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O cenho franzido, os ombros grandes meio tensionados, aquela curvatura para baixo nos lábios finos... Cada sinal de desinteresse clássico estava estampado em sua figura alta e robusta.
Não me lembro de ter visto um homem tão grande tão entediado ou, na verdade, tão desgostoso.
Será que a culpa era da loirinha tagarela sentada do outro lado? Sempre que ela falava alguma coisa ele só concordava com a cabeça e exprimia claramente um grunhido de insatisfação.
Mesmo há metros de distância, do outro lado do bar, eu consegui perceber que o que quer que devesse estar acontecendo entre eles, já não estava presente naquela mesa. No entanto, a loira esguia que estava sentada na frente dele, há centímetros de sua face, debruçada na mesma mesa que ele... Ela não conseguia perceber.
Talvez fosse culpa dele por se manter firme durante a conversa. Os traços de desaprovação dele eram sutis e eu era provavelmente o único desocupado o suficiente para reparar nisso.
As vezes olhava ao redor, como se estivesse planejando a rota de fuga.
A cerveja amarga que eu bebericava não conseguia lavar o que se enroscava na minha garganta quando aqueles olhos azuis e afiados reviravam os arredores em busca de uma intervenção.
Ele sentou-se melhor no banquinho de madeira quando ela o chamou para dançar. Era como se seu corpo estivesse dizendo “não” até este ponto. Se enrolou em uma justificativa abafada pela música alta, deixando que cada detalhe de virilidade em seu rosto falasse por si quanto à seriedade das palavras, as quais eu sequer podia adivinhar.
Trocaram algumas frases, ele desviou o olhar enquanto se levantava.
Ele não estava à fim mesmo. Cansado? Bêbado demais? Comprometido? Qual a razão de detestar aquela moça?
Bem, depois de assisti-los por torturantes quinze minutos ainda era impossível decifrar os motivos de seu desgosto oculto.
Ficaram próximos, ela entrelaçou os braços no ombro dele, o fazendo se curvar sobre ela sem ter muita escolha.
Você não quer dançar essa música com ela, quer? Você é o homem, por que não pode ir embora se quiser?
Seria demasiadamente conservador para negar-se a liberdade de recusar uma garota?
Nenhuma tentativa dela está funcionando, porque todas essas tentativas partem do irreal pressuposto de que este homem está jogando seu jogo.
As mãos dele quase tocam a cintura dela, mas sempre tremem antes de realmente fazer, enquanto ambos se arrastam em uma dança lenta.
Seu cabelo loiro acinzentado e curto combina perfeitamente com as mandíbulas definidas que ele cerra fracamente. Ninguém nota seu incômodo. Por que? Ele é másculo demais para se sentir assediado por uma vadia patética?
Dois metros de uma beleza viril contra esforços, sinceramente, esquisitos. Onde será que isso vai dar?
É só ridículo ver ela achar que ele está em seus braços porque... Porque ele está olhando para mim.
Sentiu que estava sendo observado, não é? Me desculpe, não posso evitar notar o seu desconforto.
E enquanto ela se distraí numa dança ensaiada e mecânica, o olhar dele brilha diante da minha admiração.
Esperança vívida surge em suas orbes claras. O que foi? Você existe, eu posso te ver, porque a surpresa?
Os cantos dos lábios sutis se curvam em um sorriso tímido na minha direção.
Não sorriu para ela a noite toda, mas... Acabou de sorrir para mim.
Não sei se tenho algo a ver com isso de verdade.
Ao longe ele penetra em minha mente agitada com o azul pálido, encoberto por duas pupilas bem dilatadas.
Julgá-lo como intimidador é inevitável. É como se pudesse me possuir com esses olhos lindos e seu interesse predatório. Mas eu não estou intimidado pelo seu tamanho ou sua curiosidade, porque ele é uma gracinha.
Seus ombros caem em um relaxamento automático, seus lábios se comprimem e agora está desconcertado, positivamente desconcertado.
Sabe... Há algo tão bonito em deixar outro homem embaraçado, a sensação é indescritível, como a morte, como algo que não se pode explicar com exatidão. Mas neste caso seria mais como retornar à vida, do que perdê-la.
Por que não estava gostando da garota? Por que está olhando para outro homem?
É o flerte mais genuíno que eu já recebi.
Este tempo todo esperando para ser resgatado, ou esperando por qualquer coisa que fosse mais real do que só mais uma garota que exalava desespero. Pobrezinho, deve estar louco por alguém que dance de verdade com ele.
Os olhos dele se reviram para o lado poeticamente e aquele sorriso delicioso se estende por seu rosto.
Algo me diz que eu deveria estar me sentindo ameaçado por um cara como ele ficar me encarando, mas... Tudo o que eu consigo sentir é um aperto horrível no meu peito.
Mais uma coisa que o álcool e a cevada não conseguem limpar do meu organismo.
Me olha de cima à baixo e acena com a cabeça. Se eu ainda tinha dúvidas se era para mim ou não... Agora acabou de me responder.
Aponto para mim mesmo, ele abaixa a cabeça em concordância pela segunda vez.
Você quer que eu te resgate? Quer me ver desviar de cada uma dessas pessoas, quer me ver tentar encontrar o caminho mais rápido até você? Até que eu esteja perto o bastante para poder simplesmente se separar dessa garota sem explicação ou razão aparente?
A expectativa dela se quebraria em pedaços e toda sua atitude desapareceria como devia ter feito há um bom tempo. Que pena, o seu homem está dando atenção para outro, não é a hora de procurar outra estratégia de flerte? Aparentemente você precisa de uma, é uma loira burra qualquer, está em seus olhos. Não sabe que não há um manual para flertar? Está fazendo este homem perder o tempo dele.
Praticamente me pedindo que terminasse de resolver o seu problema fútil com esse olhar marejado por exaustão.
Que coisa mais linda você é.
Não me faça ter que intervir.
Não me faça ser ou não responsável por seu resgate.
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