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Memórias da "Ressurreição" de Brás Cubas

Summary:

Rio de Janeiro, 1937. Após um dia cheio de emoções, decepções e brigas, Brás Cubas (personalidade rica, controversa e encrenqueira da "gema" carioca) encontra seu triste fim em um beco imundo no centro da capital do país.

... ou este teria sido o seu destino, caso uma alma caridosa não tivesse salvo sua vida.

Notes:

Esta história é baseada no jogo A Investigação Póstuma (The Posthumous Investigation) que se trata de um mashup de quatro obras de Machado de Assis: "O Alienista", "Dom Casmurro", "Quincas Borba" e, óbviamente, "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Aqui nesta fanfic eu adiciono um personagem extra, do livro "Ressurreição" também de Machado de Assis.

A história começa com um GRANDE SPOILER do final do jogo, então só proceda caso você já tenha jogado ou assistido uma gameplay até o fim.

Chapter Text

Eu sempre me indaguei sobre o que me mataria primeiro: a pneumonia, a bebida ou algum marido furioso. Uma turba de arruaceiros grevistas ou mesmo os desmiolados fãs de Sophia Straw também estavam inclusos na lista. Diabos, até mesmo minha irmãzinha Sabina, meu sócio Chris e meu cunhado Cotrim também eram opções possíveis.

Mas... isto? No final das contas, foi isto o que me matou? Um acesso de tosse e uma queda desajeitada no chão de um beco imundo, com a adaga dos Humanitas perfurando meu peito? Decerto o caos e o acaso são as forças motrizes do universo. 

O aço frio perfurou o meu peito. Meus pulmões, antes preenchidos pela doença, agora se preenchiam com meu próprio sangue. Senti o gosto metálico em minha boca e, debilmente, tentei buscar pelo lenço que Virgília me deu ao se despedir de mim... e lembrar-me deste fato fez a iminência de minha morte me parecer mais doce.

"Céus, o que aconteceu?!" perguntou uma voz atrás de mim.

Julguei que já estivesse delirando com a perda de sangue, ouvindo vozes de pessoas que não estavam presentes. Ou talvez fosse a voz de um anjo (ou demônio) que estava vindo buscar minha alma e tivesse ficado aparvalhado ao notar meu irônico e débil fim, literalmente jogado na sarjeta.

Pensar nisso acendeu uma faísca em meu orgulho e, por um instante, julguei que seria capaz de reverter este triste cenário e salvar a mim mesmo, arrancando do meu peito a adaga que agora se encontrava enterrada até a ponta em um de meus pulmões.

"NÃO FAÇA ISSO!" a voz gritou. "Não remova a lâmina, você vai piorar a situação!"

O susto com aqueles gritos me fez tossir novamente, espalhando mais sangue pela boca. Por que a voz misteriosa estava preocupada com isso? Eu já estava condenado, não estava? 

A sensação fria da morte foi momentaneamente afastada quando senti mãos quentes e afáveis tocarem meu corpo. Fui delicadamente virado de barriga para cima e, deste modo, consegui ter um vislumbre do anjo (ou demônio) que veio me buscar. Ou pelo menos sua silhueta, uma vez que minha visão estava ficando turva.

A julgar pelo chapéu e pelos ombros largos, era um homem. E isso é tudo o que me lembro, antes de perder os sentidos.

...........

Minhas Memórias Póstumas deveriam ter começado neste momento, mas não começaram. 

Lembro-me de abrir os olhos, esperando encontrar diante de mim o Paraíso, o Inferno, o Purgatório ou talvez o completo e inexorável nada. Mas o que vi foi o teto branco de um quarto de hospital e um estranho objeto metálico tapando parte de minha visão.

Logo me dei conta que eu estava deitado dentro de um horrendo cilindro metálico. Do que se tratava aquele maquinário infernal? Estava eu sendo finalmente punido pelos meus pecados? Era aquele aparato o brinquedo que o demônio usaria para me castigar pela eternidade?

Debilmente, tentei me mexer para escapar, mas meu corpo estava extremamente fraco. Minha respiração estava difícil e uma dor lascinante se espalhava pelo meu peito. Abri a boca e um ganido miserável escapou dela, o pedido de ajuda de um animal agonizando.

"Doutor! Ele acordou!" uma voz suave ecoou pelo quarto.

Ainda atordoado com a dor, a fraqueza e o medo, demorei alguns segundos para finalmente me dar conta de que eu estava em um hospital. Os eventos que levaram à minha queda no beco no centro da cidade começaram a voltar. Se eu ainda estava vivo, certamente eu havia sido recolhido e levado para a Santa Casa.

Com minha visão ficando mais clara, pude ver a figura austera e preocupada de um médico entrando no meu quarto e se aproximando de mim. Parecia ser um pouco mais jovem que eu, com fios brancos começando a salpicar sua cabeleira castanha. Tinha um rosto longo, bonito e jovial, embora com uma nevoa de amargura sobre ele.

"Senhor Cubas? Como está se sentindo?" ele perguntou. O tom de sua voz exalava genuína preocupação, algo raro nos médicos de hoje em dia.

"P-péssimo..." balbuciei com dificuldade. "... o q-que é... esse a-aparato demoníaco...?" meus olhos miraram na monstruosidade metálica que envolvia meu corpo.

"Isto é um Pulmão de Aço." o médico deu uma batidinha na máquina. "É graças a ele que o senhor está vivo. Esta máquina cria uma pressão negativa ao redor do seu tórax e permite que o senhor continue respirando. Três dias atrás o senhor sofreu um acidente e acabou tendo seu pulmão esquerdo perfurado. Tivemos que levá-lo ás pressas para o hospital, fazer uma colapsoterapia e, por fim, colocá-lo nesta máquina. E receio que o senhor terá que se acostumar com ela, pois precisa ficar aqui pelo menos por mais uma semana."

"T-três dias...?" murmurei. "E-estou desacordado...  há t-três dias?"

"Levando em conta que a adaga errou seu coração por milímetros, é um milagre o senhor ainda estar vivo." 

"P-percebo... e... q-quem foi... que me r-resgatou...?"

O médico olhou para baixo antes de responder minha pergunta.

"Fui eu." ele disse, por fim. "Naquela noite eu estava ajudando o Doutor Bacamarte com um carregamento de remédios para sua clínica. Enquanto ele conversava com o farmacêutico dentro da farmácia, eu fiquei do lado de fora para fumar um cigarro. E poucos minutos depois..." ele fez uma pausa. "E poucos minutos depois, vi o senhor entrar no beco. Parecia não estar passando bem, então decidi me aproximar. Foi então que o senhor teve um acesso de tosse e caiu, empalando-se com uma adaga que estava guardada em seu casaco. Eu tive que agir rápido."

Que papelão! Senti uma vergonha imensa de alguém ter presenciado aquela cena vergonhosa que protagonizei! Mas uma vez que nem a vergonha, nem a adaga dos Humanitas, foi suficiente para me matar. Eu teria que continuar vivo. Pelo menos por mais algum tempo. Meu ego estava mais ferido que meu peito, mas senti-me obrigado a agradecer meu bem-feitor.

"O-obrigado, doutor... *cof*" tossi levemente. "Como o s-senhor se chama...?"

"Félix." ele disse, olhando para baixo. "E honestamente, senhor Cubas... eu creio que o título de 'doutor' não me seja mais merecido. Agora, descanse. Isso é imperativo para sua recuperação."

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele saiu do quarto, deixando uma aura de mistério no ar. 

Suspirei e sorri. Ao que parecia a minha "ressurreição" ainda me guiaria por novos e curiosos caminhos nos dias que se seguiriam.