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Capítulo I
1984
Ruby Hargrove estava acostumada com o barulho de pessoas bêbadas. Entretanto, ela não podia fazer muita coisa sobre aquilo, sendo a contraparte levemente mais sóbria de seu gêmeo, que estava de cabeça para baixo, bebendo cerveja como se fosse água, enquanto pessoas gritavam o nome dele com animação, ela gostaria de saber se algum deles sequer os conhecia de verdade, mas não importava.
Suspirando, Ruby resolveu simplesmente sair dali, passando por bêbados e garotas com sorrisos falsos, perguntando sobre seu irmão – e não, ela não estava inclinada a ajudar ninguém a ficar com ele, sentia pena de cada uma delas.
Billy Hargrove não era exatamente material para namorado – e Ruby tinha a infeliz carga de conhecimento sobre isso, além do histórico de mulheres de seu irmão não ser exatamente bom.
Ela sorriu quando finalmente achou um canto solitário, descendo a pequena escada que dava acesso à parte de trás do jardim daquela casa – que ela não sabia de quem era. Billy nem sequer a perguntou se queria ir, apenas a derrubou da cadeira, dizendo para vestir algo confortável, porque iriam a uma festa.
— Irmão idiota. — Ruby resmungou.
— Opa, se não é a novata...
Ruby virou o rosto em direção à voz, avistando um garoto de jaqueta de couro e cabelos compridos, notando que ele usava uma camiseta do Scorpions – a única banda em que Billy e Ruby entravam em acordo sobre tudo.
— Eu te conheço? — Questionou, o vendo sorrir.
— Acho que não... Eddie Munson, ao seu dispor. — Com uma reverência exagerada, ele se apresentou, mantendo o sorriso ladino, parecia estar se divertindo.
— Ruby Hargrove. — Ruby fez a mesma reverência, achando cativante quando ele riu, parecia certo. — Então, fugindo da festa também?
— Mais ou menos, este é meu ponto de venda hoje. — O olhar dele recaiu sobre os olhos claros de Ruby, e ela notou um certo brilho de interesse ali, mas resolveu ignorar.
— Tem maconha?
Eddie piscou, acenando em concordância.
— Tenho, sim... — Respondeu, já levando a mão ao bolso da jaqueta. — Só um segundo, e são 20 dólares.
— Sem problema. — Respondeu, encostando no corrimão baixo, observando o movimento distante da festa, enquanto Eddie procurava o baseado com uma calma quase cerimonial.
A música vinha abafada, misturada a gargalhadas e gritos indistintos – e o nome de Billy ainda sendo dito pela multidão. Ruby não ficaria surpresa se metade daquelas pessoas, acorda-se sem voz no outro dia.
— Então.. — Eddie comentou, ainda revirando os bolsos. — Você apareceu do nada, xingou a festa inteira com a cara e já veio direto ao fornecedor oficial, eu respeito isso, mas devo dizer, sua reputação vai pro poço.
Ruby deu de ombros.
— Não tenho paciência pra fingir que tô me divertindo — Retrucou. — Billy é melhor do que eu nisso, além do mais, nunca tive uma reputação boa, então não faz diferença, faz?
— Justo. — Ele concordou. — Hawkins exige uma tolerância alta para sobrevivermos.
Foi nesse momento que uma sombra maior cobriu parte do jardim, Ruby nem precisou virar o rosto para saber quem era.
— Sou o novo rei de Hawkins agora. — Billy anunciou, a voz carregada de álcool e ego.
Ruby fechou os olhos por meio segundo – estava quase rezando por paciência, pra qualquer divindade que fosse, porque ela ia bater em Billy, se sua adorável paciência se esgotasse.
— Quer uma estrela por isso? — Ruby respondeu, virando-se para ele. — Pra enfiar no rabo, juntamente com a coroa?
Eddie congelou no lugar, o baseado finalmente encontrado entre os dedos, mas esquecido no ar. Billy sorriu torto, inclinando a cabeça, analisando a cena – a irmã, o cara estranho de jaqueta de couro, o canto afastado da festa, Billy poderia montar uma cena e tanto, mas sabendo da capacidade da outra, para pular em cima dele e começarem a rolar no chão, socando um ao outro, ele preferiu deixar passar.
— Bela irmandade a sua. — Respondeu, escolhendo não cutucar a onça naquele momento, tinha presas melhores – como um certo servo.
— Tem sorte que eu não chutei você no útero. — Ruby retrucou, sem piscar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eddie alternava o olhar entre os dois, completamente perdido, tentando entender se aquilo era uma piada interna, uma ameaça real ou o tipo de conversa normal entre irmãos que ele definitivamente não tinha – única bênção de seu não adorável pai, não lhe deu irmãos.
— Eu só... — Eddie começou, levantando levemente o baseado. — Vou... ficar aqui... até você pegar a maldita maconha? — Sua afirmação parecia mais uma pergunta, Ruby balançou a cabeça em divertimento, estendendo a mão e pegando o baseado, entregando a Eddie o dinheiro, sem olhar nenhuma vez para Billy, ela não dividiria a maconha, ele que comprasse a sua.
Billy soltou uma risada curta, seca, balançando a cabeça antes de se afastar, já sendo puxado de volta para a casa por alguém gritando seu nome outra vez – provavelmente Tommy Hagan, Ruby não sabia dizer.
— Desculpa por isso. — Ruby comentou, acendendo o baseado com o velho isqueiro.
Eddie piscou, acenando. — Tranquilo. — Respondeu, ainda confuso. — Eu acho, isso foi... intenso pra caralho, vocês são sempre assim?
Ruby deu um meio sorriso.
— Normalmente também saímos na porrada, mas acho que Billy tem outro alvo essa noite, então sim, normalmente somos assim. — Tragando um pouco da maconha, Ruby sentiu seus nervos se acalmarem. — Então, Munson, curte Scorpions pelo visto. — Ruby balançou a cabeça na direção de Eddie.
— Gosta de Scorpions? — Questionou, surpreendido.
— É a única banda que Billy e eu entramos em consenso, depois brigamos com as demais... eu prefiro Mötley Crüe e ele Ratt, e por ai vai. — Ruby afirmou, sentando-se nos degraus. — Se importa de eu ficar por aqui?
— A vontade, o movimento tá fraco hoje. — Eddie respondeu, sentando-se ao lado de Ruby, mexendo nos próprios bolsos, buscando o seu baseado, que estava fumando mais cedo, achando o mesmo em segundos, aceitando o isqueiro de Ruby. — Então, porque saíram da Califórnia pra cá? Viraram assunto do momento.
Ruby sorriu, ladeando a cabeça para e esquerda, num movimento fraco, expelindo fumaça como uma chaminé – Neil a mataria se a visse usando drogas.
— Digamos que Billy e eu, fizemos algo que causou grandes problemas, apesar de Billy dizer que é culpa de Max. — Respondeu.
— Max?
— Minha irmã menor, ela é demais. — Ruby sorriu com orgulho, diferente de Billy, Ruby adorou ter uma irmã menor, Max era simplesmente incrível, o tipo de garota forte que Ruby admirava, ela sabia que sua irmã seria alguém incrível quando se tornasse adulta. — Mas não fale dela com Billy, vai receber o retorno do babaca dele.
— Hum... — Eddie tragou um pouco do baseado, deixando a fumaça ser expelida por seus lábios com calma. — Eu não tenho irmãos, sou só eu e meu tio.
— Quer Billy como irmão? Vendo por um baseado facilmente! — Eddie riu, enquanto Ruby gesticulava, apontando na direção dos sons. — Ele vem com seus próprios seguidores de brinde.
Tendo que tirar o baseado dos lábios, Eddie agarrou a barriga, rindo da sinceridade com que a garota falava, claramente pronta para vender o irmão por maconha.
— Belo amor de irmãos.
— Conviva com aquele idiota e o amor fraterno sai pela culatra. — Ruby afirmou, sentindo a maconha a acalmar, finalmente a dando paz. — Às vezes, penso que Billy só quer brigar.
— Muita raiva?
— Muita é eufemismo, ele é quase composto disso. — Afirmou. — Às vezes eu acho que sou o quinto doutor, com meu irmão sendo um cybermen conspirando para sabotar uma conferência de paz na Terra no ano 2526.
— Pera... você conhece Doctor Who? — Ruby piscou, vendo a expressão de choque de Eddie.
— Mas é claro que conheço. — Ruby arqueou a sobrancelha, o baseado pendurado na mão direita, o olhar quase perguntando se Eddie Munson havia batido a cabeça na parede. — Você acha que eu sou o quê, um ser humano sem cultura?
— Ei, calma aí, não disse isso! — Erguendo as mãos em sinal de paz. — Só estou surpreso, a aparência não condiz muito com o gosto, só isso, você me surpreendeu.
Agora foi a vez de Ruby rir, balançando a cabeça em divertimento.
— É, eu imagino isso, foi minha falecida mãe que me apresentou Doctor Who, ela gostava, e depois que ela se foi, passei a gostar também, é legal imaginar um mundo fora da realidade, ajuda a não surtar.
— Concordo. — Eddie assentiu. — Já jogou D&D?
— Nem uma vez, parece que eu assusto garotos nerds. — Ela pontuou, o olhar cruzando-se com o dele.
— Muito bem, Hargrove. — Eddie sorriu. — Você não me assusta, vou te ensinar a jogar Dungeons & Dragons como uma profissional!
O sorriso dele era tão vivo que Ruby se perguntou como alguém conseguia sorrir daquele jeito – e, pela primeira vez naquela noite, sentiu-se genuinamente animada com a ideia.
— Muito bem, Munson. — Respondeu. — Conto com você.
