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Já tinha algum tempo que Francisca suspeitava, desde que tinha seus mais ou menos 15 ou 16 anos, que talvez Augusto gostasse dela. Não que não gostasse de Augusto, eram melhores amigos afinal, amigos de infância! Era só que por mais doce e educado que ele fosse, como um verdadeiro cavalheiro deve ser, era muito tímido. Um tanto frouxo, baixando a cabeça para o que o pai mandava, sempre tentando agradar os próprios parentes para evitar brigas mesmo que sua opinião fosse diferente.
Augusto era um doce de pessoa, gentil e prestativo, mas também se envergonhava fácil e isso era um pouco… Sem graça. Mesmo que ele fosse bonito e se vestisse bem, fosse bom atirador e culto como o filho do dono de uma editora deve ser, ainda era um pouco sem graça.
Talvez Francisca estivesse acostumada demais com os mocinhos dos livros de aventura, ou quando raramente lia romances que não tinham homens frios que precisavam ser amolecidos com amor ou qualquer ladainha e sim homens ousados que tiravam o chão das heroínas.
Levantou os olhos do papel, Augusto ainda estava com a mesma expressão espantada lendo O Castelo de Otranto. Mordeu o interior da bochecha para não rir, ele sempre ficava preso demais nas histórias.
Voltou para o rascunho, talvez o design do príncipe como um adulto estivesse parecido demais com a rainha? Não poderia mantê-lo para sempre como criança, escapismo ou não.
Claro, a história tinha mais apelo sendo uma coisa gradativa em vez de um conto ou crônica, um livro inteiro e pesado contando a saga do Príncipe dos Sustos. Definitivamente seria um livro por si só, a parte dos seus sustos ocultos. Os anos passavam, as circunstâncias ficavam mais graves, o príncipe crescia vendo tudo acontecendo ao seu redor e seu povo em perigo. Podia sentir o sorriso de orelha à orelha, a agonia do enredo e das reviravoltas!
Talvez pudesse escurecer as penas para ficar mais parecido com o rei? Levantou os olhos do papel, um murmúrio baixo ao fundo. Olhos finos? Olhou para o esboço no papel e riscou com o carvão. As penas deveriam estar mais arrumadas, ele não era mais um moleque, os olhos não podem mais ser redondos, devem ser assustadores e penetrantes.
Francisca riscou e riscou até que tivesse algo que servisse, algumas páginas descartadas de lado, finalmente algo que fazia sentido. Ainda se parecia um pouco mais com a rainha do que gostaria, mas estava bom.
Levantou os olhos do papel, Augusto estava encarando o livro fechado em mãos, o cenho franzido.
— O que foi?
— Eu não gostei do final. — saiu numa voz murcha e quieta.
Francisca deu uma gargalhada alta tal qual uma bruxa de contos de fadas, jogando a cabeça para trás e tudo.
Conversaram sobre o livro ao ponto que esqueceu de mostrar como desenhou o príncipe como um adulto para o final da história. Quando foi começar a escrever o próximo ato do enredo de noite, Francisca se deu conta que talvez tenha desenhado Henerval como um adulto um pouco parecido demais com Augusto. Talvez foi porque passaram o dia juntos e tinha uma referência bem na sua frente de um rosto, não era nada além disso.
Escreveu Henerval como alguém drasticamente diferente, todo grande artista usa ocasionalmente uma referência de algum conhecido, é fácil e familiar. Foi algo tão bobo que se esqueceu depois de alguns dias e nem conseguia mais ver as semelhanças nas outras vezes que desenhou o Príncipe dos Sustos.
Continuou escrevendo e desenhando até ter um bom compilado de contos e crônicas para seu livro de sustos ocultos, assim poderia finalmente levar na editora da cidade para publicar. Ou foi o que Francisca pensou antes daquele velhote maldito abrir a boca.
Saiu às pressas da editora, esbarrou em Augusto que não deu um pio, nem uma única palavra, mesmo tendo claramente ouvido a conversa que ela teve com o crápula do senhor Damastes. Grande amigo de infância esse.
Os olhos ardiam com lágrimas da mais pura raiva e frustração. Francisca correu para o cemitério da cidade.
Se perdeu no tempo, na raiva, no choro, nas lamúrias.
Então um som, uma criatura apavorante. Não era um homem, homens não tinham rostos cobertos de penas, garras afiadas ou asas pesadas nas costas, muito menos olhos como os de uma coruja. Olhos que viam o fundo da sua alma e causaram um arrepio por toda a pele.
O sorriso torto e afiado, uma voz doce como uma canção. Henerval.
Francisca teria dado um tapa no próprio rosto para ter certeza que não dormiu no cemitério. Henerval era um personagem, não uma pessoa! Ele não deveria ser real, ele não deveria fazer uma oferta boa demais para recusar ou ficar pulando de lá para cá ao seu redor com gracejos. As mãos como as patas de uma ave pegaram o livro das suas.
O príncipe que criou, que escreveu, estava bem na sua frente, falando e respirando. O Príncipe dos Sustos que não passava de algo criado por sua imaginação era carne e osso e penas!
Henerval sorriu, ofereceu-se para levá-la dali, daquela cidade pequena sem nada e sem futuro se ela o ajudasse a salvar seu povo em Topus Terrentus. Como Francisca poderia negar? Por anos sonhou com uma aventura como as que leu em livros, com alguém que a tirasse do chão onde pisava e desse fim de mundo que morava.
— Tem que relaxar… Por quê não lê o poema que acabou de escrever?
Francisca teria achado suspeito se não tivesse escrito Henerval exatamente do jeito que escreveu. Um mocinho completamente bom era sem graça demais, faltava ousadia e aventura, faltava mistério. E ele era convincente, confiante, Francisca foi facilmente convencida. Podia confiar em Henerval, afinal ela foi quem escreveu ele para começo de conversa e não tinha como uma criação trair ou enganar seu próprio criador, não como um amigo frouxo que baixa a cabeça para tudo que o pai fala.
Um toque gentil na testa, a voz como uma melodia nos ouvidos, teve sua alma arrancada para além das amarras e restrições de um corpo mortal. Francisca não era mais, de agora em diante era Frankelda.
