Work Text:
O Ônibus zumbia baixo enquanto reabastecia em uma pista discreta no meio do nada no Meio-Oeste americano. Dentro da sala de operações, o brilho azul dos hologramas iluminava os rostos sérios de Melinda May e Phil Coulson. Eles estavam analisando uma pilha de relatórios recentes sobre movimentações da Hydra na Europa Oriental.
May, com o cabelo preso num rabo de cavalo impecável, parecia irritado enquanto deslizava os dedos pela tela do tablet com precisão cirúrgica. Cada dia era mais difícil trabalhar na detecção de organizações malignas focadas em construir super soldados do mal.
— Esses relatórios da divisão europeia são inconsistentes — disse ela, voz seca como sempre. Apontou para o mapa holográfico. — Os movimentos da Hydra não batem com as informações da semana passada. Ou alguém foi descuidado, ou estamos perdendo alguma peça.
Coulson, encostado na mesa com os braços cruzados e aquele sorrisinho de quem já sabe que vai ter dor de cabeça, assentiu devagar.
— Podem ser as duas coisas. Ward costumava dizer que “inconsistência é o perfume da traição”. Claro, ele falou isso enquanto era o maior traidor da sala, então… talvez não seja o melhor parâmetro.
May manifestou uma sobrancelha, mas não respondeu. Era o mais próximo de um “engraçadinho” que Coulson iria conseguir hoje. Foi quando três batidas rápidas e ansiosas ecoaram na porta automática.
Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer “entre”, a porta deslizou e Skye, Fitz e Simmons praticamente tropeçaram uns nos outros tentando entrar ao mesmo tempo. Skye vinha na frente, braços cruzados, tentando parecer casual, Fitz vinha logo atrás, empurrando Simmons levemente para o lado como se fosse uma corrida invisível, Jemma, com as mãos juntas na frente do corpo, parecia estar pronta a fazer uma apresentação de ciências na escola.
May e Coulson se entreolharam, conscientes da dor de cabeça que aquilo poderia significar: falando dos três, eles poderiam ter quebrado o motor do avião ou derrubado uma agência governamental com um clipe de papel, nunca dava para saber. O diretor suspirou fundo, já esperando pelo pior.
— O que foi? — May disse, voz baixa, já em modo alerta. — Alguém morreu? Alguém explodiu alguma coisa? De novo?
– Fala, Skye. — Fitz engoliu em seco e deu um empurrãozinho nada sutil em Skye. —Você que teve uma ideia brilhante.
- EU? — Skye virou o rosto pra ele com cara de quem não acreditou no atrevimento. - EU? Você que ficou meia hora falando que “sorvete é o único prazer puro que resta na vida adulta moderna”!
— Eu estava sendo poético! — Fitz defendeu-se, erguendo os braços dramaticamente. — Poesia não conta como ideia, conta como… arte!
Simmons revirou os olhos e deu um passo à frente, tentando bancar a adulta responsável.
— Pessoal, por favor. Vamos ser civilizados. — Ela pigarreou, olhando para Coulson e May como se estivesse prestes a pedir permissão pra ir ao banheiro. — A gente só queria… hum… perguntar uma coisa.
May cruzou os braços, o silêncio dela era mais ameaçador que qualquer grito. Coulson apenas pediu desculpas, claramente se divertindo.
— Vocês três estão parecendo crianças de dez anos tentando convencer os pais de que não quebraram o vaso da sala de estar. Anda logo, desembuchem.
Fitz e Skye se entreolharam.
Skye deu de ombros.
Fitz balançou a cabeça.
Simmons abriu a boca, fechou, abriu de novo.
May perdeu a paciência em exatos três segundos.
—Alguém. Abra. A. Boca. Agora.
Skye respirou fundo, descontraído o queixo e soltou tudo de uma vez:
— A gente quer ir comprar sorvete enquanto o Ônibus está reabastecendo.
Silêncio.
Silêncio absoluto.
Coulson piscou devagar. Pode nem piscou.
— Sorvete? — repetiu Coulson, como se estivesse testando a palavra pra ver se fazia sentido.
— É — Skye confirmou, tentando parecer confiante. — Tem uma cidadezinha a uns dez minutos daqui. Tem uma sorveteria que o Trip viu no TripAdvisor e disse que tem um sabor chamado “Chocolate Explosivo com pedaços de brownie e calda quente”. Tipo… a gente merece, né? Depois de tudo.
Fitz assentiu vigorosamente.
— E eles têm sorvete de chá earl grey! Chá! No sorvete! Isso é basicamente um presente para os inglêses, Jemma!
Simmons extravasou as mãos, exasperado.
— Eu não disse que era um presente! Eu disse que era… intrigante do ponto de vista organoléptico!
Pode massagear a têmpora esquerda, certamente irritada.
— Vocês têm noção de que não têm treinamento tático básico pra operação em campo? — disse Coulson, tentando soar sério, mas o canto da boca dele já estava tremendo de vontade de rir.
— A gente não vai entrar em campo! — Skye protestou. — A gente vai entrar numa sorveteria! É diferente!
— É uma operação de aquisição de sobremesa gelada — Fitz completou, sério, como se estivesse lendo um relatório oficial. — Objetivo: maximizar níveis de felicidade em três jovens agentes. Risco: baixo. Recompensa: altíssima.
Simmons encaru Coulson com olhos de cachorrinho abandonado.
— Por favor, diretor. A gente só quer ser… jovens adultos felizes. Por cinco minutos. Cinco minutos de normalidade. Sem alienígenas, sem explosões, sem alguém tentando nos matar. Só sorvete.
Coulson olhou para os três. Skye fazendo biquinho sem perceber. Fitz com as mãos juntas como se estivesse rezando. Simmons com aquele olhar de quem já estava calculando o ângulo ideal para implorar.
Ele soltou um suspiro teatral.
— Vocês sabem que não podem sair assim, pelo menos não sem supervisão.
— A gente sabe se cuidar! —Skye exclamou.
— Skye vai cuidar da gente! — Fitz acrescentou rápido, apontando pra ela como se ela fosse o Capitão América.
- EU? — um Hacker virou para o amigo — Eu mal consigo cuidar do meu próprio cabelo em dia de umidade!
— Pois é, então imagine a gente — o engenheiro rebateu. — A gente precisa de você.
Coulson não aguentou. Deu uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Tá bom, tá bom. Vocês três podem ir… — ele fez uma pausa dramática — …se a May for junto.
Os três congelaram, trocando olhares, como se estivessem avaliando os riscos. Então explodiam, falando uns por cima dos outros.
— POR FAVOR, MAY! — Skye praticamente conjuntamente, juntando as mãos.
— Melinda, por favorzinho! — Simmons fez voz fina de criança.
Fitz, num movimento que ninguém esperava, literalmente caiu de joelhos no chão da sala de operações, mãos interpeladas pra cima como se estivesse implorando pela vida.
— Agente May… minha deusa das artes marciais, rainha do silêncio e piloto suprema… tenha piedade de três pobres almas que só querem um pouquinho de felicidade cremosa e gelada!
May olhou pra baixo, avaliado a cena cômica de Fitz de joelhos, Skye praticamente pulando no lugar e Simmons mordendo os lábios inferiores com força pra não rir. Ela nunca presumiu que isso aconteceria com ela, nem sob fosse tortura, mas eles eram uma fofura.
Ela tentou. Tentei mesmo manter a cara de pedra.
— Isso é ridículo — murmurou.
— É adorável — Coulson corrigiu, sem disfarçar o sorriso.
May fechou os olhos por dois segundos inteiros, respirando fundo, quase como quem perde uma batalha.
— Vocês são insuportáveis. —Mais silêncio se fez presente, carregado apenas pelos olhos brilhantes de três crianças geniais — Dez minutos. — ela abriu os olhos — Só dez minutos. Se atrasarem um segundo que seja, eu faço vocês lavarem o ônibus inteiro com escova de dente.
Os três gritaram ao mesmo tempo, empolgados demais para conseguir conter a alegria. Foi um som que provavelmente foi registrado em alguma estação sísmica na próxima.
Skye pulou e abraçou May pela cintura antes que o agente pudesse reagir. Fitz se declarou num pulo e deu um abraço desajeitado nos dois e Simmons ficou na ponta dos pés e deu um beijinho estalado na bochecha de May. Coulson não pode evitar sorrir com a alegria das três crianças do ônibus com uma coisa tão simples como sorvete, o coração acelerando ao ver como eles conseguiram se infiltrar no coração de certa piloto.
— Você é a melhor, May! A melhor do mundo! —Skye exclamou.
— A gente te ama! — Fitz acrescentou.
— Muito mesmo! — Simmons completou.
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May ficou parado, braços rígidos ao lado do corpo, o rosto vermelho como nunca ninguém tinha visto.
— Saiam. De cima. De mim — ela disse, voz baixa, mas sem nenhuma verdade.
Coulson ria tanto a essa altura que teve que se apoiar na mesa.
— Vão logo antes que ela mude de ideia e decida que vocês vão treinar artes marciais em vez de comer sorvete.
Os três saíram correndo, tropeçando uns nos outros de novo na porta. Skye gritou um “TE AMO, MAY!” enquanto desapareciam pelo corredor. May ficou parada, olhando pra porta fechada, expressão de quem acabou de sobreviver a um ataque surpresa. Coulson se moveu devagar para o lado dela, ainda rindo.
— Admita. Você achou eles fofos.
— Eu não achei nada — May respondeu, seca.
— Você deixou eles te abraçarem. Três de uma vez.
— Foi um momento de fraqueza.
— Você corou.
— Eu não corei.
—Corou sim. — Coulson deu uma tapinha leve no ombro dela. — Bem-vinda ao clube dos pais adotivos exaustos, Melinda.
May bufou, mas o canto da boca dela subiu. Só um pouquinho.
— Se eles voltarem com sorvete na cara, a culpa é sua — ela avisou.
— Combinado — Coulson respondeu, sorrindo como um pai orgulhoso.
Lá fora, no corredor, dava pra ouvir os três discutindo animadamente quem ia pedir qual sabor, quem ia pagar, e se May aceitaria um copinho de sorvete de baunilha (ela aceitaria, mas nunca admitiria para ninguém).
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A cidadezinha era daquelas que parecia um cartão postal antigo: casinhas com jardinzinhos floridos, uma rua principal com lojas que vendiam de tudo um pouco, e uma sorveteria chamada "Gelados do Paraíso" que cheirava a baunilha e chocolate a quarteirões de distância. O sol do fim da tarde batia quente no asfalto, mas o ar condicionado da loja prometia um resfriamento gelado. Melinda May marchou na frente, com sua jaqueta preta e óculos escuros, parecendo mais uma agente secreta em missão do que uma babá de três jovens adultos hiperativos. Atrás dela, Skye, Fitz e Simmons tagarelavam como se o mundo estivesse prestes a acabar e o sorvete fosse o último recurso de salvação.
— Eu vou pegar o de chocolate explosivo com certeza! — Skye exclamou, pulando um pouquinho no lugar enquanto andavam. Ela balançava os braços como se estivesse conduzindo uma orquestra invisível. — E pra levar pra casa? Ah, talvez morango com pedaços de fruta de verdade. Ou não, menta com chocolate! Ou os dois!
Fitz, com as mãos nos bolsos da calça jeans surrada, balançou a cabeça dramaticamente.
— Morango? Skye, morango é pra amadores. Pra levar pra casa, eu vou de pistache com nozes caramelizadas. É sofisticado, sabe? Tipo, eu sou um engenheiro, preciso de sabores que combinem com meu cérebro gigante.
Simmons deu uma cotovelada leve nele, rindo.
—Seu cérebro gigante? Fitz, na última missão você confundiu o estabilizador com o controle remoto do drone e quase derrubou o ônibus inteiro. Pra mim, pra levar pra casa vai ser limão siciliano com manjericão. É refrescante e tem um toque herbáceo que equilibra o paladar.
— Herbáceo? — Skye repetiu, fingindo um sotaque britânico horrível. — Olha só a doutora Jemma aqui, usando palavras chiques pra sorvete. Eu acho que você deve levar a baunilha clássica, pra combinar com sua personalidade certinha.
— Ei! — Simmons protestou, mas com um sorriso. — Baunilha é subestimada! É a base de tudo!
May, que andava uns passos à frente, virou a cabeça só o suficiente para dar um olhar de "comportem-se" pros três. Ela estava tentando manter a compostura, mas o canto da boca dela já tremia levemente.
Eles são como filhotes de cachorro hiperativos, ela pensou. Filhotes de cachorro hiperativos que sabem hackear sistemas e construir armas. Mas no fundo, descobriu que achava aquilo tudo... fofo. Irritantemente fofo.
Eles entraram na sorveteria, e o sininho da porta tilintou alegremente. O lugar era pequeno, com mesas de ferro pintadas de branco, um balcão cheio de potes coloridos de sorvetes expostos atrás de um vidro, e uma atendente de meia-idade com um avental florido e um sorriso que parecia permanente. Ela acenou animadamente.
— Boa tarde! Como vão vocês? Bem-vindos aos Gelados do Paraíso! O que vai ser hoje? Temos promoções em sabores de frutas da estação!
Skye foi a primeira a se jogar no balcão, olhos brilhando como se tivesse encontrado o Santo Graal.
— Tudo! Eu quero tudo! Mas pra começar, uma casquinha de chocolate explosivo com calda extra e granulado!
Fitz se espremeu ao lado dela, apontando pro pote de pistache.
— Eu quero provar o de chá Earl Grey primeiro. Tem amostra grátis?
Simmons ficou na ponta, analisando os rótulos como se fossem amostras de laboratório.
— Eu gostaria de uma bola de limão siciliano, por favor. E... hum, você usa ingredientes orgânicos?
Uma atendente, cujo crachá dizia "Dona Maria", riu baixinho.
— Orgânicos? Aqui é tudo fresquinho, minha querida. Prove e diga-me!
Enquanto Dona Maria servia as amostras, os três se sentaram numa mesa redonda no canto da sorveteria. May ficou de pé, encostada na parede, braços cruzados, vigiando tudo como se esperasse um ataque surpresa da Hydra a qualquer momento, enquanto os três já estavam no modo "crianças em loja de doces".
Skye pegou um refrigerante que veio junto com o sorvete e começou a bater o canudo na mesa distraidamente, fazendo um barulhinho ritmado. Toc-toc-toc. Fitz, que estava tentando ler o menu na parede, virou pra ela com cara de irritado.
— Skye, para com isso! Eu estou tentando me concentrar nos sabores pra levar pra casa!
— Concentrar? — a hacker rebateu, batendo mais forte de propósito. Toc- toc-TAP. — Você tá babando no pote de nozes. Toma, experimente bater também, é relaxante! — Ela esticou o braço e deu uma batidinha leve com o canudo na cabeça de Fitz.
— Ei! — o engenheiro reclamou, fingindo muito exagerado. — Isso é agressão! Jemma, me defende!
Simmons riu, mas tentou se inclinar pra frente pra ver o balcão melhor. Só que Fitz, na brincadeira, esticou o braço na frente dela, tampando sua visão.
— Não, Jemma, você não pode ver! Eu vou escolher primeiro o melhor sabor pra levar!
— Fitz! Para de tampar minha visão! Eu estou tentando decidir entre o de manjericão e o de framboesa pra casa!
May observava tudo aquilo com uma mistura de combustão e diversão reprimida. Era como se ela fosse a mãe de três adolescentes bagunceiros. Respirou fundo, contando até três mentalmente, e finalmente resolveu interferir.
— Skye! Para de bater com o canudo no Fitz. Agora.
A hacker congelou no meio de outra batida, olhando pra May com olhos inocentes.
— Mas eu só tava...
— Não. — May cortou, voz firme como sempre. Depois virou para Fitz. — E você, para de tampar a visão de Jemma. Vocês não são crianças de cinco anos, então, parem de agir como tal!
Fitz baixou o braço rapidinho, murmurando um "desculpa" baixinho, mas com um sorriso malicioso. Simmons deu uma piscadinha pra ele, mostrando que era tudo brincadeira e Skye, apesar de revirar os olhos, sorria de lado com a repreensão da mulher mais velha.
Dona Maria, que observava o balcão enquanto preparava os sorvetes, soltou uma risada calorosa.
— Ah, que gracinha! Seus filhos são adoráveis, senhora. A adolescência é assim mesmo, né? Brigam por bobagem, mas no fundo se amam. É definitivamente uma fase intensa, mas aproveita porque daqui a pouco eles já estão na faculdade e indo embora.
May piscou, surpresa. Filhos? Dela? Aqueles três malucos?
— Não, eles não são meus filhos... — ela começou, tentando discordar, mas Dona Maria já estava balançando a cabeça, ainda sorrindo.
— Ah, não precisa ter vergonha das crianças! Olha só pra eles, tão cheios de energia. — a senhora sorriu, amorosa, batendo palminhas —Eu tenho três netos assim, brigam o dia todo, mas na hora do sorvete viram anjinhos. O que vai ser pra senhora? Um de baunilha clássico? Mães como você merecem algo simples e reconfortante.
May sentiu o rosto esquentar. Vergonha? Ela, Melinda May, a Cavaleira, corando por causa de uma atendente de sorveteria? Respirou fundo de novo, tentando não surtar. Fica calma, Melinda. É só uma confusão inofensiva. Mas no fundo, uma parte dela desejava que aquilo fosse... real.
Enquanto isso, três pestinhas que tinham ouvido tudo estavam se segurando pra não rir alto. Skye mordia os lábios, Fitz fingia tossir e Simmons cobria a boca com a mão.
— MamaMay! — Skye sussurrou, provocativa, mas com um tom carinhoso. — Você ouviu? Somos seus filhos adoráveis!
— Cala a boca, Skye — May murmurou, mas sem veneno na voz. Ela se moveu na mesa, tentando ignorar o rubor nas bochechas.
A briga recomeçou quando Dona Maria trouxe os sorvetes. Skye pegou o dela e começou a lamber animadamente, mas logo cutucou Fitz com o cotovelo.
— Ei, Fitz, me dá uma provadinha do seu pistache ou chá sei lá o quê? Pra eu decidir se levo pra casa também.
— Não! — Fitz defendeu seu casquinho como se fosse um tesouro. — Pega o seu próprio!
— Mas só uma lambidinha! — Skye insistiu, esticando a língua de brincadeira.
O engenheiro revirou os olhos mas logo cedeu, esticando o sorvete para a amiga, que provava feliz. Em uma represália, Fitz se esticou para frente e lambeu o sorvete de Skye que, incrédula, sujou todo o rosto do amigo. May, que observava a cena pronta para interferir na briga, suspirou e pegou mais guardanapos na mesa.
Meio sem jeito, Melinda puxou o rosto de Skye para cima, limpando o nariz, a boca e o queixo da hacker. Skye, momentaneamente sem palavras, apenas apreciou o carinho, atenta aos olhos castanhos da agente. May também pegou outros guardanapos e passou rapidamente pela bochecha de Fitz, se recusando a estar com alguém que tinha tanto sorvete no rosto.
— O sorvete é para comer e não para ficar passando no rosto um do outro! — May revirou os olhos, fingindo irritação — Se continuarem brigando, eu nunca mais trago vocês para tomar sorvete.
Skye mordeu os lábios, se controlando para não revidar, mas a expressão risonha era tudo que May precisava saber. A hacker trocou um olhar significativo com Fitz, como se estivesse se perguntando se ele também estava pensando a mesma coisa que ela.
— Desculpa — murmurou timidamente Skye, sorrindo sarcástica — MamaMay!
Fitz deu uma risadinha, não aguentando a piada da amiga.
— Sim, desculpa, mamay! — Ele sorriu satisfeito com a piada, batendo a mão na de Skye em forma de cumprimento.
Melinda revirou os olhos novamente, mas não chamou a atenção deles para a brincadeira, negando se importar com o apelido. Simmons, no meio deles, tentou mediar.
— Pessoal, vamos decidir os sabores para levar. Eu acho que levo o de limão e o de framboesa. Dois potes pequenos.
—Dois? — Fitz exclamou. — Eu quero três! Chocolate, pistache e Earl Grey pra casa!
— Três? Você vai virar uma bola ambulante! — Skye riu, batendo de leve no braço dele com o canudo de novo.
May perdeu a paciência ao ver a discussão reiniciar, com cada um defendendo seu ponto de vista sobre sabores de sorvete. Skye estava agitada demais, pulando na cadeira como se tivesse tomado café triplo. May esticou o braço e segurou o ombro dela firmemente, mas com gentileza, pra mantê-la no lugar.
— Chega. Todos vocês. — Ela disse, a voz baixa mas autoritária. Skye parou imediatamente, olhando pra cima com olhos de cachorrinho. May continuou segurando ela pra evitar mais bagunça. — Cada um pode escolher um sabor pra levar pra casa e um pra comer no caminho de volta. Só isso. E comportem-se, ou eu cancelo tudo.
Os três se calaram por um segundo, mas logo os olhos de Fitz se iluminaram como faróis.
— Um pra levar e um pra comer? Tipo, potes grandes? — Ele disse, voz esperançosa, inclinando a cabeça como um filhote pedindo carinho.
Melinda bufou, tentando manter a cara séria. Mas aqueles olhos... aqueles olhos de "por favor, mamãe May" eram muito mais persuasivos do que ela imaginava.
Como poderia negar alguma coisa quando eles faziam aqueles olhos de cachorrinho para ela?
— Tá bom. — a agente mais velha cedeu — Potes grandes. Mas amanhã vocês três vão correr dez milhas pra perder o peso extra. Eu mesmo vou cronometrar.
— Eba! — Fitz concordou, pulando da cadeira e dando um abraço rápido em maio antes que ela pudesse reagir. — Você é a melhor mãe... quer dizer, a melhor agente do mundo!
Skye, ainda sendo segurada pelo ombro por May, riu e se inclinou pra dar um beijinho na bochecha dela.
— Obrigada, May! Eu levo o de menta com chocolate pra casa e como o explosivo no caminho. Você quer um pote também? De baunilha das mães, como a Dona Maria disse?
— Eu não sou mãe de vocês — May resmungou, mas deixou eles a abraçarem novamente, fingindo estar irritada com o carinho. No fundo, achava tudo aquilo lindo. Eles eram como irmãos: implicantes, brincalhões, mas carinhosos.
Fitz implicava com Simmons, mas logo depois ajeitava a cadeira pra ela. Skye cutucava Fitz, mas dividia o sorvete com ele. E com ela... eles eram ainda mais doces, como se soubessem que por trás da casca dura, tinha alguém que se importava. Se importava até mais do que deveria...
Simmons se juntou ao abraço grupal, sussurrando.
— A gente te ama, May. De verdade. Mesmo que você tenha achado que não.
Melinda tentou não sorrir. Tentou mesmo. Mas falhou miseravelmente. Um sorriso pequeno, mas genuíno, apareceu no rosto dela enquanto se dirigia para pagar a conta no balcão, incrédula com suas próprias atitudes. Dona Maria piscou pra ela, como se estivessem compartilhando um segredo.
— Viu? Filhos adoráveis! Aproveite enquanto são assim.
— Eles não... ah, deixa pra lá — May murmurou, ainda corada, mas com um brilho nos olhos.
Ela não queria mesmo dizer que não era mãe daqueles três jovens implicantes, geniais e brilhantes... ela sabia que, no fundo, eles eram dela e sempre seriam.
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Enquanto saíam da sorveteria, com potes de sorvete nas mãos e casquinhos derretendo, os três continuaram tagarelando.
— Fitz, me dá uma colherada do seu! — Skye pediu, correndo atrás dele.
— Só se você me der do teu! — Fitz rebateu, correndo em círculos.
— Vocês dois são impossíveis! — Simmons riu, mas se juntou à perseguição. — Eu também quero sorvete dos dois!
May caminhava atrás, balançando a cabeça, mas sorrindo abertamente agora. Talvez ser mãe adotiva não seja tão ruim, pensou ela. Pelo menos não é tão ruim se forem só por dez minutos.
No caminho de volta pro Ônibus, Skye se encostou no braço de May, Fitz do outro lado da amiga, e Simmons andou de mãos dadas com May por um trecho. Eles eram uma família bagunçada, mas ainda eram uma família. E May, por mais que tentasse negar, adorava cada segundo.
Coulson, esperando no ônibus, provavelmente ia rir por horas quando ouvisse a história de como a dona da sorveteria achou que eles fossem filhos da agente mais velha e como Melinda corou com as palavras da doce senhora.
Skye virou pra May de repente, como se tivesse acabado de lembrar de algum detalhe muito importante.
— Ei, mamaMay... quer dizer, May... o que você acha de levarmos sorvete pro Coulson também? Tipo, um pote de surpresa?
— Boa ideia! — Fitz comemorou. — Ele adora o de caramelo salgado.
— Perfeito! — Simmons acrescentou. — Vamos voltar rapidinho?
May revirou os olhos, mas parou e virou de volta pra sorveteria, sem reclamar.
— Tá bom, vamos levar só mais um pote. E nada de brigas.
— Prometido! — Os três disseram em uníssono, como crianças obedientes.
Dona Maria, vendo eles voltarem, riu alto.
— Ah, a família voltou! O que vai ser dessa vez?
May só suspirou, mas com um sorriso. Pensar neles como uma família já não era tão estranho.
Enquanto andavam de volta pela segunda vez, Fitz começou a imitar um robô comendo sorvete, fazendo barulhos mecânicos e derrubando gotas no chão. Skye ria tanto que quase tropeçou, incapaz de andar e Simmons tentou limpar a bagunça com um pano.
— Fitz, você é ridículo! — Skye disse, mas abraçou ele pelo ombro.
— Ridículo e genial — Fitz corrigiu, piscando.
— E fofo — Simmons completou, dando um beijo na bochecha dele.
May observava, tentando não rir. Eles são impossíveis, pensou.
Os três continuaram tagarelando na frente, Melinda, como sempre, se manteve em silêncio, apenas monitorando o caminho e cuidando qualquer ameaça possível. Quando estavam quase chegando no avião, Fitzsimmons saíram correndo na frente, ansiosos para entregar o doce para o chefe. Skye desacelerou o passou, parando ao lado de Melinda. Ela parecia querer fazer alguma coisa, mas estava tímida demais.
— O que foi, Skye? — perguntou May, tentando ser compreensiva — Pode falar qualquer coisa comigo, você sabe disso.
Skye hesitou por alguns instantes mas logo puxou a agente mais velha para um abraço apertado. May ficou surpresa com o gesto inesperado, mas logo abraçou a hacker com força.
— Obrigada, May! Hoje foi incrível. — ela sorriu sinceramente, como não fazia desde a traição de Ward.
— Tudo bem, Skye. Foi só sorvete.
A hacker hesitou novamente, assentindo com a cabeça e se dirigindo até a rampa. Antes que pudesse subir, virou para a agente e respirou fundo, como se buscasse coragem.
— Foi muito mais do que isso. Eu só queria que você soubesse que eu adoraria se você.. — ela fez uma pausa, buscando coragem — Eu adoraria ter você como mãe. Queria que soubesse disso.
Antes de May conseguir elaborar qualquer resposta, surpresa demais com a colocação, Skye já tinha entrado correndo, procurando por Coulson e pelos amigos. May ficou sozinha na rampa, contemplando a imagem do avião de combate e pensando no dia que eles tiveram.
É, ela também adoraria ser mãe de Skye e dos gêmeos maravilhas. De alguma forma, ela já era.
