlos Birinto antes de guardar o papel no bolso.
Enfim voltou os olhos para o nome acima de todos na lista de contatos, vendo a bolinha verde e o horário marcando de chagada da mensagem cerca de três minutos após a saída de Aguiar.
A foto de perfil mostrava alguém de pele clara e cabelos pretos curtos extremamente lisos, exibindo claros traços orientais e uma pinta próxima aos lábios pintados de vermelho. Cleo sentiu que conhecia aquele rosto de algum lugar, mas não conseguiu associá-lo a ninguém em específico.
O nome do contato era, no mínimo, ambíguo. Como se brincasse entre as linhas da ofensa e do carinho. Instigada pela última mensagem recebida, abriu a conversa e começou a ler as mais recentes.
Enjoadinh❌️
| ai vey se decide logo
| vc quer me ter ou só meter??
| desgraçado
| sdds s2
| (se mostrar isso pra alguém ru vou te esfaquear num parque)
| ((ou na minha cama))
< vamo pro acampamento esse natal né?
Cleo estranhou, não era bem esse o contexto que esperava para uma mensagem relacionada a um local isolado nesse momento.
Também não sabia que Aguiar estava com alguém e acha que ninguém mais sabe. Se soubessem, já lhe teriam crucificado ao contrário. Não pode ser alguém de Inquisidor do Vale, ou ela saberia. Todos saberiam e sua carreira estaria acabada.
Aparentemente o Delegado não assumiu relacionamento com essa pessoa, então Cleo não pode ser considerada uma amante, certo?
Antes que pudesse sair da conversa, a palavra online substituiu o online pela última vez abaixo do nome salvo da pessoa do outro lado da tela. Brisa acaba de ficar sem opções. Digitando… aparece, e a loira sabe que precisa fazer algo.
Seu plano não pode desmoronar agora que falta tão pouco! Por via das dúvidas, é melhor fingir que seu namoro com Aguiar é real. Se algo der errado, é a oportunidade perfeita para Cleo sair dessa relação falsa e ter desculpa para não saber com certeza dos crimes de Jonas.
Jonas Aguiar
boa tarde |
primeiramente |
aqui e a namorada dele >
Enjoadinh❌️
| que se foda
| to falando com ele não com você
| enxerida do caralho
< entrosa não corna
Cleo franziu o cenho, sem saber muito bem como agir em uma situação assim. Duvidava que houvesse precedentes para essa situação. O que fazer quando seu namorado falso, que não sabe disso, tem um caso com outra pessoa com quem também não namora (?) e essa pessoa pode ou não estar se preparando para esfaqueá-lo?
Bem, não é realmente problema dela, isso não vai durar por muito mais tempo. As chances de seu plano inteiro sair pela culatra agora são mínimas. Relutantemente, a loira apagou as mensagens que enviara e as respostas a ela antes de voltar para a conversa com Carlos Birinto.
Carlos Birinto
| Não esquece de avisar o Dalmo se você
| precisa que ele te busque ou não
| Porque ele tem que ir logo pra voltar a tempo
< Daqui duas semanas já é lua vermelha
Cleo pegou o papel de volta do bolso e anotou lua vermelha e Dalmo. Não sabia se realmente seria útil para o caso, mas é melhor prevenir que remediar.
Brisa assustou-se quando conversas iniciaram do lado de fora da sala. Distinguiu vagamente a voz de Aguiar e rapidamente fechou a janela do WhatsApp, ficando apenas com os modelos vazios de ocorrências em aberto. Juntou suas anotações o mais rápido que pôde e levantou-se da mesa, mantendo o caderno aberto e fingindo testar várias canetas da mesa do Delegado.
A porta abriu-se e Aguiar a encarou do batente, desviando o olhar para as várias canetas em sua mão.
— Não está roubando minhas canetas, está, Cleo? Vou ter que te algemar? - Ele disse com a voz rouca.
— N..Não, desculpe Aguiar, só estava procurando uma caneta que funcionasse. - Cleo corou levemente, nervosa pelo que acabara de fazer e pela sutil insinuação na voz do cabeludo.
— Então pode ir, leva uma caneta azul, eu gosto das pretas. - Aguiar entrou de vez na sala, indo sentar-se em sua cadeira sem dedicá-la um segundo olhar.
Brisa não respondeu verbalmente, apenas acenou e saiu rapidamente da sala. Ignorou as tentativas de conversa dos colegas e voltou à rotina normal de trabalho, ansiosa para investigar suas novas descobertas após o fim do expediente.
Esperava que a conversa que tivera com Enjoadinh❌️ não causasse problemas ao Delegado, ou ele poderia descobrir que ela leu e respondeu suas mensagens. Não tem espaço para erro faltando tão pouco. Sentia-se estúpida agora, o que lhe deu para responder?!
Mal dormiu naquela noite, fazendo suas pesquisas o mais rápido possível. Não achou nada sobre Carlos Birinto e nem nada realmente relevante sobre a lua, mas descobriu que Dalmo trabalhava como motorista de ônibus de turismo para uma rede de hotéis rica. Parece um progresso, ainda que pequeno.
Na manhã seguinte, ao chegar na delegacia, observou cuidadosamente a forma como Jonas se comportava. Não parecia haver algo diferente, excerto pela postura levemente curvada para a esquerda, como se houvesse um machucado entre as costelas. Mas não ele não aparentava ter sido esfaqueado; uma pessoa normal estaria muito mais debilitada do que ele parece agora.
